
Tony Monti
De São Paulo
Não tenho pressa, costuma dizer minha amiga Mariana. A ideia, imagino, é que um esforço longo e organizado produza mudanças e aumente as possibilidades de viver bem. Hoje também, mas não necessariamente hoje. Como pregam os bons jogadores de pôquer, não se trata de fazer um balanço de perdas e ganhos ao fim de uma noitada. Uma noite é período pequeno demais, os resultados ficam sujeitos às vontades do baralho. A longo prazo (long run, os jogadores de pôquer costumam dizer isso em inglês), no entanto, sorte e azar vão se compensando, e o trabalho organizado é que será a medida dos lucros.
Há maneiras muito diversas de encarar a vida. Abro mão, antes de tudo, de querer provar a minha versão (embora não desista de tentar uma boa conversa sobre o assunto). Diferente do pôquer, minha experiência no mundo não é delimitada por regras claras que podem ser escritas em poucas páginas. As regras mudam enquanto jogo. Só conheço parte das regras. Não sei quais regras conheço e quais apenas acho que conheço. Olhar assim este não-jogo cria uma perspectiva um tanto trágica do que seja estar vivo. As causas do que acontece escapam o tempo todo.
Onde cabe então, entre as determinações do mundo, a liberdade de escolher? Eu poderia dizer que a pergunta sobre a liberdade é falsa em si, como pergunta, mas prefiro continuar aqui com o pôquer. Em um conjunto de cinquenta e duas cartas embaralhadas, eu não sei qual é a primeira. Se eu tentar adivinhá-la, errarei quase sempre. Não é útil, portanto, conceber meu controle sobre o baralho a partir de acertar todas as cartas. Sabe-se, no entanto, que acertamos mais ou menos uma carta em cada cinquenta e duas.
Escolhemos nos interstícios das limitações impostas pelo corpo e pela cultura. Conhecer o baralho não basta para saber a primeira carta. Guiar-se pela ideia do "long run" é agir com a consciência de que erraremos cinquenta e uma vezes a cada cinquenta e duas tentativas. Sem este dado, aposta-se demais, com a esperança de ganhar logo - um descompasso entre a expectativa e os caprichos do baralho.
No mundo das coisas e não no das abstrações da matemática, conhecer o baralho significa não cair nas armadilhas irracionalistas que anunciam a alta freqüência de cartas erradas como o caos absoluto. É a partir de fatos como sou explorado no trabalho, não consigo voar como os pássaros e o baralho tem cinquenta e duas cartas que posso melhor fazer escolhas, investir esforços. A diferença entre o trabalho e a esperança alienada é este conhecimento. A esperança adia a recompensa, sem critérios, abre mão de, em um mundo de aparência trágica, revoltar-se.
A relação entre o resultado e o esforço nem sempre é tão direta quanto quando se abre uma lata de refrigerante. Não é sempre esotérico um raciocínio mais elaborado que uma marretada. A ansiedade por resultados em sistemas mais complexos parte de uma idealização (má avaliação) de nossa liberdade e de nosso controle sobre as coisas. É a razão abstrata que nos dá, às vezes, possibilidades práticas nestes sistemas. Se não temos poderes mágicos, é preciso considerar que não sabemos a primeira carta. E que, antes de ser justo ou injusto, o baralho tem cinquenta e duas cartas. A abstração pode ser o modo mais prático de agir em sistemas complexos. Diferente da lógica do abridor de latas, a abstração e a prática, nesse caso, estão muito próximas.
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