
Atualizada às 16h23 |
Luiz Garrido/Reprodução
John Lennon e Yoko Ono: vida de casal X convívio com os Beatles
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Paquito
De Salvador (BA)
John Lennon se expôs como nenhum outro artista pop jamais o fez, antes e depois dele; em entrevistas - a mais famosa, à Rolling Stone, na qual declarou ter o sonho acabado - e em discos, em particular, o John Lennon/Plastic Ono Band, que contém as canções Mother, Working class hero e God. Suas melhores músicas nos Beatles são aquelas nas quais trata de suas angústias e desejos mais pessoais, mesmo num sentido lato: Help, Strawberry fields forever, In my life, I'm a loser, só pra citar algumas.
Uma biografia sobre ele, portanto, funciona mais como um apêndice a suas falas e canções. Se o leitor quer detalhes - e a maioria quer o ídolo esmiuçado e mastigado quase antropofagicamente -, vai encontrá-los em John Lennon, A vida, de Philip Norman (Companhia das Letras). Mas o essencial está mesmo nos versos e muitas entrevistas que concedeu ao longo dos seus quarenta anos de vida.
Aparentemente de uma transparência a toda prova, Lennon também sabia iludir. Quando os outros três Beatles se encontraram, por ocasião do projeto Anthology, desmentiram John irônica e levemente no que se refere a dois fatos: eles não teriam fumado maconha no banheiro do Palácio Real, antes de terem recebido as condecorações de Membros do Império Britânico, nem chegaram a tocar com Elvis quando o conheceram; ao contrário do que teria afirmado John, também dado a bravatas.
Quando se leva em conta que cada pessoa que participou em algum nível da vida dos Beatles também se sente no direito de dar versões "alternativas" da história, é preciso reconhecer as dificuldades ao se escrever uma biografia de alguém tão famoso e importante, principal personagem, ao lado de Dylan, a dar à música pop o status de arte.
Philip Norman, pelo menos, não é presunçoso como Bob Sptiz, outro biógrafo do Beatles, cujo livro comentei aqui nesta coluna, que se arvorou a ter sido mais "verdadeiro" que os próprios Beatles. Nos agradecimentos, Norman diz que "não se pode esperar que uma obra deste tamanho seja cem por cento à prova de erros" e pede desculpas antecipadamente pelos que possa ter cometido.
Tendo em vista também que a história dos Beatles já foi contada e recontada milhares de vezes, e por isso mesmo, há fatos sobre os quais não há mais nada a acrescentar, Norman escreveu uma obra que fica mais interessante quando se percebe a transformação por que passou o jovem que, no início da fama, era politicamente incorretíssimo, depois passou à militância política intensa e ingênua, aos olhos de hoje; para, por fim, se isolar e, contrariando as normas do mundo pop, criar seu filho até os cinco anos de idade, tomando o lugar que seria o da mãe, Yoko, que passou a cuidar dos negócios da família.
Yoko, aliás, é muito bem tratada na biografia, ao contrário do que rezam as lendas que a tratam como manipuladora e tudo o mais. No entanto, a julgar por seus depoimentos, ela sempre tem uma visão demasiado altruísta de si mesma, ao expor, por exemplo, os conflitos com os outros Beatles:
"Eu não queria particularmente ser parte deles. Mas, àquela altura, ele já havia afastado da minha vida a maioria dos meus amigos da vanguarda e eu não tinha mais ninguém com quem fazer música. Eu não sabia como poderia me encaixar, mas John estava convencido de que era possível."
Noutro momento, quando decidem ter um filho, após a reconciliação, em 1975, ela diz: "Eu queria compensá-lo por todo o sofrimento que lhe havia causado por causa da separação. Ele queria o bebê, por isso fiquei decidida a tê-lo".
O autor lança, positivamente, uma luz maior sobre o pai de John, Fred Lennon, e livra-o da pecha de ter abandonado o filho irresponsavelmente, também ao contrário do que se tornou comum contar. E, quanto a Lennon pós-Beatles, é dissecada toda a luta dele pra se livrar do processo de deportação dos EUA, por motivos políticos, como se provaria mais tarde. Destaca-se também a descrição dos anos de recolhimento no Dakota, em Nova Iorque, até o trágico assassinato, em 1980.
Trágica, aliás, é a palavra adequada pra caracterizar a vida do artista, que teve uma infância dividida entre o pai, que estava fora da Inglaterra, e a mãe, cuja morte ocorreu quando ele tinha dezessete anos. A seguir, em 1962, morre também um dos melhores amigos, Stu, e em 1968, outro choque: a morte de Brian Epstein, o empresário com quem ele mantinha uma relação de afeto, apesar da rispidez com que comumente o tratava.
Tudo isso fez de Lennon uma pessoa partida, insegura e dada a extremos, para o bem e para o mal. Ironicamente, no entanto, as suas lacunas emocionais forneceram o melhor da sua obra, mas Norman não se detém em análises estéticas e, quando o faz, às vezes derrapa numa linguagem empolada, como no trecho, ao tratar da interpretação de John para Twist and shout, em que diz:
"Muitas vezes, ao cantar as palavras insignificantes (...) seus olhos se tornam de um vazio pétreo, como algum cavaleiro de mármore jazendo por toda a eternidade com as mãos no peito no silencioso transepto de uma catedral."
No final do livro, numa das últimas entrevistas de Lennon, ele mesmo responde às acusações de que poderá ser alvo, por conta de atitudes contraditórias: "Nunca reivindiquei divindade. Nunca aleguei pureza da alma. Nunca pretendi ter a resposta para a vida. Só posso fazer canções e responder perguntas tão honestamente quanto consiga, nada mais, nada menos."
Paradoxalmente, pleno de humanidade, o mito ressurge, vivo e desnudo, como dizia o poeta.
Terra Magazine