
Julio Gomes de Almeida
De São Paulo
Como revelaram os resultados do PIB no último trimestre de 2008, a crise internacional abalou de forma surpreendente o otimismo até então muito elevado de todos os agentes privados brasileiros, sem que do lado externo (exportações) tivéssemos qualquer compensação. Em retrações anteriores sofridas pelo Brasil e motivadas, via de regra, pela sua vulnerabilidade externa, as exportações cresciam incentivadas pela desvalorização da moeda, o que servia de compensação ainda que parcial para a menor demanda interna. Isso amortecia a retração e colaborava para uma mais rápida reativação da economia. No contexto atual, o real se desvalorizou expressivamente, mas a reação pelo lado das exportações não é possível já que a crise tem natureza global.
Certamente, o tamanho do tombo da economia brasileira logo após o agravamento da crise externa em setembro do ano passado tem a ver com esse significado global da crise, o que afetou sobremaneira as exportações do país de commodities e de bens industrializados. Mas também guarda relação com o altíssimo dinamismo com que os investimentos, o consumo e o crédito vinham evoluindo. Pouco antes da crise externa, as empresas no Brasil ampliavam seus investimentos fixos na base de 15% reais na comparação anual e as famílias compravam bens duráveis a crédito em escala superior a 20% com relação a um ano antes. Os financiamentos bancários, que cresciam a taxas superiores a 35%, acomodavam o boom simultâneo de investimentos e de consumo.
Foi esse auge curto, porém sem precedentes nos últimos 30 anos, que repentinamente foi interrompido em razão das profundas revisões que todos os agentes promoveram em suas decisões de gasto e de concessão de crédito a partir da crise externa. A forte retração da economia brasileira no último trimestre de 2008, portanto, não decorreu somente da restrição do crédito externo e interno, muito embora o corte das linhas do exterior e a maior seletividade e encarecimento dos financiamentos do sistema bancário doméstico tenham constituído um destacado determinante. O retrocesso foi mais aprofundado porque juntamente com a crise de crédito as expectativas de empresários e consumidores desabaram.
Sem crédito e com empresas e famílias com muito menor disposição para investir e consumir, a economia caiu 3,8% nos três últimos meses do ano passado. De início, a crise foi praticamente industrial com o PIB desse setor retrocedendo 7,4% no mesmo período, em função, especialmente, do colapso das vendas e da produção de setores produtores de bens de capital e bens de consumo mais dependentes de crédito, como habitação, automóvel e outros bens duráveis.
Cabe sublinhar que esta etapa inicial de retração econômica está tendo sequência no presente momento, abrangendo ou "contaminando" em maior escala setores como o agropecuário e serviços. A queda da demanda intermediária da indústria e o menor consumo de bens básicos provocado pelo maior desemprego são responsáveis por esse efeito secundário do impacto inicial da crise externa sobre a economia brasileira. Esses desdobramentos devem ser responsáveis por um crescimento muito baixo ou mesmo negativo do PIB no primeiro trimestre de 2009. Mas, devemos nos preocupar também com o que pode ser o início de uma "segunda crise" capaz de instalar uma nova onda de efeitos encadeados adversos na economia com grande potencial de agravar o quadro econômico para o corrente ano. Nesta segunda crise, o papel das decisões dos bancos em contrair o crédito é o fator determinante.
Há uma errônea convicção entre os analistas e mesmo junto a setores do governo de que o crédito foi normalizado no país, o que pode ser verdadeiro em parte em termos de volume de operações do crédito ao consumidor. Para o financiamento às empresas, no entanto, as indicações são precisamente opostas: nesses primeiros meses de 2009 está ocorrendo um novo e grave estrangulamento de crédito. No primeiro bimestre, tomando como referência o mês de dezembro do ano passado, o novo crédito concedido com recursos livres dos bancos - ou seja, as concessões acumuladas no mês - declinaram 30% para as empresas, sendo de 7,2% a redução de fevereiro frente a janeiro. No caso de pessoas físicas esses percentuais foram, respectivamente, de -9,9% e -8,4%.
Diante de uma menor disponibilidade e muito mais caro financiamento, as empresas cortam ainda mais seus investimentos, reduzem estoques, contraem adicionalmente as compras de seus fornecedores e despedem mais trabalhadores. Buscam um ajuste microeconômico que para muitas delas consideradas individualmente pode desafogar a restrição de liquidez. Porém, do ponto de vista do seu conjunto e da economia como um todo, tais iniciativas criam um novo vetor de retração econômica.
Somente muito recentemente o governo brasileiro vem mostrando maior preocupação com o crédito em si. De fato, durante os primeiros meses de crise internacional as autoridades monetárias agiram na expansão da liquidez bancária que se contraíra em especial para os bancos pequenos e médios. O suposto, o qual não se revelou verdadeiro, era de que o aumento da liquidez automaticamente levaria à recomposição do crédito. O governo também procurou ampliar o crédito para a agricultura, exportação e habitação. Mais efetivas para minimizar a restrição do crédito foram as ações de ampliação dos recursos do BNDES, mas aí há a limitação de que os recursos do banco de desenvolvimento, especialmente em suas operações diretas (as que mais cresceram no período posterior à crise), são direcionados às empresas de maior porte, enquanto as empresas mais atingidas pela menor disponibilidade e encarecimento de linhas foram as de menor porte.
Para ajudar no refinanciamento externo das empresas brasileiras, que sofrera uma descontinuidade com a crise internacional, o governo anunciou um programa importante: a disponibilização de linhas com recursos das reservas do país no montante de até US$ 20 bilhões para empréstimos às empresas com a intermediação dos bancos. A linha até agora não funcionou. Tentando minimizar a redução da captação por parte de bancos de menor porte, foi instituído um sistema de garantias com limites de valor por investidor, para colocações de depósitos a prazo dos bancos junto ao público, através do Fundo Garantidor de Créditos. A medida é muito recente para uma avaliação de seu alcance.
Já as medidas na área da liquidez bancária foram eficazes e a injeção de recursos para os bancos chegou a R$ 100 bilhões em reduções de recolhimentos compulsórios. Mas, como o Banco Central não vinculou ou procurou incentivar a utilização desses recursos no financiamento das atividades econômicas, nada disso se traduziu em crédito que, ademais de escasso, ainda encareceria sobremaneira. A redução da taxa básica de juros é relevante para ajudar a reconstituir o crédito na medida em que não emprestar ou não conceder crédito novo torna-se uma decisão menos atrativa para os bancos se as taxas de juros chegarem a um nível baixo. Mas, como se sabe, as reduções que o Banco Central promoveu em janeiro e em março são ainda tímidas para esse objetivo.
Em suma, ou as medidas até agora adotadas não tiveram êxito, ou foram parciais quanto ao seu objetivo ou podem ser consideradas ainda tímidas para ampliar e melhorar as condições do crédito. O custo dessas limitações da política econômica pode ser o agravamento da recessão da economia brasileira no corrente ano.
Terra Magazine
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Reprodução
Henrique Meirelles, presidente do Banco Central brasileiro
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