
Amilcar Bettega
De Paris
O sol está alto, sozinho no meio do céu azul, e desperta as partículas de mica na superfície áspera da plataforma. É uma velha plataforma de salto em concreto bruto, que arde sob a planta dos pés. O jovem está escorado no guarda-corpo da plataforma, um tubo de aço recoberto do cinza de uma tinta anti-ferrugem. Tem as nádegas apoiadas na barra de ferro e as pernas espichadas à frente, formando um ângulo obtuso com o tronco e cruzadas ao nível dos pés, de maneira que o direito se apoia sobre o esquerdo. De tempos em tempos, descruza os pés para melhor suportar o calor do concreto. Suas mãos também estão apoiadas no tubo, uma de cada lado do tronco. Naturalmente que a barra de ferro está ainda mais quente do que o concreto.
É uma velha plataforma de salto, construída junto a uma piscina pública deixada quase ao abandono numa pequena cidade de interior também ela quase abandonada a eternos dias de verão. A água é um pouco turva, e várias folhas, pedaços de papel, tocos de cigarro e alguns insetos mortos se acumulam junto às bordas. A superfície da água está completamente imóvel.
Ele veste apenas um velho calção de banho e está, igualmente, imóvel. O sol queima-lhe a pele dos ombros, braços e coxas mas, mais do que um desconforto, transmite-lhe certo prazer.
Se alguém o visse assim, sozinho na plataforma (o que é bastante improvável, dado o estado de abandono de tudo o que o cerca), escorado na barra de ferro, sob um sol a pino, poderia pensar que o jovem adia o momento do salto por medo, indecisão ou algum outro motivo menos óbvio. Mas diríamos que não é nada disso. Ele está ali. Simplesmente, em cima da plataforma, escorado na barra de ferro, sob um sol que arde no meio de um céu azul.
É o céu, mais do que o sol, que confere cor à imagem, cuja essência é dominada pela cor de cimento da plataforma, pelo cinza do guarda-corpo, o aspecto turvo da água e até pelo tom mais ou menos bronzeado do corpo do jovem e seu calção desbotado.
Talvez por isso, e apesar da explosão de luz que proporciona o sol brilhando sozinho no meio do céu azul, é como se víssemos uma imagem em preto em branco.
Se alguém, portanto, o visse ali em preto e branco, sozinho em cima da plataforma de cimento sob o sol, poderia facilmente pensar em uma fotografia. Alguma coisa naquela imagem - à primeira vista a sua imobilidade, mas não é só isso - remete a uma fotografia em preto e branco.
Pois finalmente é assim que o vemos, como em uma fotografia em preto e branco: sozinho em cima da plataforma de cimento, sob um sol alto, escorado na barra de ferro do guarda-corpo. Há algo de espera na atitude deste que já podemos chamar de personagem disto que já podemos chamar de quadro. No fundo, tanto ele, o jovem, quanto a plataforma parecem à espera de algo, não sabemos exatamente o quê.
Talvez alguma coisa que os tirasse da imobilidade em que se encontram. Ou quem sabe o contrário: algo que os fixasse para sempre numa espécie de composição "jovem sobre plataforma".
Em ambos os casos, o nosso olhar é a única possibilidade para que o impasse se resolva.
E porque é preciso um título para o quadro, olhamos para o jovem sobre a plataforma de cimento, sozinho sob o sol a pino, escorado na barra de ferro e à espera. Para sempre à espera.
Terra Magazine