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Quinta, 16 de abril de 2009, 08h17

Pra não dizer que não falei de flores

Fabio Pozzebom/Agência Brasil
Foi difícil me defender dos críticos de Fernando Henrique Cardoso, confessa Sírio Possenti
"Foi difícil me defender dos críticos de Fernando Henrique Cardoso", confessa Sírio Possenti

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Sempre achei que não vale a pena escrever uma coluna para dizer que o verbo "adequar" é defectivo ou que o mais-que-perfeito de "ir" é "fora", assim como o do verbo "ser". Muito menos para repetir aquilo que todo mundo acha sobre certos temas. Da mesma maneira, não vale a pena haver uma coluna de divulgação científica para dizer que pardais têm penas e duas asas (sim, duas asas, e que servem para voar!). Aliás, não há colunas de divulgação científica para dizer tais platitudes. É duro reconhecer, mas é só no campo das línguas que existem colunas para repetir pedaços de aulas de primeiro grau.

Há duas razões básicas para escrever sobre língua. A primeira é mostrar que grande parte do pretenso saber que se divulga nos manuais e nas colunas-dicas é repeteco banal ou grossa bobagem. Quando quero saber se vale a pena comprar ou ler um desses livros do tipo não erre mais ou os quinze erros mais frequentes e como evitá-los de maneira simples e bem-humorada, dou uma olhada no que dizem sobre casos como "em domicílio / a domicílio", "risco de vida / risco de morte", "TV a cores / TV em cores" etc. Se encontrar uma regrinha besta, já sei que o autor é iletrado, que acredita em Papai Noel e que apenas copiou uma lição errada (e de um livro ruim; por isso nenhum deles cita suas fontes). Se o cara ensina, por exemplo, que se DEVE dizer "em domicílio" e se, por cima, acrescentar que assim é porque se diz "em casa", já sei que não conhece seu trabalho e está enganando leitores.

A segunda razão para escrever sobre língua é debater questões mais complicadas, problemas. Esta, na verdade, é a razão principal: analisar construções alternativas ou opinar sobre certas expressões que circulam pela mídia porque foram proferidas por personalidades e que todo mundo - incluindo a Danuza Leão (por que a família não gerou duas Naras??) - decidiu que sabe o que querem dizer, e tomar partido, propor uma análise, correr riscos, debater. Por exemplo, mostrar que não é racista uma expressão que todos consideraram que é (se todos acharam que é, então não deve ser; afinal, não é à toa que o país tem se saído mal em todos os testes internacionais de leitura...).

A semana passada foi interessante para a coluna. Os leitores devem ter sido movidos pelo espírito religioso, porque os e-mails (nunca foram tantos, acho que por causa do feriado), em sua maioria, apoiavam a análise proposta. Fiquei impressionado. E mais confiante no país, juro.

Mas também houve quem dissesse a seco que fiz aquela análise porque devo ser petista fanático e fã do Lula. A esses leitores, informo que já recebi recados irados de outras bandas político-ideológicas, quando defendi, há algum tempo, que uma frase de FHC não significava o que todos achavam que significava (a história se repete). Ele tinha dito, a propósito de uma discussão política cujos detalhes esqueci, que não era preciso ser burro para ser de esquerda. Ora, TODOS acharam que ele chamou a TODOS os esquerdistas de burros. Na coluna que então mantinha, defendi outra interpretação (não esqueçam, tratava-se de FHC!): que sua frase queria dizer que se pode ser de esquerda e ser inteligente ao mesmo tempo (difícil é conciliar inteligência com posições de direita...), que os dois predicados não são incompatíveis. Claro que ele achava que havia burrice em certas posições esquerdistas, mas, eu dizia, ele não achava que isso caracterizava a esquerda enquanto tal. Foi difícil defender-me dos críticos de FHC de então, como o é agora defender-me do besteirol comum aos opositores de Lula (é fácil encontrar nele mais defeitos do que se imagina, mas nem sempre os que lhe são atribuídos).

Também já defendi, por escrito e em intervenções públicas, que expressões como "a coisa está preta e vai ficar ainda mais feia" (uma frase de Gérson, falando do Fluminense) não são racistas. Que a menção à cor não tem nada a ver, aqui, com raças ou etnias, já que é uma metáfora cosmológica (o mesmo se diga de "período negro da história", por exemplo).

Seria bem mais fácil dizer que há racismo tanto em "período negro" quanto em "banqueiros brancos de olhos azuis". Mas, se é para dizer isso, por que estudar? A gente não vive defendendo que se deve melhorar o nível da escola? Então!

Espanhola

Ignácio de Loyola Brandão escreveu crônica interessante, no Estadão de 10/04/2009, chamada "Fazer nas coxas". Contava de uma viagem das que faz com frequência pelo Brasil. Desta vez, foi a Belo Horizonte, visitou um museu, comeu quitutes diversos e, lá pelas tantas, ele conta, teve uma aulinha sobre um idiomatismo: diante de telhas antiquíssimas, sua guia lhe disse "aqui você tem a origem da expressão fazer nas coxas". Ele explica, eu resumo: as telhas primitivas eram moldadas nas coxas dos escravos (mentira!!). Como as coxas eram de tamanhos diferentes, as telhas acabavam sendo irregulares, mal feitas. "Daí nasceu a expressão "fazer nas coxas" para algo mal feito", lhe disse a cicerone. E ele acreditou!

Parece que Ignácio não sabe nada sobre tecnologias antigas. Nem sobre práticas sexuais menos convencionais. "Fazer nas coxas" não é coisa do Kama Sutra, é verdade, mas não tem nada a ver com fazer telhas. É aquilo mesmo, Ignácio! Nessa toada, é capaz de ele achar que "espanhola" é só o feminino de "espanhol".


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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