
Atualizada às 09h20 Deolinda Vilhena
De Santos (SP)
Sede do Grupo Divulgação
Foto Deolinda Vilhena
Bibi Ferreira há muitos anos me disse que a palavra mais bonita para ela era "mambembe", perfeitamente compreensível quando se sabe que ela tinha pouco mais de dois anos quando fez sua primeira turnê pela América Latina.
Tendo eu começado no teatro com outros dois grandes mambembeiros, Maria Della Costa e Sandro Polloni, confesso que, em meus 32 anos de vida profissional, os melhores momentos vividos foram as longas e nem sempre fáceis viagens por esse país-continente...sem falar nas internacionais, consequência direta da paixão pelas artes cênicas.
Por isso, quando me vi há duas semanas saindo de Santos para São Paulo, onde tinha reuniões na Universidade de São Paulo, encontro com meus ex-alunos e a Trupe do Sinhá Zózima e de onde sairia num ônibus noturno para Juiz de Fora, retornando por 24h a Santos, antes de partir para uma curta temporada em Salvador, compreendi que sou mambembeira não apenas no teatro mas na vida simplesmente porque amo o novo, o desconhecido e porque após cada uma dessas viagens, mesmo as mais curtas, tenho sempre algo para contar e dividir com meus 17 leitores...
O SABER NÃO OCUPA ESPAÇO
Zé Luiz, a colunista, Amorim, Rosangela e Paulo César
Foto Grupo Divulgação
Não é novidade que o fazer teatral exige um constante aprimoramento construído pela pesquisa e pelo intercâmbio de saber, como anunciava o material de divulgação da XXIV edição do Seminário "Caminhos do teatro" sob os auspícios da UFJF - Pró-Reitoria de Cultura e Faculdade de Comunicação.
Novidade mesmo foi ver isso funcionar na prática como vi e vivi no final de semana que passei em Juiz de Fora, atendendo ao convite de José Luiz Ribeiro, misto de professor, diretor, ator, autor, formador de cidadãos, visionário e agora também meu amigo, quando tive a honra de inscrever meu nome no panteão do Grupo Divulgação.
Afinal, entre os muitos nomes que já estiveram no Forum da Cultura dividindo informações sobre seu campo de ação no fazer teatral estão nomes como Antônio Mercado, Benjamin Santos, Chico Pelúcio, Clóvis Garcia, Clóvis Levi, Fernando Mencarelli, Hamilton Saraiva, José Dias, José Eduardo Vendramini, Lauro Góes, Luiz Arthur Nunes, Lydia Kosovski, Maria Helena Kühner, Maria Pompeu, Pedro Paulo Cava, Rachel Araújo, Sérgio Sanz, Tânia Brandão, Ulysses Cruz e Umberto Magnani. São nomes de expressão que contribuíram para o crescimento do trabalho do Centro de Estudos Teatrais como um núcleo de ensino, pesquisa e extensão interligando a UFJF e a FACOM com a comunidade. Mas para mim são nomes de amigos, que um dia, de uma maneira ou outra cruzaram o meu caminho e que aprendi a amar e respeitar. Deixo por último o nome de Fausto Fuser, meu primeiro orientador, meu orientador de Mestrado, quis a vida que no Livro de ouro do Divulgação as minhas palavras viessem depois das que ele escreveu ano passado...coisas do acaso, se é que ele existe.
Impossível recusar o convite de um grupo para o qual sempre "é hora de refletir a praxis teatral e todos os seus agentes, de juntar a teoria à prática e investigar linguagens, correntes estéticas e ética teatral" afinal, lembra Zé Luiz "o teatro é uma arte tribal, carnal e presencial".
Éramos quatro, como os mosqueteiros, respondendo presente "ao convite dos tambores que ruflam no coração de cada homem de teatro". Quatro mosqueteiros reunidos "para trocar idéias e afetos": Paulo César Bicalho, que além de pesquisador dos processos e métodos sobre o trabalho do ator, é curador do programa Dramaturgia, do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e docente da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), falou "Os caminhos da representação"; José Maria Amorim, Professor da Oficina de Teatro da PUC de Belo Horizonte, tendo atuado em 36 espetáculos e trabalhado como cenotécnico em outros 300, falou sobre "Os caminhos da práxis do ator"; Rosângela Patriota Ramos doutora em história social pela USP e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), cujo tema "Os caminhos da dramaturgia" abordava a dramaturgia brasileira da segunda metade do século XX, uma dramaturgia que "parte de motes sociais e políticos e segue para narrativas construídas por grupos contemporâneos"; e esta colunista que vos escreve foi convidada a dar o seu "pitaco" sobre "Os caminhos da política cultural" assunto bastante em voga diante da urgência e da necessidade em tratar de questões que têm percorrido noticiários e conversas de profissionais, como é o caso da Lei Rouanet.
Detalhe este convite foi conseqüência direta da coluna escrita aqui na Terra Magazine em fevereiro passado.
Busquei traçar uma retrospectiva histórica das políticas culturais no Brasil, apontando como principal problema nacional nesta área a ausência de uma verdadeira política cultural, ao mesmo tempo em que apresentei um paralelo entre a situação brasileira e a francesa, por acreditar que temos muito a aprender com o modelo cultural francês.
Na noite de sexta-feira tive o privilégio de oferecer um "aperitivo" ao público local, o vídeo "Un Soleil à Kaboul...ou plutôt deux", um filme de Duccio Bellugi Vannuccini, Sergio Canto Sabido e Philippe Chevallier sobre o estágio oferecido por Ariane Mnouchkine e seu Théâtre du Soleil no verão de 2005 a jovens afegãos, que resultou na criação de uma companhia chamada Theatre Aftab, que em afegão quer dizer Sol, e que é um pequeno Théâtre du Soleil na Ásia central.
Difícil contar em poucas páginas o que vivemos nesses dias, nesses encontros. Os quatro mosqueteiros se entenderam as mil maravilhas. Tenho a certeza de que nos encontraremos em breve para outras reflexões. Não conhecia nem PC, nem Amorim e nem Rosângela, hoje eles fazem parte da minha tchurma...
Cada "palestra" foi seguida de um bate papo com o público local, que merece destaque, pois o teatro de 200 lugares esteve quase que lotado em TODAS as conferências, no encerramento, no final da tarde de domingo, do palco contei 162 pessoas na platéia...que gente é essa que passou dois dias dentro de um teatro refletindo sobre essa arte milenar? Estavam lá membros do Divulgação, como Flora, que do alto dos seus 84 anos não faltou a nenhuma das palestras ou Isabella que do alto dos seus 16 aninhos esbanja energia e vontade de fazer do teatro a sua vida. Havia também ex-membros como Marise Mendes, hoje Diretora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, ou ainda Toninho Dutra, ator, diretor e atual Presidente da Funalfa - Fundação Alfredo Ferreira Lage, uma espécie de Secretaria Municipal de Cultura, que em meio a todos seus afazeres encontraram tempo para prestigiar nosso encontro, não com intuito de marcar presença, pois acompanharam todas as etapas, além de dividir conosco o cafezinho e os biscoitos (miam miam) no coffee-break.
Malu Ribeiro e esta colunista de vocês
Foto Márcia Falabella
Toninho ainda teve o tempo e a gentileza de nos apresentar o Teatro Paschoal Carlos Magno, cujas obras iniciadas há 30 anos e até hoje inacabadas o atual prefeito, Custódio de Mattos (PSDB) quer terminar para oferecer mais um teatro à população de Juiz de Fora. Torço para que dê certo e espero ser convidada para a inauguração.
Na verdade esse deveria ser um presente ao José Luiz e a Maria Lúcia Ribeiro, como queria Paschoal Carlos Magno, porque há 43 anos o Grupo Divulgação fez mais pela cultura teatral de Juiz de Fora que todos os governantes que por lá passaram ou hão de passar.
A prova disso é o público que tivemos nesses dois dias para nos ouvir falar de teatro. Impossível não comparar com o público dos inúmeros congressos, colóquios, seminários e reuniões científicas dos quais tenho participado. Não raro as poltronas estão vazias e os conferencistas falando para meia dúzia de gatos pingados. E isso entre os "acadêmicos", a tal elite cultural do país. Nós tivemos casa cheia o tempo todo.
Por mais interessantes que pudessem ser os nossos temas, o público que ali estava era o público fiel do Grupo Divulgação. Trabalhando há quase 43 anos em busca da estética de uma ética, nos moldes mnouchkinianos, opinião da qual discordam os pareceristas do CNPq mas que Marcinha Falabella conseguiu demonstrar em seu trabalho de pós-doutorado sob a supervisão de Georges Banu, o Grupo Divulgação deu a Juiz de Fora uma platéia composta por verdadeiros cidadãos. Impossível não pensar em Jean Vilar que dizia: quando me derem uma nova sociedade eu poderei então lhes dar um teatro novo.
Domingo à noite, quando Marcinha, Zé Luiz e meus comparsas mosquiteiros me levaram à rodoviária, depois de verdadeira orgia gastronômica mineira, confesso que não dormi um minuto entre Juiz de Fora e Santos, minha cabeça fervilhava, meu coração batia forte e meu amor pelo teatro era ainda maior. E cada vez que eu pensar nesse final de semana passado nas Minas Gerais verei o sorriso da Flora me dizendo: "vim mesmo e fiquei aqui o tempo todo porque o bom do saber é que ele não ocupa espaço". Tudo o que quero é chegar aos 84 como ela, com sede de aprender e energia suficiente para tanto...
Obrigada Flora, obrigada Isabella, obrigada Marcinha - acabo de receber por SEDEX a cachaça e a matéria da Tribuna de Minas -, obrigada Malu e obrigada Zé Luiz...vocês tinham razão quando disseram que em Juiz de Fora agora eu tenho uma casa, tenho mais do que isso tenho uma família... Até breve!
QUANDO O VILA DANÇA

Cristina Castro, diretora do Viladança
Foto Divulgação
De passagem por Salvador não resisto ao convite para ir ao Teatro Vila Velha, já disse aqui mesmo nessas páginas do Terra Magazine que é meu teatro preferido nas terras do Senhor do Bonfim, há algo de Cartoucherie de Vincennes nos arredores do Passeio Público e ainda tem toda a história do Márcio, da Chica, da Ângela, da Cristina, de todos que fizeram do Vila um espaço especial.
Nesse momento Cristina Castro, bailarina, coreógrafa, diretora do Núcleo Viladança do Teatro Vila Velha, gente boa, batalhadora destemida e last but not least mulher e companheira de aventuras de Márcio Meirelles, atual Secretário Estadual de Cultura - convenhamos que isso nem sempre facilita as coisas nessa terra, afinal o coronelismo deixou um ranço duro de ser extirpado, e isso faz com que no ar exista sempre um cheiro de intrigas da corte - coordena o III Mês da Dança no Vila, com uma programação que une de forma especial a dança e o teatro.
Cristina afirma que, no ano em que o Vila Velha comemora 45 anos de história "não poderíamos deixar de dar atenção ao coletivo e sua diversidade - alicerces que possibilitaram a construção da nossa própria casa, espaço de arte na Bahia e principal instrumento para o futuro da dança."
Defensora da diversidade de ideias, de formas e expressões fez delas mestres de cerimônia que há duas semanas abriram as portas do Vila Velha para a realização da terceira edição do Mês da Dança, um mês inteiro dedicado ao fomento da dança e no qual ela conta "abrigar uma intensa programação cultural e oferecer um espaço para que haja a produção e reprodução de muitas CULTURAS, troca de ideias, informações e geração de encontros entre artistas e sociedade".

Companhia Toufik OI unindo La Rochelle e Salvador
Foto Divulgação
Tendo por objetivo maior celebrar a dança em suas diversas formas, Cristina deu boas vindas aos mais variados estilos e técnicas - dança de salão, contemporânea, moderna, jazz, ballet clássico, breakdancing, entre outros. Destaque especial para a França em virtude do Ano França-Brasil com a apresentação da Companhia Toufik OI do coreógrafo franco-marroquino Toufik Oudhriri Idrissi, que durante sua temporada em Salvador ministrará um workshop.
Criada em 1997 a Companhia Toufik OI tem como marca das suas coreografias as conexões que o Homem estabelece entre seu espaço mental e seu ambiente. Toufik desenvolveu uma linguagem própria trazendo propostas artísticas inovadoras sobre o corpo e as emoções proporcionando ao público interessantes performances construídas sobre a sensibilidade. Os baianos terão a oportunidade de conhecer esse discípulo de Régine Chopinot, um dos grandes nomes da dança francesa, através da sua mais recente criação #im3 que será apresentada unicamente no dia 23 de abril.
Para quem quiser um pouco mais estão programadas diversas exibições de documentários franceses sobre a dança em parceria, tudo em com a Cinemateca Francesa e o Serviço de Ação e Cooperação Cultural da Embaixada da França.
Além da presença das companhias espanholas Lanònima Imperial, do coreógrafo catalão Juan Carlos Garcia e de Daniel Abreu, nascido no Tenerife, Cristina Castro deu continuidade ao projeto "Casa Aberta", no qual novos talentos tem oportunidade de se apresentar na mesma programação que inclui grupos já consagrados como o Primeiro Ato, de Minas Gerais, a Cia. Viladança, da Bahia, a Cia. Etc., de Pernambuco, e a Laso Cia. de Dança, do Rio de Janeiro, que fez ontem a estréia nacional de O Que nos move, mais recente espetáculo do grupo.
SERVIÇO VIVADANÇA ANO 3
Onde? Teatro Vila Velha - Av. Sete de Setembro, S/N, Passeio Público - Salvador
Quando? Até 30 de abril
Ingressos: R$ 5 (meia) e R$ 10
Telefone da Bilheteria: (71) 3083-4600
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
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