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Sexta, 17 de abril de 2009, 17h11 Atualizada às 17h24

A literatura em perigo

Tony Monti
De São Paulo

"Eu diria que a literatura é, igualmente, uma forma de alegria. Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou. Por isso, acho que um escritor como Joyce fracassou, em sua essência, já que sua obra requer esforço para ser lida".

A observação de Borges, embora uma das mais célebres, não é a única a retratar a experiência da leitura como uma alegria simples. Parece-me bastante temeroso, no entanto, universalizar este modo de ler, defendê-lo como único. O prazer sem grande esforço é uma das possibilidades de fruição, mas elimina os prazeres complexos sem um argumento razoável que defenda tal universalização.

O que me trouxe à memória esta passagem do Borges foi a leitura do último livro de Tzvetan Todorov, "A literatura em perigo". O texto de Todorov defende a idéia de criar meios a partir dos quais a literatura deixe de ser um domínio apenas de especialistas. Segundo ele, o poder que a teoria e a crítica exercem no pensamento francês sobre literatura fez com que a literatura tenha perdido sua dimensão de fruição pouco elaborada. Em outras palavras, Todorov acredita que a literatura que se estuda nas universidades é cada vez menos acessível a um público mais amplo porque as figuras de poder e os discursos que circundam a atividade da leitura valorizam teorias e estruturas distantes do mundo concreto em que se vive. É claro que teoria não é distante do mundo dos teóricos, pode ser um elemento bastante vivo em seu dia-a-dia. Mas o leitor que não dedica o cotidiano aos livros não consegue com este tipo rarefeito de experiência atender a sua busca por discursos que dêem sentido a sua existência.

Embora o caminho que reconhece ambos os lados da tensão pareça mais adequado - literatura pode ser mais teoria, como com os estruturalista, ou mais alegria simples, como com Borges -, quando é preciso fazer escolhas imediatas, neste instante concreto, no qual a literatura estaria em perigo, Todorov coloca seus olhos em apenas um destes pólos: a falta de aproximação, para o leitor não especializado, entre literatura e vida.

Entre os lugares sociais que o autor localiza como reprodutores da valorização da teoria estão a universidade, a crítica e o ensino básico. Segundo ele, esta rede de instituições não favoreceria em nada o aumento da importância da leitura na vida das pessoas. Assim, Todorov questiona o ensino de literatura no sistema educacional francês e propõe mudanças em favor da leitura do texto literário com olhos a localizar o que neles serviria à vida prática do aluno.

Longe da idéia das políticas públicas, no entanto, Todorov inclui entre os responsáveis pela situação também os escritores, que cada vez mais tornam sua literatura algo para muito poucos. Embora Todorov não defenda com tanta clareza que escritores deveriam escrever de outro modo, o fato de ele não fazer uma ressalva, me leva a fazê-la. As políticas públicas institucionais têm funções práticas imediatas. É importante que seja assim. A literatura, olhada pelo lado dos autores, não deve ter. O lugar da produção de literatura é, em grande parte, falar do que não se fala e de um modo que não é o usual. Assim, considero importante que se retire dessa lógica, o autor, que não responde a finalidades práticas coletivas imediatas, a não ser que queira.

Algumas características levam o livro de Todorov a ser discutido fora dos meios especializados, o que, em acordo com a tese do livro, é um mérito. Em primeiro lugar, o livro é curto e direto, claro quanto às teses e sem rodeios quanto aos argumentos. A edição em português (não tive acesso a outras edições) tem letras um pouco maiores que as edições usuais de livros do gênero. O objeto livro, assim, concretiza bem a idéia de facilitar o acesso. Ainda, uma polêmica subjacente esquenta o fato social que representa a publicação deste livro. Todorov foi um nome importante, em décadas passadas, do núcleo das teorias estruturalistas na França, sempre identificadas com o afastamento entre literatura e os fatos do mundo. No livro, Todorov deixa claro que não descarta a teoria. A sua reificação em detrimento de outros aspectos da prática literária é que é desastrosa. A teoria torna-se excesso.

Tony Monti é escritor, autor de eXato acidente (Hedra), o menino da rosa (Hedra) e O mentiroso (7Letras).


Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br

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