Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Sirio Possenti

Quinta, 23 de abril de 2009, 07h55

Ela pode?

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Gosto de Time to kill, de Joel Schumacher, com Matthew McConaughey, Sandra Bullock, Samuel L. Jackson, especialmente pela cena em que o advogado de defesa faz suas alegações finais, que revertem a óbvia inclinação do júri. Resumo da história: dois rapazes brancos estupram a filhinha de 10 anos de um casal negro (tudo se passa numa cidadezinha daquelas, naqueles tempos, no interior dos Estados Unidos). O pai dá um jeito de justiçar os dois, já presos, praticamente diante dos olhos da cidade. Faz a sua justiça. Ou é vingança? Eis os ingredientes do drama.

Obviamente, é preso. O restante da história gira em torno dos esforços de um advogado jovem (e pobre) que decide assumir sua defesa, quase contra tudo e contra todos. O promotor é experiente e prepotente. O advogado tem apenas o apoio de um professor que se transformou num beberrão e de uma jovem estagiária um pouco sonhadora, vinda de longe. Paralelamente, ocorrem outros pequenos dramas: o advogado sofre ameaças (sua casa chega a ser queimada), a estagiária é presa por uma Ku Klux Klan renascida, a esposa vai para a casa dos pais para fugir dos riscos, o advogado e a estagiária ameaçam ir para a cama (mas não vão), o pastor local tenta negociar uma suspeita assistência judicial de advogados em tese ligados à causa negra nacional, mas um tanto corruptos.

Em conversas recorrentes, o réu tenta convencer o advogado de que não conseguirá absolvê-lo se atuar como um branco, mesmo que pense seriamente em justiça ou em justificar os sentimentos de um pai que agiu como ele agiu. Sua tese é que só conseguirá absolvê-lo se conseguir entender o que é de fato ser um negro. E é nesse detalhe que reside o interesse da fala final, quando faz aos jurados um discurso inesperado e demolidor.

Pede-lhes que fechem os olhos para ouvir uma história. Conta-lhes exatamente a da menina estuprada, que todos conhecem, como se fosse a história de uma menina qualquer: rapazes bêbados a encontram no campo, estupram-na, despedaçam seu útero, urinam nela, abandonam-na quase morta. A narrativa é longa, detalhada, lenta. Todos conhecem a história, toda a cidade a conhece: é a da menina cujo pai está sendo julgado. Mas...

O final é surpreendente. Depois de contar aos jurados a história conhecida, lenta e detalhadamente, termina de forma surpreendente: "agora, imaginem que ela é branca".

Lembrei desse filme quando li a coluna de Bárbara Gancia na Folha de S. Paulo de 17/04/2009. Talvez esteja exagerando um pouco, mas, já que me ocorreu, faço a coluna a partir dessa lembrança. B. Gancia conta o que aconteceu no dia 11 de abril em um concurso de calouros na Grã-Bretanha, que revelou para o mundo a voz impressionante de Susan Boyle. Vejam o que ela escreve, em coluna cujo título é simplesmente "Shrek de saias".

"Essa heroína é feia do vale do Eco (feia, feia, feia...), desengonçada, mal ajambrada, seu cabelo parece um poodle fugido de chuva, suas sobrancelhas são um emaranhado de saca-rolhas, seu queixo é multiplex, enfim, ela é do tipo que se candidata a vencer o concurso de mais horrenda da sala a cada vez que adentra o recinto. Para piorar as coisas, o vídeo mostra que a mocreia se embanana logo na saída".

Sua linguagem parece politicamente incorreta, não parece? Agora, imaginem que seu autor tenha sido o presidente Lula.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Sírio Possenti vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela