
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Gosto de Time to kill, de Joel Schumacher, com Matthew McConaughey, Sandra Bullock, Samuel L. Jackson, especialmente pela cena em que o advogado de defesa faz suas alegações finais, que revertem a óbvia inclinação do júri. Resumo da história: dois rapazes brancos estupram a filhinha de 10 anos de um casal negro (tudo se passa numa cidadezinha daquelas, naqueles tempos, no interior dos Estados Unidos). O pai dá um jeito de justiçar os dois, já presos, praticamente diante dos olhos da cidade. Faz a sua justiça. Ou é vingança? Eis os ingredientes do drama.
Obviamente, é preso. O restante da história gira em torno dos esforços de um advogado jovem (e pobre) que decide assumir sua defesa, quase contra tudo e contra todos. O promotor é experiente e prepotente. O advogado tem apenas o apoio de um professor que se transformou num beberrão e de uma jovem estagiária um pouco sonhadora, vinda de longe. Paralelamente, ocorrem outros pequenos dramas: o advogado sofre ameaças (sua casa chega a ser queimada), a estagiária é presa por uma Ku Klux Klan renascida, a esposa vai para a casa dos pais para fugir dos riscos, o advogado e a estagiária ameaçam ir para a cama (mas não vão), o pastor local tenta negociar uma suspeita assistência judicial de advogados em tese ligados à causa negra nacional, mas um tanto corruptos.
Em conversas recorrentes, o réu tenta convencer o advogado de que não conseguirá absolvê-lo se atuar como um branco, mesmo que pense seriamente em justiça ou em justificar os sentimentos de um pai que agiu como ele agiu. Sua tese é que só conseguirá absolvê-lo se conseguir entender o que é de fato ser um negro. E é nesse detalhe que reside o interesse da fala final, quando faz aos jurados um discurso inesperado e demolidor.
Pede-lhes que fechem os olhos para ouvir uma história. Conta-lhes exatamente a da menina estuprada, que todos conhecem, como se fosse a história de uma menina qualquer: rapazes bêbados a encontram no campo, estupram-na, despedaçam seu útero, urinam nela, abandonam-na quase morta. A narrativa é longa, detalhada, lenta. Todos conhecem a história, toda a cidade a conhece: é a da menina cujo pai está sendo julgado. Mas...
O final é surpreendente. Depois de contar aos jurados a história conhecida, lenta e detalhadamente, termina de forma surpreendente: "agora, imaginem que ela é branca".
Lembrei desse filme quando li a coluna de Bárbara Gancia na Folha de S. Paulo de 17/04/2009. Talvez esteja exagerando um pouco, mas, já que me ocorreu, faço a coluna a partir dessa lembrança. B. Gancia conta o que aconteceu no dia 11 de abril em um concurso de calouros na Grã-Bretanha, que revelou para o mundo a voz impressionante de Susan Boyle. Vejam o que ela escreve, em coluna cujo título é simplesmente "Shrek de saias".
"Essa heroína é feia do vale do Eco (feia, feia, feia...), desengonçada, mal ajambrada, seu cabelo parece um poodle fugido de chuva, suas sobrancelhas são um emaranhado de saca-rolhas, seu queixo é multiplex, enfim, ela é do tipo que se candidata a vencer o concurso de mais horrenda da sala a cada vez que adentra o recinto. Para piorar as coisas, o vídeo mostra que a mocreia se embanana logo na saída".
Sua linguagem parece politicamente incorreta, não parece? Agora, imaginem que seu autor tenha sido o presidente Lula.
Terra Magazine