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Quarta, 22 de abril de 2009, 07h54

Editais, os tais

Paquito
De Salvador (BA)

Se o leitor é ligado à produção independente e já concorreu a um edital de cultura, sabe do que vou falar. Se já concorreu e perdeu algumas vezes, talvez nem queira ouvir falar, pois, em determinadas circunstâncias, a palavra assusta: edital. Mas o fato é que, hoje, na cultura brasileira, vive-se a era deles, os tais dos editais.

Compreende-se a necessidade de concursos públicos para democratizar o acesso ao recurso também público, ainda mais num período em que, no caso da música, a profissionalização vive dias movediços: os artistas se viram pra sobreviver e, fora os já estabelecidos de outras eras, a transição entre um mundo pré-digital e um mundo digital comporta um universo de incertezas.

No entanto, o que teria chegado pra facilitar às vezes torna-se um dificultador. Basta estar diante de um formulário elaborado para os tais fins. Catatau é o que melhor define o manancial de dados que se tem que dispor para fazer jus a esse tipo de apoio.

O esquema de redação de um texto desse tipo, dividido entre justificativa, apresentação, descrição e objetivos, é empobrecedor pra um coração & cérebro dado aos ofícios nefelibatas, além do que muito do que se redige, pra atender às expectativas dos gestores, acaba se reduzindo a um amontoado de clichês.

Estarei sendo romântico demais? Um amigo meu, que trabalha no estado, me falou: "é inadmissível que um músico da qualidade de fulano não saiba redigir um projeto!" Será que é mesmo?Um artista da qualidade de João Gilberto, por exemplo, teria que saber preparar um projeto?

Pra isso, supõe-se, existem os produtores culturais, que já têm até uma faculdade que os forma na Bahia. Então, o problema estaria resolvido. Não é bem assim, pois, ainda na Bahia, de onde escrevo estas mal traçadas, muitos dos qualificados produtores culturais estão... no governo! E, como parte do governo, eles não podem, pelo menos legalmente, se envolver em concorrências públicas.

E o estado, como mero repassador de recursos que tudo terceiriza, não aproveita a vocação e experiência de muitos que trabalham sob suas hostes, no sentido de, por exemplo, oferecer suporte técnico a um artista iniciante ou até a algum independente de longa data. O recurso é dado ao artista e ele que se vire para cumprir as devidas demandas.

Sem contar que alguns editais pedem inutilidades mesmo, submetendo o artista a uma sabatina pra atestar a seriedade do seu fazer artístico, como se fôssemos todos um bando de aventureiros que não têm o que fazer da vida, a não ser passar o tempo preenchendo as incoerências de um concurso público.

Há ainda a chamada contrapartida social, um negócio caquético de tão desatualizado em se tratando do fazer artístico. Está lá nos tais textos: o artista tem que fazer um trabalho de contrapartida social pra receber o recurso e tal e coisa... Ora, o trabalho artístico em si já é a contrapartida social. Ou então, aí é que viraremos mesmo uma república velha cheia de burocratas que vão ter que se virar pra justificar socialmente o Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro.

Para concluir, os editais poderiam passar por um processo de simplificação, se fossem pensados com o foco nos seus fins específicos que, nos casos a que me refiro, é a obra artística em si. Como ficam cobrando justificativas, cronogramas e afins, os projetos se tornam um fim em si, e não um meio para alcançar determinados objetivos.

Ainda mais, a ideia de promover editais está dentro de um princípio democratizante de dar acesso às verbas públicas, mas a produção cultural, por conta dos ditames burocráticos, fica em segundo plano, e corre-se o risco de premiar mais um projeto bem formatado do que um de mérito artístico maior.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

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Antônio Reis/Especial para Terra
Ediatais submetem o artista a uma "sabatina pra atestar a seriedade do seu fazer artístico, como se fôssemos todos um bando de aventureiros que não têm o que fazer da vida", critica Paquito

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