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Quinta, 23 de abril de 2009, 07h58 Atualizada às 20h27

Árvores Abatidas, Thomas Bernhard

Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro

Raros autores são capazes de abarcar e relacionar tantos assuntos, até mesmo díspares e contraditórios, com tanta lógica e engenho quanto Thomas Bernhard - seus romances de maturidade, sem exceção, demonstram os graves acidentes de percurso que um pensamento apaixonado e expansivo pode sofrer. As personagens do austríaco vociferam, caluniam, analisam e diminuem seus objetos de contemplação em todos os sentidos e direções, acusando fracassos, denunciando preconceitos e, de modo intenso e arrebatado, reclamando uma Áustria perdida (e que talvez nunca tenha existido).

Desse modo, pela acidez de sua visão, pela ira de sua voz, seus textos tortuosos e densos poderiam ser facilmente contra-indicados a todos os espíritos frágeis desejosos de leituras leves e fantasiosas - o mundo de Bernhard, amargo e asfixiante, parece não possuir espaço para a inocência: as frases de sintaxe complexa, as constantes repetições, a detalhada exposição das fraquezas de tudo e de todos: um universo em plena decomposição, que o narrador recupera e lamenta enquanto busca culpados que possam responder por tudo aquilo que se perdeu.

Porém, com uma mecânica difícil de precisar, Thomas Bernhard opera o excepcional milagre de gerar, apesar de tudo, um prazer genuíno no leitor que se aventura pelos tortuosos caminhos de suas narrativas nada convidativas: vencidas as dificuldades do primeiro contato, e uma vez acostumado ao estilo inconfundível do autor, resta apenas a fascinação de estar diante de um escritor completo, com uma forte visão do mundo, e uma profunda compreensão de suas criaturas. Em Bernhard há um pouco de tudo: pensamento, narração (reduzida ao essencial), humor, erotismo, música, pintura, filosofia, complexidade psicológica, imaginação verbal e uma pitada, curiosa, de grotesco.

Árvores Abatidas tem uma trama irrisória: o narrador é convidado a uma reunião artística por um casal que o encontra, por acaso, numa rua e que ocorrerá no mesmo dia do enterro de sua amiga Joana, também uma velha conhecida do casal. Três décadas de ausência antecede o retorno do narrador, agora um escritor de razoável sucesso, à sua Viena natal.

Como em uma peça de teatro, o livro é dividido em três atos. No primeiro, o narrador, sentado numa bergère, observa a festa à distância, sob a penumbra, e recorda os motivos pelo qual se retirou de Viena enquanto, sem piedade alguma, disseca as suas relações com o casal anfitrião e com alguns dos convidados, enquanto rememora, com humor e emoção, seu passado comum com Joana, de como seus sonhos foram destruídos, um a um, pela mesquinhez do mundo que os cercava, de como a inocência com a qual viam o mundo e a arte foi destruída pelo universo desconhecido que se abria, promissor, diante deles, iludindo-os com um futuro feliz que nunca teriam.

Logo em seguida, com a chegada do ator homenageado, todos vão a mesa e o narrador recorda, escutando as opiniões pedantes e afetadas do veterano ator, os pormenores do velório e enterro, traça perfis de quem vê e pensa, com ironia, sobre arte e a sociedade que a consome e cria. No fim do jantar, todos vão à sala de música onde se desenrola o final da festa, com as trocas de farpas esperadas quando um grupo de artistas cujas obras não justificam as suas autoridades se reúnem e que alimentam, com suas acusações e auto-elogios, uma enorme fogueira de vaidade, momento onde o romance alcança uma culminação trágico-cômica magistral.

A grandeza de Bernhard reside no fato de que mesmo se conhecendo a trama em linhas gerais, o romance não perde o encanto: o verdadeiro protagonista da narrativa é o pensamento: ele se expande, se contradiz, se contrai ao limite do aforismo; flui lírico em certos momentos, macabro e pesaroso em outros; torna-se pouco imaginativo e medíocre em certos trechos, para logo em seguida flertar com a filosofia - é, certamente, o mais próximo do coração que se pode encontrar na prosa contemporânea.

A verdadeira diversão nos livros de Thomas Bernhard é acompanhar a liberdade que o pensamento radical de seus personagens-narradores gozam, e torcer para que eles consigam encontrar alguma saída dos labirintos obscuros que, muitas vezes sem notar, constroem. Porém, evidentemente, não basta um pensamento bem amarrado para se fazer boa literatura, e Bernhard sobrevive ao tédio de pretensiosa literatura de ideias justamente por limitar o que escreve aos estritos limites do literário.

Suas personagens não querem provar uma tese, e não narram e escrevem para nos convencer; elas pensam, e dão a impressão de que possuem consciência de que esse próprio ato está carregado de contradições. Em outras palavras, o "pensamento literário" não respeita os limites da lógica, e não perde a solidez e validade retórica quando o leitor constata as inúmeras descontinuidades que engendra sucessivamente. Ao contrário: transforma, com seu sinuoso e impreciso vagar, as inconstâncias do ser no próprio motor para se tentar estabelecer uma possível compreensão da matéria da qual o homem que lê, pensa e escreve é feito.

Desse modo, os narradores de Bernhard acabam se tornando extremamente humanos; e, embora seja improvável uma identificação direta do leitor com o que eles pensam e enunciam, este acaba compreendendo e aceitando a soberania de todas as suas dúvidas. Não se trata de uma relação onde o leitor abre mão do que é para mergulhar no que o narrador fala, para viver uma ficção. O leitor de Bernhard ocupa um espaço privilegiado: ele vira uma espécie de cúmplice e estabelece uma relação íntima com o que lê como se realmente estivesse ouvindo a confissão de um amigo onde não entendemos, por mais que nosso afeto nos induza, a real natureza das suas angústias, embora isso não nos impeça de nos sensibilizarmos com seus problemas e queixas enquanto o brindamos com um pouco de ternura e inocência.

Sendo assim, depois de caminhos impossíveis, estabelece-se uma relação muito especial com seus livros e criaturas - e isso é, certamente, Bernhard (e todos seus narradores): um homem que, após um tempo de aproximação árida, se torna um daqueles amigos rabugentos que secretamente odiamos e amamos com sinceridade, e de quem sentimos sempre um pouco de falta quando não está por perto, nos incomodando.


Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

Fale com Vinicius Jatobá: vinicius_jatoba@terra.com.br

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