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Quarta, 29 de abril de 2009, 13h32

Psicóloga: Epidemia faz população pensar na morte

AFP
Piloto da companhia aérea Lan Air veste máscara para evitar contágio com a gripe suína durante pouso no Aeroporto Arturo Merino, em Santiago
Piloto da companhia aérea Lan Air veste máscara para evitar contágio com a gripe suína durante pouso no Aeroporto Arturo Merino, em Santiago

Diego Salmen

Ao contrário de outras epidemias mais localizadas, como a gripe do frango ou o vírus ébola, a gripe suína possui uma característica que a torna potencialmente mais perigosa à população: a possibilidade de transmissão entre humanos. Some a isso uma predisposição das pessoas em fantasiar com a perspectiva da morte e pronto: tem-se uma conjunção que aguça a "auto-destrutividade", segundo a psicóloga Vera Rita de Mello Ferreira.

- Quando junta uma coisa com a outra, é fácil deflagrar essa reação de pânico.

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Doutora em psicologia social pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, a especialista falou a Terra Magazine sobre os efeitos da epidemia no imaginário coletivo. Para ela, a gripe do porco estimula as pessoas a pensarem na própria morte.

- Com a transmissão de humanos para humanos há um dado real para a disseminação do vírus. A isso se junta a fantasia de destrutividade que todos nós temos.

Confira a entrevista:

Terra Magazine - Nos jornais e nas ruas, só se fala na gripe suína. Existe uma paranóia coletiva? O que está acontecendo?
Vera Rita -
O problema junta duas coisas: a possibilidade de ser real, quer dizer, existem epidemias e dificuldades de localizar os problemas que a gente começa a identificar - desde a AIDS que até hoje não foi solucionada até várias outras coisas, alertas de outros vírus, como o Ébola, gripe aviária... Tudo isso vai represando o temor que as pessoas têm de que em algum momento (a doença) chegue até elas, porque nos outros (casos de doenças), acabou ficando mais localizado e as pessoas acabaram escapando, ou pelo menos tendo essa sensação.

E agora há algo real para se temer?
Com a transmissão de humanos para humanos, não só de animal para humanos, como foi na gripe aviária, há um dado real para a disseminação do vírus. A isso se junta a fantasia de destrutividade que todos nós temos, a gente já tem a consciência de que a morte nos aguarda em algum momento. No geral, todo mundo tenta manter essa consciência o mais longe possível de si.

Esse tipo de situação faz as pessoas pensarem na morte?
Pensam na morte, por um lado. Só que daí juntam duas coisas: a possibilidade de se realizar (a morte), pois já morreram várias pessoas e as autoridades ainda não encontraram uma maneira de barrar a disseminação e, por outro lado, essa fantasia que cerca a perspectiva da morte nas pessoas. Quando junta uma coisa com a outra, é fácil deflagrar essa reação de pânico.

É possível que, coletivamente, as pessoas ignorem esse tipo de problema? Parece que ninguém consegue ficar alheio à disseminação da doença...
Não consegue ficar alheio porque dentro de cada um já tem uma contraparte desse cenário. Quer dizer, se alguém chega para você e conta uma história super horripilante, mas que não repercute de nenhuma forma em você, você vai falar: "nossa que horror", e acabou, não dá mais tanta bola. Agora, se tiver alguma chance de reverberar em você, aí sim desencadeia a reação mais aguda de pânico, de dentro, aí sim desencadeia a reação mais aguda de pânico, preocupação intensa, tudo isso.

O medo, nesse caso, acaba sendo um mecanismo de defesa para as pessoas?
Pode ser que sim ou não. Em princípio sim, o medo é um aliado da gente, porque ele dá um sinal de alerta. Eu não posso achar que sou invencível e não dar bola para nada porque a realidade é contundente. Por outro lado, quando o medo se fica mais intenso e se torna pânico ele pode: 1) paralisar; 2) fazer com que a gente acabe tendo atitudes inadequadas sem se dar conta disso, porque o pânico impede a gente de pensar do melhor jeito possível.

Sim...
Você pode, por exemplo, começar a exagerar naquilo que você considera como cuidado e acabar até se expondo a outros riscos. Como na questão dos antivirais, por exemplo. Se todo mundo quiser se prevenir e tomar antiviral, o vírus vai acabar ficando mais forte e os antivirais disponíveis no momento não serão mais suficientes caso a pessoa realmente seja infectada.

Isso aconteceu com o surto de dengue em 2007, quando algumas pessoas começavam a se automedicar a acabavam tendo problemas de saúde por isso...
Nesse caso (da gripe suína), é mais complicado porque não envolve só os antibióticos. Se a pessoa fica tomando os antivirais, o vírus acaba se tornando mais forte. Aí quando o doente de verdade precisa tomar o remédio, não adianta mais nada. E o pânico já distorceu o cenário, impedindo a pessoa de tomar providências mais adequadas.

A senhora acredita que, uma vez que a doença se estabeleça no país, o pânico tende a arrefecer ou se agravar?
Teria que ver o grau (de disseminação da doença). Se num dia morrem 100 pessoas, isso dá um tremendo susto em todo mundo, e aí é possível que a gente veja o aqui que aconteceu na Cidade do México, as ruas vazias, pessoas com máscaras, pavor total. Agora, vai depender muito, como sempre, da maneira como isso for encaminhado pelas autoridades. Se chega alguém para dizer "não entrem em pânico!" mas esse alguém está em pânico evidente, aí existe o contágio do pânico mais facilmente. Se as autoridades, por outro lado, não se mexerem e deixarem o contágio se espalhar e a população perder a confiança nas autoridades, aí a gente tem um problema de outra natureza. Vai depender bastante como o problema vai ser enfrentado.

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