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Quarta, 29 de abril de 2009, 07h36

Pequenos assassinatos

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Os policiais não davam a mínima para o bandido. Nem para o som estridente
"Os policiais não davam a mínima para o bandido. Nem para o som estridente"

Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)

Nesse final de semana recebi um balaço no peito e por pouco não morri. O bandido continuou pedalando sua bicicleta, o ar inocente de quem nada tinha feito. Atirava para todos os lados, sem preocupar-se com as vítimas. Algumas pessoas nem registravam os tiros, o corpo fechado, talvez.

Os policiais não davam a mínima para o bandido. Nem para o som estridente que ele desferia contra os mais sensíveis, nem para os produtos de pirataria vendidos. Duplo crime à luz do sol quente. O calor parece intensificar o efeito do barulho, torná-lo insuportável e mortal.

Os tiros sonoros possuíam letras abomináveis, pura baixaria. Dá vergonha escrever um único verso. Verso? O que é mesmo aquilo? Ouvir tais heresias é como levar um tiro na cabeça e sentir uma descarga nervosa percorrendo o corpo. Eu quase não sobrevivo ao estilhaço.

Muitos sobrevivem e aprendem a gostar. E até chamam de música, o mesmo substantivo com que nos referimos a uma sonata de Chopin. E já não existem gostos diferentes nas diferentes classes: de 'a' a 'z' se escuta as mesmas porcarias. Conclusão: chegamos ao perfeito comunismo. Ou será consumismo?

Sangrando, busquei onde me queixar. Na delegacia? Em qual delegacia? Aos policiais que compram e curtem os subprodutos da pirataria? Aos vereadores que promovem feijoada no meio da rua, com direito a palanque e som alto, varando sábados e domingos? Aos deputados que só administram subornos e falcatruas? Aos inomináveis senadores? Na Granja do Torto? Mas lá tinha festa estridente ao som de Zezé di Camargo e Luciano.

Os bandidos sonoros estão por toda parte, disseminando o terror. Com as armas dos sons amplificados nos carros, bicicletas, aparelhos domésticos, buzinas, rádios, televisões e até nas igrejas. Qualquer um pode comprar sua metralhadora e empunhá-la sem restrições, disparando em qualquer lugar, matando vizinhos, transeuntes, crianças inocentes, velhinhos indefesos.

Assassinato sonoro é a ordem reinante em cidades grandes e pequenas. Até nas matas e grotões. Não resta um lugar nesse país chamado Brasil em que o cidadão possa se esconder da parafernália sonora dos destruidores. Não há lei que proíba essa matança e se ela existe não há quem a faça cumprir.

São milhões de atentados diários inaparentes, sem sangramentos visíveis, sem fraturas expostas nem queimaduras deformadoras; um mal difícil de avaliar e medir. Matança lenta como os efeitos tardios das bombas atômicas, produzindo legiões de neuróticos e psicóticos, as seqüelas dessa guerra sem tribunal superior de apelação.

Durante a Segunda Guerra Mundial, médicos nazistas faziam experiências com judeus, submetendo-os a estímulos sonoros, medindo o limite do suportável, antes que as vítimas se desequilibrassem e cometessem suicídio ou assassinato. Os criminosos alemães foram julgados e condenados. No Brasil, ninguém julga e condena os milhares de criminosos que diariamente nos torturam e enlouquecem com atentados semelhantes.

Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.

Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br

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