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Quarta, 29 de abril de 2009, 07h35

Filme mudo (Variação Nº 8)

Amilcar Bettega
De Paris

Quantas vezes a imagem voltara à sua lembrança? É ainda capaz de sentir o leve cheiro de mofo que exala das paredes revestidas de veludo e do trilho de tapete puído dos dois lances de escada que ela desce perto das seis da tarde para deixar pela primeira vez no dia o seu quarto de hotel, cumprimentar com um esboço de sorriso o jovem atrás do balcão da portaria e ganhar a rua sem mesmo perceber se chove ou faz frio.

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Quantas vezes a imagem voltará à sua lembrança? Talvez para sempre, ou pelo menos enquanto esse cheiro de mofo lhe perseguir as narinas na evocação de uma parte da sua vida que sempre lhe pareceu separada do resto, como um apêndice incômodo.

*

Por que Buenos Aires?, é a pergunta que invariavelmente lhe ocorre quando pensa nesse quarto de hotel a 10 dólares a diária onde, por um mês inteiro, passou as noites a ler romances policiais abandonados pelos hóspedes precedentes para aliviar suas bagagens.

Mas um dia teve Martín, e então Buenos Aires ganhou algumas cores e um café na Suipacha. Lá dentro, o ambiente enfumaçado, o tilintar das xícaras, o barulho do vapor a fabricar o café con leche e o vaivém dos garçons diante da parede espelhada ao fundo do balcão.

A partir daí tudo parece mergulhar nessa atmosfera confusa e embaçada do café, como algo que se movimenta dentro de um sonho, com dificuldade e sem saber exatamente para onde.

Martín está sentado à sua frente e espera. Ela olha para a mesa ao lado onde um jovem casal está sentado. A qualquer momento ela vai começar a falar, a despejar palavras que se perderão em meio aos ruídos e a atmosfera confusa do café.

Mas por enquanto Sophie olha para a mesa ao lado: agora o casal está sério, ela parece até um pouco tensa, fuma e mexe bastante com as mãos. A impressão é que está prestes a dizer algo decisivo. Um detalhe, mas crucial. Aquilo que de fato interessa, que se separa do resto, mil vezes mais importante do que o resto.

Sophie olha para o casal na mesa ao lado: tem a impressão de que tudo ali dentro do café está em suspensão, à espera do que a moça vai dizer.

*

Quando finalmente ela começa a falar, a sua fisionomia se torna menos crispada; as mãos continuam a se movimentar, mas o cigarro queima sozinho no cinzeiro. O zunzum de vozes e ruídos de pratos e xícaras é mais intenso do que nunca. Sophie olha para fora, através da parede envidraçada que traz o nome do café numa escrita invertida e em forma de arco.

Bertoni, ou Florida, é o que se lê em letras brancas que partem do espaldar da cadeira de Sophie e chegam ao espaldar da cadeira de Martín. Lá dentro, uma sucessão de mímicas se multiplicam no ambiente enfumaçado do café.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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