Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Sirio Possenti

Quinta, 30 de abril de 2009, 08h03

Casos especiais de concordância

Sírio Possenti

Nota da coluna Painel da Folha de S. Paulo de 26/04/2009 dizia, a seco:

"Básico. Slogan do vídeo preparado pelo Ministério da Educação para marcar a inauguração de quatro escolas técnicas em Goiás, na sexta-feira: 'Ganha os alunos e ganha os empresários'. O autor faltou à aula de concordância entre sujeito e verbo".

A questão merece alguns comentários. O primeiro, também a seco, brevíssimo: a concordância é sempre do verbo com o sujeito. Não sei bem o que quer dizer "entre sujeito e verbo", mas é certamente uma formulação imprecisa. Nunca se diria que, sendo o verbo, por exemplo, "escrevem", concordar-se-ia com ele um sujeito (eles, elas, os deputados, os escritores). O que faz sentido é outra versão: se o sujeito é qualquer um desses, então a forma verbal é "escrevem". Ou seja, é o verbo que concorda. Em português padrão, sempre é bom ressalvar. Ou mais ou menos, como se verá.

O autor faltou ou não à aula de concordância? Pode ser que sim. Mas também pode ser que não. É mais provável que não tivesse à mão um manual desses que fornecem todas as certezas, talvez um das redações de jornal ou do tipo não erre mais. Ainda mais provável é que nem tenha se dado conta de que seu slogan põe um problema específico de concordância, por causa da ordem do sujeito em relação ao verbo.

Longe de mim defender o slogan. Não o faria nunca, especialmente levando em consideração outras virtudes que lhe faltam.

Mas, considerando apenas a questão mencionada, diria que, dependendo da aula sobre (de?) concordância, um bom aluno, se tivesse um bom professor, e se os livros ou artigos lidos sobre o tema fossem bons, ou mesmo se lesse apenas as seções completas das gramáticas sobre o tema (e não seus resumos apostilados), talvez acabasse tendo uma visão mais complexa do fenômeno do que a sugerida na nota.

Nem vou mencionar os notórios casos de silepse ou de concordância ideológica, esses que na pena de escritores são figuras de linguagem e na boca dos menos sofisticados são erros ou vícios. Falo apenas de um caso parecido com o da nota, o do sujeito posposto.

(Registro, antes de prosseguir, um exemplo que encontrei no mesmo jornal, no dia 28/04, na coluna de Mônica Bergamo: "Até que um casal, formado por um estrangeiro e uma jovem linda e loira, entraram e se sentaram numa mesa reservada para quatro pessoas" (p. E2). A distância entre "casal" e "entraram" / "sentaram" - há um "longo' aposto entre as formas - torna menos marcada a construção que o Painel criticaria, se a percebesse, do que se fosse "um casal entraram e sentaram".

Mas voltemos ao sujeito posposto. Os gramáticos são unânimes em aceitar que o verbo concorde apenas com o elemento mais próximo de um sujeito composto, quando este está colocado depois do verbo (daí a qualificação de posposto). O exemplo clássico é Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão, mas há outros: Que te seja propício o astro e a flor...; Habita-me o espaço e a solidão (citados por Cunha e Cintra. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985).

Segundo os gramáticos, o verbo concorda apenas com um dos nomes, o mais próximo. Aqui, com céu, astro e espaço (em vez de concordar com céu e terra, com astro e flor, com espaço e solidão - o que resultaria em passarão, sejam propícios e habitam-me). A condição para que essa concordância seja aceita é que o verbo ocorra antes do sujeito, dizem. Mas, de fato, também se exige que o autor tenha prestígio...

No entanto, a observação desses casos junto com outros permite compreender melhor um fenômeno cada vez mais freqüente. Coloquemos os exemplos ao lado de outros e observemos o que ocorre:

Passará o céu e a terra...

Que te seja propício o astro e a flor...

Habita-me o espaço e a solidão...

Embora ainda falte duas semanas para o GP Brasil... (Joyce Pascovich, Folha de S. Paulo, 21/3/1992)

Faltou na vida de Althusser algumas noites que o inspirassem... (Fernando Gabeira, Folha de S. Paulo, 1/4/1992)

O receio é que possa ocorrer problemas administrativos... (Folha de S. Paulo, 21/9/1992).

Não é possível ser oferecido quase cem vagas a menos do que as existentes... (Correio Popular, 3/7/2002)

Já no primeiro semestre de 2003, deverá ter início as eliminatórias... (Folha de S. Paulo, 5/7/2002)

Já vou estar com 34 anos e a cada dia surge bons jogadores... (Declaração de Rivaldo, O Estado de S. Paulo, 6/7/2002)

Ganha os alunos, ganha os empresários

Nos exemplos das gramáticas, o sujeito é composto e posposto, e o verbo está no singular. Nos exemplos de jornal e no slogan, o sujeito está posposto e é plural, embora não seja composto. Mas há algo de comum em todos os casos: são sujeito pospostos, estão nos plural e o verbo está no singular.

Considerando os fatos (sempre achei que jornalismo gostasse deles), talvez se possa propor uma regra parcialmente diferente da das gramáticas para explicar o fenômeno. Provavelmente, o verbo não concorda com o primeiro nome do sujeito composto posposto. Ele simplesmente não concorda com nada. A razão? A posição típica de sujeito - antes do verbo - está vazia. É como se essas orações não tivessem sujeito. A regra poderia ser simplesmente:

Quando não há sujeito, o verbo vai para a terceira pessoa do singular.

A hipótese se torna ainda mais interessante se considerarmos os casos em que, de fato, os verbos não têm sujeito, o dos verbos impessoais:

Chove muito no verão.

Neva no inverno.

Venta nas noites de tempestade.

muitas pessoas na praça.

Faz dez anos que saiu.

Segundo a hipótese que proponho, a regra é a mesma quando de fato não há sujeito e quando parece que não há sujeito, ou seja, quando o sujeito não está em sua posição típica. Tal hipótese fica ainda mais forte se aceitamos que a concordância é um fenômeno exclusivamente sintático (é do ponto de vista semântico - ou pragmático - que dizemos que a palavra posposta - céu, semanas, noites...- é o sujeito).

Acrescente-se que a concordância também não ocorre nos adjetivos ou nos particípios, exatamente como nos verbos (seja propício o astro e a flor, ser oferecido quase cem vagas, em vez de sejam propícios o astro e a flor, serem oferecidas quase cem vagas). A hipótese é que o falante aplica a regra (isto é, copia traços de número e pessoa do sujeito no verbo e do adjetivo no nome) apenas se o sujeito estiver antes do verbo.

No entanto, essa hipótese só tem sentido se aceitarmos que há várias gramáticas competindo em cada língua. Se esse for o caso, pode-se dizer que:

uma aplica a concordância considerando apenas a sintaxe do estado real da oração, com a inversão sujeito-verbo já feita;

outra considera a sintaxe, mas trata a inversão sujeito-verbo de maneira diferente, como se a concordância fosse aplicada antes de haver inversão;

outra, ainda, considera fatores semânticos para definir o número do sujeito (singular ou plural).

Muito mais gente faltou à aula...

***

Até de onde se espera...

De Olgária Mattos, no Boletim Carta Maior de 27/04/2008

"A mais recente reforma ortográfica do português no Brasil subordina a língua às contingências do mercado e à agramaticalidade de sua fala oral, rompendo o equilíbrio entre a anomia e a gramatização que caracterizam uma língua viva. Expressionista antes da reforma, 'idéia' ou 'idêia' (sic!!), a pronúncia diferenciava o português do Brasil e de Portugal, suscitando o metron de seu estranhamento e de seu parentesco , revelador do ethos de um povo. Assim, diferentemente de unificar a palavra escrita, a reforma neutraliza a língua falada (sic!), despersonalizando-a. O canto próprio às línguas - sua acentuação, cadência e pronúncia - recusa a 'língua média'".

Tasquei sic! duas vezes no parágrafo da filósofa, assinalando grossas batatadas: ela parece achar que a eliminação do acento gráfico em palavras como "ideia" altera a pronúncia do "e", transformando-o em uma vogal mais fechada. Dois erros em uma só cajadada: este não é um caso de diferença de pronúncia lá e cá; e, se fosse, não mudaria por causa da queda do sinal... (a pronúncia diferenciava, ela diz, como se fosse um fato...). E que a mudança de algumas representações gráficas afeta a língua falada ("neutraliza a língua falada"). Que ridículo! Já escrevi aqui que, às vezes, parece que, para muita gente, estudar não adianta...


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Sírio Possenti vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela