
Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro
O mais gratificante em se ler Imre Kertész é a surpresa que nos assoma ao final de seu extraordinário "Kadish - por uma criança não nascida". Quando nos aproximamos de uma literatura sobre grandes catástrofes o que instintivamente esperamos encontrar são finais moralizantes, nomeação de culpas e cobranças de dívidas históricas. O livro de Kertész, então, encontra um problema claro de leitura já que o próprio autor é judeu e sobrevivente de Auschwitz; contudo, Kertész não se rende ao suposto delito de nos frustrar em nossa expectativa antecipada. Ele aborda o tema do Holocausto, certamente uma das questões mais delicadas do século XX, de uma maneira totalmente inédita.
O curto romance trata de várias questões em um leque que vai da discussão do sentido de se ter um Dasein ("ser no mundo") até os conflitos entre duas gerações de judeus tão bem personificados no matrimônio fracassado que a narrativa disseca. O ponto de partida do livro é uma pergunta inocente feita ao escritor B. por um filósofo amigo acerca de filhos. Essa pergunta inocente, dita sem nenhuma intenção sinistra, faz com que o escritor crie um texto onde ele justifica, através uma complexa rede de argumentos que se completam e se contradizem, sua posição de não gerar vida; o texto que ele escreve, em forma de oração fúnebre (Kadish), é endereçado ao filho que B. se negou a gerar.
Em um momento do romance ele afirma ter plena consciência de ser seu Dasein a possibilidade e potencialidade de existir o ser do filho inexistente, para logo depois concluir, em um movimento de raciocínios atropelados, que o não-ser desse filho é justamente "uma liquidação radical e necessária do meu ser". O leitor se espanta ao mergulhar em um desejo de autodestruição tão total, assim como lê maravilhado, e algo incômodo, B. desmanchar a questão judaica sem apelar para sentimentalismos vitimizantes, admitindo inclusive a vergonha que lhe assoma ao ser tomado por "pensamentos-judaicos", de se sentir judeu, de se sentir "particular". É um livro que toca questões realmente delicadas e difíceis, até chegar a um final surpreendente.
B., ao visitar as paisagens de sua infância, começa a relacionar Auschwitz com a cultura paternalista na qual cresceu e se educou - "Se é certo que Deus é um pai glorificado, então Deus se me revelou na imagem de Auchwitz". Desse modo, conclui que é um cinismo justificar não gerar vida porque existiu Auschwitz já que, até mesmo nesse terrível campo de concentração, ela foi gerada.Imre Kertész transforma, desse modo, uma das mais tenebrosas realidades factuais do século XX numa metáfora, quebrando perigosamente um tabu. Ao tratar o judaísmo como uma questão particular e não singular, Kertész se expõe de maneira terrivelmente perigosa. Mas todos esses riscos são compensados e equilibrados pelo brilho artístico do húngaro que se revela então como uma grata surpresa - Kertész é um autor que pensa, algo extremamente raro nesses dias dominados por escritores totalmente esvaziados de humanismo e que inescrupulosamente sobrepõem à ética princípios meramente estéticos.
Terra Magazine