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Sexta, 1 de maio de 2009, 07h38

Porras: "Temos que acreditar em sonhos!"

Marc Vanappelghem/Divulgação
As Artimanhas de Scapino
"As Artimanhas de Scapino"

Deolinda Vilhena
De Santos (SP)

Como bem lembrou meu caro amigo Macksen Luiz em sua coluna Contracena, do Jornal do Brasil do dia 23 de abril, "o lançamento ruidoso do Ano da França no Brasil silenciou sobre a programação teatral do evento". Mas, como não desisto fácil e me autoproclamei, desde a mais tenra idade, viúva de Molière, insisto na minha insana luta pela divulgação do teatro francófono. O teatro top de linha, aquele cuja qualidade é indiscutível - lembrando que qualidade independe de gosto, qualidade é qualidade, resultado de trabalho. Gosto é outra coisa.

É por isso que a coluna de hoje é dedicada à mais recente criação do grande, do espetacular, do magnífico, do brilhante, do genial, do excepcional, do tudo e mais um pouco mago colombiano do teatro suíço de expressão francesa, que atende pelo nome de Omar Porras e que, apesar dos 20 anos de trajetória e do sucesso mundial, ainda é um ilustre desconhecido no nosso Patropi.

O Teatro Malandro, sua companhia, estreou no último dia 21 de abril, no Théâtre de Carouge, um cidadezinha de menos de 20.000 habitantes na Suíça, nada mais nada menos que "As Artimanhas de Scapino", um Molière da melhor safra, comédia em 3 atos e em prosa, criada no Palais Royal no dia 24 de maio de 1671.

Registro aqui uma frase dita por Porras, numa das entrevistas que antecedeu a estréia de Scapino: "tenho orgulho de pertencer a uma raça - lembrando suas origens indígenas - que adotou um idioma e um deus que não eram os seus, e que séculos depois é capaz de levar Lope de Veja a Paris - referência ao espetáculo dirigido por ele na Comédie-Française em 2006". E agora ele vai mais longe, depois de ter entrado ilegalmente na França e lá ter vivido como um clandestino, sem qualquer ressentimento, ele agora leva Molière aos palcos da Suíça e do Japão onde, com "As Artimanhas de Scapin", será a maior atração do SPAC Festival, em Shizuoka, nos dias 4 e 5 de julho.

Vejam vocês, um colombiano, dono de um passaporte suíço, com uma companhia com nome brasileiríssimo - Malandro - fazendo Molière em francês no Japão... Impossível não pensar em Louis Jouvet, que dizia assim "cada francês traz ao nascer uma revelação de Molière; uma constituição 'molieresca' que lhe vem não apenas desse criador, mas de uma natural hereditariedade que coloca igualmente cada criança falando francês na descendência de Rabelais, Montaigne ou Descartes, mas ainda do fato que, depois de quase trezentos anos, não há um só dia onde, em alguma parte da França, não se professe, pronuncie, declame ou se represente um texto de Molière...". Não sei se ainda é assim na França que se quer moderna e diversa, mas para quem busca a diversidade o mínimo que posso dizer é que comeram mosca ao não fazer do Scapin de Porras o Embaixador do Ano da França no Brasil.

Para os que não conhecem a peça eis uma breve sinopse: "na ausência de seus respectivos pais, Otávio casa-se com Jacinta - uma jovem pobre e de passado misterioso - e Leandro apaixona-se pela cigana Zerbineta. Mas os pais regressam antes do esperado com planos de casamento para os filhos. Desesperados e precisando de dinheiro para manter o compromisso jurado às moças, os rapazes recorrem a Scapino, criado de Leandro, famoso por sua esperteza. Lançando mão de truques e artimanhas - além da ajuda de Silvestre, o medroso criado de Otávio - Scapino arquiteta situações engenhosas para tentar arrancar dos velhos avarentos o dinheiro necessário para fazer triunfar o amor.

Amo a irreverência de Molière, amo a maneira como ousou pintar os ridículos do seu século, amo a forma larga e simples com que trata das grandes paixões da humanidade, amo Molière pela opção pela comédia, por compreender que fazendo rir as pessoas ele poderia estabelecer um novo tipo de comunicação, sem o ranço deixado pelo pretensioso teatro clássico francês.

No entanto, vi uma única vez Scapino, em setembro de 2000, no Teatro Alfa em São Paulo, e era uma montagem francesa que tinha a assinatura de Jean-Louis Benoît e a griffe da Comédie-Française. Com Andrzej Seweryn e Christian Blanc, no papel de Argante, dois grandes atores do Français, duas interpretações brilhantes e, uma encenação que, mesmo deixando a desejar, deu um Molière de Melhor Direção em 1998 a Benoît. Talvez por isso ande sonhando, até mesmo acordada, com a encenação de Omar Porras. Cuja estreia, a crer nas críticas dos principais jornais da Suíça, foi um enorme sucesso, digno do talento desse feiticeiro mor do teatro europeu.

"Scapino é meu duplo teatral"


A máscara de Scapino e o olhar de Omar Porras
Foto: Stéphane Gros/lumierenoire.ch

O teatro de Porras tem suas bases no texto, basta conferir o repertório do Malandro: Ubu Rei, de Alfred Jarry; A trágica história de Dr. Fausto de Christopher Marlowe; A Visita da velha Senhora de Friedrich Dürrenmatt; Otelo de William Shakespeare; Strip-tease de Slawomir Mrozek; Bodas de sangue de Federico García-Lorca; As Bacantes de Eurípides; Ai ! Quixote de Miguel de Cervantes; Don Juan de Tirso de Molina até chegar em 2007 quando Porras se entrega ao primeiro confronto com o universo textual e ideológico de Brecht, com "Senhor Puntila e seu criado Matti". Com um detalhe: jamais se colocando em posição de subserviência. A adaptação ocupa um papel importante no processo de criação do Teatro Malandro, pois para Porras, o texto para ser objeto de pesquisa e exploração por parte dos atores e do diretor deve "se emancipar de todo o ranço literário e se abrir às improvisações", dessacralizando a literatura para ser mais fiel ao ato teatral.

A vontade de montar Molière é antiga, diz o criador de Bogotá, "porque estou interessado em seus personagens cheios de cores e na relação especial que se instaura com o público, mas também pela sua forte ligação com a tradição teatral italiana." Logo, encontrar Molière concretiza uma necessidade de explorar a farsa, a eficácia do jogo com máscaras, os códigos do jogo oriundos da tradição popular italiana, e da commedia dell'arte como recursos cômicos propostos pelo autor. Depois de Dom Juan e Senhor Puntila, o encenador continua sua exploração da relação patrão-empregado; para ele esta relação é a condição humana, para ele Scapino é a peça mais representativa dos valores que levaram Molière a fazer teatro, e ele se inspirou na comédia romana, nos latinos, nos saltimbancos, nela estamos bem próximos dos "lazzi".

Para preparar "As Artimanhas de Scapino", Omar Porras e sua equipe ocuparam completamente o Théâtre de Carouge. Como um vírus. Ou mais precisamente uma contaminação. O Malandro transformou-se num grande contaminador do espaço. Numa imagem expressa pelo próprio Porras, para quem o trabalho deles "é contaminar o espectador. E esse trabalho deve ser feito sem preservativo". O vírus, que nesse caso tem virtudes salvadoras, é o da comédia. E nisso Porras se fez forte porque soube cultivar as raízes, apressar a maceração. "Queremos evitar que isso cheire teatro. Mas para isso precisamos ir até a fedentina do teatro. Para isso é necessário ir fundo. Seja na matéria cênica, no texto, e para os atores, é preciso ir ao mais profundo de cada papel."

Porras cercou-se de jovens atores. No começo da aventura, eles eram trezentos e vinte, vindos de todas as partes do mundo - olha a Ariane outra vez - a enviar um CV dispostos a trabalhar com o Teatro Malandro. Omar Porras escolheu nove, todos estabelecidos na França, e dizem os críticos que ele os escolheu à perfeição. De acordo com os coleguinhas suíços esse novo batalhão aderiu ao universo de Porras com tamanha paixão, com tamanho entusiasmo, que do coração ao corpo, a fábula de Scapino é narrada sem tempo morto.

O que Porras diz gostar muito nessa convivência com os jovens - lembrando que ele mesmo tem apenas 45 anos - são as conversas diárias sobre a profissão, a certeza de que não estão ali para fazer apenas mais um espetáculo, sabemos que temos que ser eficazes mas o mais importante diz o encenador é que existe uma noção de transmissão.

Dos 320 currículos enviados, Porras selecionou cerca de cem para um período de estágios, sem medo de investir seis meses da sua vida nesses encontros, "não para escolher, mas para encontrá-las". Depois, diz ele, "tomávamos um café e era ali que nascia ou não o desejo. Sem desejo não se faz nada. O resto, é o palco que decide. Nos, nos não fazemos nada além de talhar as sensações para descobrir o coração. E mesmo mais do que isso, a alma. Em seguida, fazemos com que ela corra no palco."

Marie-Pierre Genecand, crítica do jornal Le Temps de Genebra diz assim: "no palco do Théâtre de Carouge antes de se apresentar no Fórum Meyrin, fiel parceiro do artista colombiano, é Lionel Lingelser, 25 anos, silhueta longilínea que encarna Scapin. O olho esquerdo na platéia, ele extrapola na astúcia, e carrega em seus braços, Argante, o pai microscópico (Peggy Dias, excelente) para mostrar que ele faz do patrão o que ele quer. Poderíamos pensar que ele é Scapin desde o início dos ensaios, que começaram há três meses. Mas não, nos espetáculos de Porras a distribuição dos papéis - (a exemplo do que faz Mnouchkine) - ocorre tardiamente, afim de que a astúcia vença o ego. A técnica, aplicada também por ele também na Comédie-Française há dois anos, deixou muita gente insatisfeita. (...) O prazer é grande e muitas vezes, lembramos de Benno Besson diante desse espetáculo de uma exuberância sorridente. A referência pode até pesar, mas não será jamais ilegítima."

A única coisa que sinto é que Omar Porras não esteja em cena, ele confessou que tinha muita vontade de fazer Scapino, mas, disse numa entrevista que compreendeu a tempo que "a melhor maneira de explorar as ações, o potencial, o ritmo, a música interna de cada personagem, era assumir o papel de líder. Eu precisava de toda minha energia para dirigir."

A maneira como Porras fala de Scapino deixa escapar uma grande ternura pelo personagem: "Scapino é o personagem que, talvez, melhor defina meu universo. Ele é um sinônimo de Malandro - nome da companhia de Porras - e inversamente. Ele é a própria malícia, ele faz parte da família dos brincalhões, Scapino é um desses espíritos do teatro que fazem o teatro renascer em cada situação.". Mas, não deixa de ser um personagem perigoso que xx a moral, diz um jornalista...

Ao que Porras responde: "existe ordem moral no teatro? Scapino, é um pouco o duplo de Molière, um duplo de todos os encenadores. Ele lembra que o teatro não tem por objetivo estabelecer uma moral mas que ele é um revelador. Que fazer teatro é desvendar os mistérios da alma humana. Existe um pouco de Ubu em Scapino: um personagem que nos faz rir das atrocidades do mundo, que joga com suas contradições e provocando o assombro".

Carouge, teatro-abrigo


O gênio de Omar Porras
Foto: Marc Vanappelghem

Criado em 30 de janeiro de 1958, o Théâtre de Carouge foi inaugurado com "A Noite de Reis", durante a temporada de 2007/08 ao completar 50 anos, o Théâtre de Carouge - Atelier de Genève apresentava um balanço invejável: havia apresentadoo ao público de Carouge/Genebra cerca de 500 espetáculos, dos quais cerca de 300 novas produções.

Para o atual diretor do teatro, Jean Liermier, convidar Omar Porras para a primeira temporada dirigida por ele "era algo inevitável". Não apenas pelos laços que os uniam, mas, sobretudo porque "Porras é hoje o homem de teatro mais fértil e completo da Suíça francesa". Por outro lado, apesar de convidado a apresentar seus trabalhos em Paris e em teatros do mundo inteiro, com suas criações permanecendo em cartaz por mais de uma temporada, sendo dono de uma exigência artística raríssima, sabendo se dar os meios necessários para realizar seu trabalho e, acima de tudo, sabendo se fazer respeitar, Jean Liermier diz que não conseguia entender os espetáculos de Porras não se apresentam mais vezes nas instituições de Genebra. E lança a pergunta "Omar causa medo? Medo da sombra que ele poderia fazer aos outros criadores que não beneficiam do mesmo sucesso que ele?".

Para realizar seu sonho ele contou o apoio de Mathieu Menghini, diretor do Théâtre Forum Meyrin, que apóia e abriga o Teatro Malandro há vários anos. Mas não foi simples pois, Porras e Menghini tinham acabado de assinar uma convenção que garantia prioridade as estréias de Porras ao Forum Meyrin enquanto que ele, Liermier, queria extamente o inverso: que Porras fosse criar em outro lugar...

Nada que impedisse dois cavalheiros a serviço dos artistas de chegarem a um acordo, afinal, diz "nosso trabalho se baseia num desejo comum: oferecer aos artistas as melhores condições de trabalho possíveis, para que nossos espectadores possam assistir ao melhor espetáculo possível! Propus a Porras colocar à sua disposição um instrumento de trabalho, o Théâtre de Carouge, durante as cinco últimas semanas dos ensaios, com direito ao palco, cenários, em condição de espetáculo. Para um criador, são condições quase ideais. Por que esse cuidado, esse investimento, esse desejo de cercar Porras e seu Malandro? Primeiro por gratidão. Eu queria homenageá-lo por tudo o que ele e sua equipe nos deram. E depois, porque eu desejo que ele possa ir ainda mais longe. Paradoxalmente, Omar vive um momento da sua vida de artista no qual ele parece muito forte, no qual ele é incontornável; eu acho que ele precisa ser protegido, que possamos deixá-lo se questionar o mais serenamente possível, se reencontrar, e ter o tempo necessário para reconquistar sua liberdade."

Para Liermier a escolha de "As Artimanhas de Scapino" não aconteceu por acaso, para ele, "a história de um rapaz, que usa de astúcias e artimanhas para sobreviver, enfrentando as dificuldades com um sorriso nos lábios e a cabeça erguida, com muita dignidade, é o justo retorno às origens de um garoto de Bogotá."


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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