Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Francisco Viana

Sábado, 2 de maio de 2009, 12h09 Atualizada às 22h34

Um novo dado na comunicação

Francisco Viana
De São Paulo

Volto a abrir espaço para o jornalista Ricardo Lauricella que, por sua vez, dá continuidade ao tema do episódio carioca da Supervia e a lei da chibata. A crônica traz uma novidade: não basta seguir apenas as regras da boa gestão de crise, isto é, formular um discurso, ir aos veículos de comunicação dar uma satisfação à opinião pública. É preciso reconhecer erros, demonstrar autêntica sensibilidade política para os acontecimentos e seus problemas. Esse aspecto torna-se crucial porque estamos assistindo uma retomada do movimento político no país, com as entidades da sociedade civil pressionando e exigindo providencias para os problemas que se avolumam. O caso do Congresso é típico. No início, alguns parlamentares tentaram jogar a culpa da crise na imprensa. Fato muito corriqueiro quando se tenta escapar das responsabilidades. Voltaram atrás. Onde chegará a crise não se sabe. Mas um fato é concreto: o atual Congresso perdeu a credibilidade. Para o cidadão tornou-se um corpo estranho à sociedade, alvo de gozações, fonte de descrença. O que fazer? A sociedade terá que pressionar por uma resposta. Mas a verdade é ácida: ou os próprios congressistas tomarão a iniciativa da mudança ou a sociedade acabará por fazer valer sua soberania. O caso da Supervia traz um questionamento de natureza também concreta. Qual foi o real sentido das privatizações? Onde começa a responsabilidade dos seus artífices, quais as responsabilidades dos atuais governantes? Lauricella formula essas questões com propriedade. Vamos ao texto.

Reação em cadeia: Supervia 2

Por Ricardo Lauricella*

Em 15 de maio, o Jornal da Globo, seguido ao episódio da chibata na Supervia, entre outras manchetes, veiculou: "Lei de Concessões é violada pela violência nos trens do Rio". E foi mais adiante ao denunciar que o problema se estende ao conjunto das concessões, incluindo até mesmo as barcas Rio Niterói. Notícias como essas espelham exatamente o que é uma crise funcionando como se fosse uma erupção vulcânica. É o que se pode chamar de uma reação em cadeia. A questão hoje, já não é mais a Supervia, é todo o sistema de concessões no Rio de Janeiro. E, a persistir o questionamento, a tendência é que se acenda mais uma vez o estopim do questionamento das privatizações na chamada Era FHC (Leia-se Fernando Henrique Cardoso).

Como o Estado não está realizando a sua função essencial de fiscalizar os contratos e mediar a relação das concessionárias com a sociedade e o cidadão, acontece uma deterioração desses contratos. Eles estão perdendo a razão de existirem. À medida que isso for ficando claro vai haver pressões de grupos organizados, intervenção do Ministério Público e os políticos envolvidos nisso vão ter grandes prejuízos na sua reputação. Leia-se: perderão o que ainda existe de credibilidade e certamente perderão as próximas eleições. O tema privatizações pode ser explosivo na próxima campanha presidencial e fazer a balança pender contra o tucanato. Se nós olharmos o Brasil dos últimos anos, vamos ver que tudo que sai na imprensa acaba tendo repercussões na medida em que vai gerando um núcleo crítico na sociedade. Isso porque a opinião pública e o saber público são as formas mais eficazes de exercer a democracia. E no Brasil esse espaço vem sendo ampliado.

Vejamos o que acontece, por exemplo, com o telemarketing. São Paulo regularizou a questão do telemarketing. No Rio de Janeiro o mesmo debate foi iniciado para criar uma lei como a paulistana. Motivo: o telemarketing se tornou abusivo. O que estamos vivendo é uma crise atrás da outra, e a cada crise, produz reações na sociedade que acabam de um lado, desqualificando os personagens envolvidos e, de outro lado, dando origem a reações concretas, como é o caso do Congresso Nacional.

Há mais dois meses, o Congresso vem sofrendo um processo intenso de denúncias. O que elas comunicam? O que está em jogo hoje, não é só a dimensão rápida em que os fatos ocorrem, não é só a questão das pessoas eleitas, como até então vinha acontecendo. O que está em jogo hoje é a própria função da instituição.

À medida que a sociedade foi crescendo e se expandido, desde a Revolução Americana de 1775 e Francesa de 1789, foi também se tornando mais complexa. A partir daí foi preciso a criação da representação. O que acontece hoje é o deslocamento da esfera do parlamento, como representante dessa sociedade, para os núcleos organizados da sociedade civil. A política de representação perde espaço, perde poder. Perde legitimidade. Esvazia a conquista republicana do voto. É trágico, mas é verdadeiro. O Brasil está se tornando num viveiro de crises que, na essência, são crises de comunicação porque revelam o conteúdo não ético e corrupto no sentido de degradação - de instituições que por perderem o sentido da sua missão se deterioram e passam a viver em conflito com o cidadão. Em lugar de representá-lo, concentram-se nos interesses particulares dos seus integrantes.

A comunicação, nesse contexto, perde a capacidade de resposta. Não adianta discursos bonitinhos, dito na frente das câmaras com precisão e cuidados técnicos. Os fatos superam as versões. A sociedade está transitando da opinião para o saber. Por trás da mudança, está surgindo uma força que é inexorável. Que não se resume ao ambiente da web, como todo o leque de comunicações eletrônicas. Hoje, cada pessoa é um jornalista em potencial através de mensagens curtas por celular, blogs, twitter, comunidades virtuais, facebook, technorati, myspace, grupos de discussão por e-mail, entre tantos outros que poderão se tornar uma bomba dentro da sociedade tal como ela é. O saber se democratiza. Comparações são feitas. O caso da Supervia no Rio de Janeiro é emblemático: o presidente fez tudo certo, mas só tecnicamente. Faltou conteúdo, faltou dizer: erramos e vamos começar tudo de novo. Se isso vai ser dito, se as mudanças vão ser feitas é preciso que sejam imediatas. E às claras.

A representação existe para mediar o diálogo da opinião-saber público com o poder. Se não for assim, é a própria estabilidade das instituições republicanas que estará em questão. Mas essas mediação precisa ser autêntica. A verdadeira fonte de poder é o povo e este se manifesta por meio de suas organizações. O que estamos assistindo é um impasse de grandes proporções onde o poder político representativo se distancia do poder soberano do corpo social. Quando isso acontece, as instituições entram em crise. A cada crise é um pedaço da credibilidade das organizações públicas e privadas que é dilacerado. Pergunto: como vai reagir a juventude? Quais as lições que poderão tirar das atuais lideranças? O ciclo de decadência das nações se inicia quando não há referencias positivas, quando em lugar da confiança se instaura o descrédito. O que vivemos é exatamente isso: uma profunda crise de confiança. Como restaurá-la? Essa é a resposta que a sociedade conseguirá formular na medida em que adensar seu espírito participativo.

* ricardolauricella@terra.com.br


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Francisco Viana vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela