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Quarta, 6 de maio de 2009, 08h17

Sobre vacas, frangos, suínos e outros medos

Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)

Curioso que o nome da gripe mais recente - que ainda nem se caracterizou como pandemia, mas já causou um pandemônio - seja o do suíno, um mamífero que simboliza a abundância de carne. Mesmo proibido entre muçulmanos e judeus, o porco é apreciado em muitas culturas. No carnaval, quando o mundo virava de cabeça para baixo - ainda vira no Brasil -, espetavam um gordo pernil de porco na ponta de uma vara, transformado em estandarte da festa. O símbolo da quaresma era um magro bacalhau.

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Tivemos a doença da vaca louca e a gripe aviária. Em todas elas, como na gripe suína, milhares de animais foram sacrificados numa tentativa de isolar o vírus transmissor. Na gripe suína, mesmo comprovada que no atual estágio a transmissão se faz de homem para homem, a desconfiança levou muita gente a deixar de comer a carne do porco. Numa situação oposta, egípcios pobres defenderam seus rebanhos a unhas e dentes.

Até ontem a OMS divulgou um boletim estatístico em que passavam de mil os casos de gripe suína. Em 2003, chegaram a trezentas as vítimas fatais da gripe aviária. São números bem pequenos. Talvez o estardalhaço se deva ao medo de que se repita a matança da gripe espanhola, calculada em cinquenta milhões de pessoas.

Os cuidados sanitários e as campanhas de educação para prevenir a gripe suína não conseguem evitar um tom supersticioso e catastrófico. É como se o antigo terror da Igreja, que atribuía aos pecados carnais a causa das doenças, fosse substituído pelo terrorismo da ciência e da informação. A imprensa também pinta um mundo infernal como o dos quadros de Jerônimo Bosch e Pieter Bruegel.

As grandes epidemias de peste bubônica vinham geralmente após as guerras: um castigo seguindo-se a outro. Não existiam medidas sanitárias; a morte era um anjo de Deus, punindo e vingando os excessos. Da mesma maneira que a quaresma cheia de penitências e sacrifícios se seguia aos prazeres e orgias do carnaval.

Mudaram os tempos, mas não se esgotaram as metáforas. Vivemos o medo da crise financeira, após os excessos do capitalismo. As engrenagens que sustentavam o poder econômico entraram em pane. Nos países mais ricos, as populações padecem com o desemprego e as restrições ao poder de consumo. É o bacalhau magro, seco e salgado na ponta de uma vara, depois do suculento pernil de porco.

Outras metáforas. No livro mais antigo de que se tem notícia, A Epopéia de Gilgamesh, está escrito o relato do personagem Enkidu, o momento em que ele se aparta da convivência com os animais selvagens e se diferencia num ser humano. Passados alguns milhares de anos, o homem moderno já não vive como os seus ancestrais primitivos no rastro dos rebanhos, caçando para sobreviver. Mas continua na mesma dependência de carne, fonte de prazer, de gula e sobrevivência. E vez por outra um vírus animal altera a trajetória, faz um caminho adverso, e...

A carne sempre simbolizou o prazer erótico. Prazeres da carne, prazeres do sexo. Na raiz do medo de consumir carne suína passa uma culpa erótica. Carne, doença e medo: uma tríade que garantiu o poder das igrejas sobre a ignorância. A tirania do pecado. É preciso rever esses medos ou voltamos à Idade Média.

Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.

Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br

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