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Quinta, 7 de maio de 2009, 08h08 Atualizada às 15h00

Cinco passeios nos jardins de veredas

Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro

Primeiro passeio - Dentro da rica literatura latino-americana o único nome central, o único autor reinvidicado por todas as poéticas e linhagens, a única grande sombra pairando sobre o imaginário do continente é Jorge Luis Borges. Há uma literatura além de Borges; há uma cultura que não necessita de Borges; que o nega, que o relega, e que o torna desnecessário. No entanto, e cada vez mais, lê-se a partir de seu legado: ele exerce essa hegemonia. Na primeira década do novo milênio é o coração do cânone cultural latino-americano: não apenas no manejo de leituras generosas e seminais, mas também como alimento para preconceitos e lugares-comuns - de um suposto paradigma de uma literatura que vence o provincianismo. No grupo seminal encontra-se um conjunto de autores - capitaneados por Ricardo Piglia, Sergio Pitol e Roberto Bolaño, essencialmente - que utilizam o legado de Borges na construção de formas originais de ler, seja a realidade, seja a cultura, ou os próprios gêneros. Ao grupo que vê em Borges a chave para a vitória contra certo provincianismo caberiam apenas mais leituras - da própria tradição argentina de livros que se pensam (como 'Museo de La Novela de La Eterna', de Macedonio, que é o precursor mais evidente de Borges), do entendimento do espaço peculiar que a cultura portenha ocupa na América Latina - claramente isolada e autocentrada. Jorge Luis Borges não é a vitória contra o provincianismo, mas sim o representante máximo (o artífice genial) de uma cultura provinciana que encena no texto o universalismo.

Segundo passeio - A crítica literária de Jorge Luis Borges é seu maior legado. Seu grande giro narrativo é fazer do comentário, arte: exponenciar a gramatura do tecido do comentário crítico. Nesse sentido Borges é um escritor destituído de fantasia, de capacidade de fabulação. Sua literatura nasce da voltagem imaginativa que a leitura o propicia (melhor: da memória da leitura). "Ficções" é exatamente isso - a reconstrução textual do resíduo imaginativo de leituras. Textos (Bíblia, romances, Enciclopédias, etc, etc) provocam comentários, e esses comentários escapam do gênero 'resenha' pela utilização em seu tecido textual de convenções do gênero 'conto'. Uma reorganização da memória do narrador provocada (alimentada) pelas sugestões de leituras. As personagens de Borges não apenas são quase sempre leitores, como também nos contos palavras (novos livros) iluminam seus comportamentos - e, inclusive, contaminam sua psicologia, seu pensamento. Um crítico literário escreve críticas com artifícios do gênero conto onde personagens se comportam como críticos assumindo em suas vidas psicologias emprestadas da literatura. Nesse sentido, Borges foi genial antes como crítico para depois o ser como contista. Alimentou-se tanto dos artifícios das construções literárias que analisou e dissecou que escreveu justamente o livro - "Ficções" - que mais homenageia os bastidores da escrita literária.

Terceiro passeio - Como um escritor tão argentino, tão inegociavelmente portenho, tornou-se ponto de apoio para autores e artistas tão díspares quanto o sérvio-croata Danilo Kis, os italianos Cláudio Magris e Italo Calvino, o húngaro Peter Esterházy, o chileno Roberto Bolaño, o francês Georges Perec ou o alemão WG Sebald? Borges é um escritor seminal por trabalhar a voltagem ficcional em materiais narrativos não utilizados pela literatura: aforismos filosóficos, verbetes de enciclopédia, documentos e artigos, mapas e quadros, a própria crítica literária. Borges expande o espaço do fictício. Ensina como capturar a voltagem do fictício em qualquer material, inventa um tipo de narrador-leitor-crítico cujo olhar gera narrativas a partir de qualquer material. Melhor: cujo olhar narrativo capta a ficção de qualquer espaço em que seus olhos se debruçam. Ou ainda: que pela narrativa, por narrar o documento, coloca em questão o olhar objetivo sacralizado que este recebia antes. Há ficção na realidade; a própria realidade é um registro específico, um efeito de leitura que pode ser desmanchado e substituído por outra leitura. Todo gênio inventa um tipo de narrador, um olhar - e essa é a qualidade genial de Borges. O próprio olhar é narrativo. A partir de Borges Calvino, Bolaño, Sebald, etc, podem ler os documentos que alimentam suas narrativas de forma diferente.

Quarto passeio - Em 'O Último Conto de Borges', ensaio do livro 'Formas Breves' (Cia das Letras), o crítico Ricardo Piglia afirma que toda obra borgiana trata do tema da apropriação da memória alheia, a substituição da memória pessoal por uma outra, artificial e livresca; o efeito fantástico nasce na claridade com que os narradores se apropriam dessas recordações artificiais. Em Borges há uma diluição da identidade pessoal, onde 'o herói vive de pura representação' e inventa para si 'uma vida falsa'. Para Piglia, essa apropriação da memória alheia é, na verdade, uma variação sofisticada do tema do duplo. Pode-se pensar então que as personagens de Borges, ao terem suas vidas contaminadas pela leitura, no fundo dos livros retiram elementos que complementam sua identidade partida. As personagens de Borges encontram nos livros estilhaços de sua essência, e deles se refazem inteiros com uma máscara. Possuem a memória artificial desses livros; e com essa memória também modificam o mundo ao seu redor.

Quinto passeio - Em outro ensaio, 'O que é um leitor?', do livro 'O último leitor' (Cia das Letras), Piglia dedica um espaço privilegiado a Borges e sua relação com a enciclopédia. Para Piglia os personagens leitores de Borges procuram na leitura, em suas relações com os livros, exprimir a angústia de sua defasagem com a vida. Há uma ordem na tranqüilidade da biblioteca e as personagens passam de um livro ao outro, de uma citação à outra, 'dispersos na fluidez e no rastreamento de todos os livros a sua disposição'. Logo essa ordem começa a ter o mesmo acúmulo de instabilidades que a própria vida: o leitor sofre a angustia de que 'tudo ainda está para se ler'. O labirinto borgiano, essa sensação de asfixia de caminhos típica do mundo narrativo de seus relatos, dá-se pela impressão que existe a 'impossibilidade de encerrar a leitura' uma vez começada. A desarrumação do universo borgiano ocorre quando 'alguma coisa falha' - 'uma citação que se extraviou, uma página que se espera encontrar e está em outro lugar'. Para Borges, é nesse instante que nos tornamos fantasmas do livro 'porque está tudo escrito' e isso 'nos anula'. Ricardo Piglia, em trecho luminoso: 'Nesse universo saturado de livros', 'uma das chaves desse leitor inventado por Borges é a liberdade no uso dos textos', mais adiante: 'a disposição para ler segundo o interesse e a necessidade'. É nessa liberdade que as personagens se tornam outros: quando saturado de livros, tomam para si o direito de ler mal. Ou seja: de romper a fluidez da leitura e falhar os limites da página; ver no romance não mais o universo cerrado que preenche a defasagem da vida: tomá-lo como falhado, da mesma forma que o mundo o é para esse leitor que nesse instante em que se desliga da fluidez da leitura levanta os olhos do livro. Mas assim como na imagem pessoana de que o rosto sem a máscara ainda possui algo de máscara, o leitor que se desliga do livro, que toma liberdades com a biblioteca, com as citações, esse leitor foi mudado pela leitura; esse leitor foi, de certa forma, contaminado. Há na sua retina tipos gráficos que deformam a realidade.


Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

Fale com Vinicius Jatobá: vinicius_jatoba@terra.com.br

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