
Claudio Martini
De Campinas (SP)
A clássica e moralista história infantil de Pinocchio (ou Pinóquio, em português), do italiano Carlo Collodi, e que caminha para seus 130 anos de vida, sempre teve um lado sombrio, que é explorado com maior ou menor intensidade em suas adaptações para os quadrinhos.
Nas mãos do desenhista francês Winshluss, que em 2009 conquistou o prêmio mais importante do Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angoulême com a sua versão para a obra, essa face obscura de Pinocchio é posta em evidência, criando uma HQ complexa, rica e divertida.

Pinocchio nas mãos de Winshluss
Nas quase duzentas páginas do enorme livro capa dura e com uma edição primorosa da editora alternativa francesa Les Requins Marteaux (Os Tubarões Martelo), o quadrinhista desenvolve um roteiro que tem Pinocchio como ponto de partida, mas que vai muito além, e a história acaba sofrendo uma contaminação dos tempos atuais. O Pinocchio de Winshluss foi deturpado, corrompido e cooptado pelo século XXI.
O Grilo-Falante assume a identidade da barata Jiminy e vive no crânio do boneco, que por sua vez não é de madeira, mas um robô de metal construído por um Geppetto maligno, que só quer lucrar com o uso militar de seu novo invento. Os personagens principais passeiam por um mundo de drogas, perversões sexuais, exploração do trabalho infantil, contaminação radioativa, capitalistas inescrupulosos, ditadores e golpes de estado, profetas do Apocalipse, detetives desajustados.
Winshluss constrói a história a partir de pequenos capítulos e em histórias paralelas, que se intercalam e se entrecruzam: as histórias do personagem principal, só com imagens sem texto, com um tratamento gráfico de cores e de retículas que lembram as páginas que eram publicadas nos jornais norte-americanos da primeira metade do século XX; as peripécias verborrágicas da barata Jiminy, com desenhos em preto e branco com referências aos quadrinhos underground dos anos 1960; as partes nostálgicas do conto, em grafite em tons de sépia; os grandes desenhos de página inteira, como cartazes multicoloridos de filmes ou espetáculos circenses. Todas essas histórias, partes de um quebra-cabeça, acabam se unindo para a conclusão, ou conclusões, com diversos The End.
Uma obra importante, com uma narrativa e linguagem gráfica excepcional, que merece ser conhecida por quem gosta de ir além das Histórias em Quadrinhos convencionais.
Vale mencionar também uma outra versão da obra, Pinocchio, Histoire d'un enfant, do desenhista italiano Ausonia, em edição francesa da Pavesio Editions, onde o lado dark do personagem é levado ao extremo. Aqui, Geppetto é um açougueiro e o boneco, em sua viagem de descobrimento e auto-conhecimento em um mundo violento e implacável, não tem nariz e é feito de carne.

Pinocchio nas mãos de Ausonia
Essas duas obras, entre as centenas de adaptações literárias, gráficas, cinematográficas e teatrais do livro de Collodi, se destacam pela inventividade e pela revisão dessa obra com mais de um século, mas que continua trazendo inspiração e dando espaço para uma discussão sobre o papel do homem em nosso mundo e a mudanças que ele vem realizando, para o bem ou para o mal.
Terra Magazine