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Sexta, 8 de maio de 2009, 07h42

Bruno, o tímido do Kid Abelha

Paquito
De Salvador (BA)

O grande acontecimento é o amigo, dizia Nelson Rodrigues, e acrescentava: todo o resto é cruel desamor. Nada melhor do que estas palavras pra falar de Bruno Fortunato, a pessoa que mais vejo quando vou ao Rio de Janeiro, onde estou de passagem.

Bruno é guitarrista do Kid Abelha - que anda de férias - mas é um sujeito tão discreto que, fora os fãs, poucos o reconhecem como membro da banda, mas ele está no grupo desde a sua formação, no início dos anos oitenta. O conheci quando morei no Rio, em 1990, e, a partir desse momento, temos sido mutuamente constantes na amizade.

Por conta desse vínculo, sempre que ele ia à Bahia com a banda, eu assistia aos seus shows, e assim aprendi a curtir o Kid, que, dos grupos do rock brasileiro dos anos oitenta que permaneceram, é o mais despretensioso. Canções simples, diretas, numa tradição que remonta ao melhor da Jovem Guarda, e com uma cantora que não tem paralelo no universo do rock. Paula Toller, quer queiram quer não, é uma intérprete original, suave - e aí está a brasilidade carioca do seu canto, quase preguiçoso, feito uma garota de Ipanema chegada de um dia de sol na praia.

Mas me interessa falar aqui das canções: que capacidade de fazer hits! Cheguei a ver shows do Kid nos quais o público cantava todas as músicas do começo ao fim. A que nunca pode faltar é a da primeira gravação deles, geralmente apresentada no bis, Pintura íntima, cujo refrão "fazer amor de madrugada/ amor com jeito de virada" tem pouca gente no Brasil urbano, na casa dos quarenta pra baixo, que não conhece.

Na minha atual estadia, eu e Bruno conversamos descontraidamente sobre o período inicial de sua carreira, quando as gravadoras, devido ao sucesso da Blitz, começaram a contratar bandas pop massivamente, bem diferente do momento atual, quando pouco se contrata e há um contingente numeroso de pessoas fazendo música no Brasil num esquema independente, com pouca possibilidade de ampliação de público. Dizem que virão novos tempos, espero, mas a crise está instaurada.

Bruno também contou como o Kid foi pichado no início, justo pela despretensão, e mais remotamente, como entrou na banda depois que cinco guitarristas passaram pelo posto. Leoni, no baixo, e Beni, baterista, formaram a banda. Leoni chamou a namorada, Paula,pra cantar. George Israel, sax, entrou, Beni saiu e o resto é história.

O que não se pode negar, apesar de Leoni não estar mais na banda há anos, é o seu talento de compositor. A canção deles que mais me chama a atenção é Nada tanto assim, do primeiro disco, que sintetiza um comportamento típico do que se pode chamar de pós-modernidade: "eu tenho pressa e tanta coisa me interessa/ mas nada tanto assim". Há um cansaço, sem drama, quase um descaso com o que se passa em redor. Nas faculdades de comunicação e filosofia, foram escritos quilos de papéis que versam sobre o mesmo assunto, sem o poder de concisão destes versos.

Comparando com outra canção emblemática e anterior, Alegria, alegria, de Caetano, fica mais patente a força da música. A canção de Caetano é alegre - está no título - aberta, disposta às coisas do mundo. A de Bruno e Leoni - pois Nada tanto assim é dos dois - é quase indiferente, e por isso, marca mesmo um jeito de ser ainda do nosso tempo.

Quando perguntei a Bruno, sobre quem fez o que na música, ele disse que a letra é toda de Leoni, enquanto a música é dos dois e, bem discretamente, como é do seu feitio, se eximiu da responsabilidade de ter feito uma grande canção. Mas isso ninguém lhe tira. No entanto, o meu amigo é tão na dele que me contagiou e fez-me ampliar o leque, falar do Kid, de Paula, Leoni etc

Faltou ainda de Nada por mim, de Paula e Herbert Viana, canção de amor de doer, gravada primeiro por Marina, mas eu vou me calar que o tempo é curto e o outono carioca chama pra sorver a cidade, fresca, suave e preguiçosa feito o canto de Paula.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

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