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Sábado, 9 de maio de 2009, 07h51

Livros recebidos: Espanha

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Acredito que me correspondo com o escritor e editor frances Jean-Pierre Moumon desde 1988 ou 1989. Moumon, que vive em Gonfaron, Departamento de Var, no Sul da França, é uma figura muito ativa no cenário da FC francesa e européia - já que é um poliglota que lê e traduz em treze línguas (da última vez que discutimos isso).

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Nascido em 1947, Moumon é também de importância para a ficção científica brasileira. Como editor da revista semiprofissional Antarès - science fiction et fantastique sans frontieres, criada por ele em março de 1981, ele publicou autores de todo o mundo, a maioria traduzidos por ele sob diversos pseudônimos. Antarès foi uma das poucas publicações genuinamente internacionais da ficção científica mundial, e vários brasileiros apareceram nela. Autores da Primeira Onda da FC Brasileira, como André Carneiro e Walter Martins, e da Segunda Onda como Jorge Luiz Calife, Gerson Lodi-Ribeiro e eu mesmo. De fato, meu conto "A Última Chance", publicado na revista (N.º 34) em 1989, representou a minha estréia profissional. É de Moumon a expressão "Renascença da Ficção Científica Brasileira", para designar a Segunda Onda.

Pois ontem recebi dele um pacote com uma série de livros espanhóis de ficção científica, que fornecem um instantâneo do que está acontecendo por lá. O que chama mais a atenção é Delirio 3: Sciencia Ficción y Fantasia, na verdade uma revista que combina contos antigos e atuais, todos traduzidos por Francisco Arrellano, que também responde pelo editorial e que deve ser o editor da revista. Delírio é publicada por La biblioteca del laberinto, S. L., e este número 3 traz contos de Ricardo Leveghi, Robert E. Howard, Edmond Hamilton, Hannes Bok, Jean-Pierre Laigle e A. Merritt, poesia de King Crimson e Jane Yolen, e ensaios de A. E. van Vogt e Francis Lacassin. A capa é do inglês Chris Foss, famoso por suas imagens de naves espaciais e cidades futuristas, e a revista traz ainda várias ilustrações antigas de Virgil Finlay e do próprio Hannes Bok, além de um caderno colorido com as artes de Lee Brown Coye, comentadas por Oscar Mariscal. O conto de Laigle (um pseudônimo de Moumon) é um pastiche de Tarzan, "Regreso a Opar", aventura do herói criado por Edgar Rice Burroughs em uma cidade perdida no coração da África.

O viés da revista é claramente voltado para obras antigas, clássicas ou redescobertas. O mesmo viés está presente na publicação, pela mesma biblioteca del laberinto, do romance Los desterrados de la Tierra, do francês André Laurie (Jean-François Paschal Grousset), em quatro fascículos ilustrados por George Roux. A edição é de outubro de 2008 e a introdução de Augusto Uribe, presente o primeiro fascículo, informa que esse romance foi publicado na Espanha em fascículos, no ano de 1889. Na França, apareceu em 1887, como Lês exiles de la Terre, que, segundo Uribe, é "um romance de estirpe verniana", isto é, inspirado nas obras de Jules Verne. Laurie, que nasceu em 1844, faleceu em 1909. Os quatro fascículos são muito bem produzidos, e trazem o selo da Delirio: Ciencia Ficción y Fantasia.

La biblioteca del laberinto, S. L. parece ter se especializado na publicação de clássicos e curiosidades literárias do passado. Outras publicações, em livro, incluem obras de Alexei Tolstoi, Howard, Burroughs, John Taine e Stanley G. Weinbaum - autores que, supõe-se, estão em domínio público na Espanha.

A mostra do contemporâneo fica a cargo da antologia Fabricantes de Sueños 2001, antologia anual dos melhores da FC espanhola, publicada pela Associación Española de Fantasía y Ciencia Ficción (http://www.aefcf.es) e compilada a partir de revistas, fanzines e sites na Internet. Traz oito narrativas publicadas em 2000. Os autores são: Daniel Mares, Rafael Marin, Eduardo Vaquerizo, Ramón Muñoz, Rodolfo Martinez, Félix J. Palma e José Antonio Cotrina. Na introdução, os anônimos organizadores admitem que a fantasia, na Espanha, está atualmente produzindo contos melhores do que a ficção científica. A capa do livro é de Manuel Sayar.

Moumon também envia o seu ensaio "Europa salvage o las colônias huérfanas", que trata de ficção científica em que uma Europa devastada é visitada ou conquistada por suas ex-colônias. Em e-mail ele pergunta: "Você conhece algo nesse tema, por escritores latino-americanos?"

O tema é fascinante, e lembra, por exemplo, o romance de Robert Charles Wilson, Darwinia, de 1998. No livro, em março de 1912 a Europa é subitamente substituída por uma nova terra povoada por toda uma flora e fauna alternativa. Todos os habitantes humanos desaparecem, e o novo território virgem se torna alvo das ações colonialistas que partem da América (principalmente da América do Norte; o Brasil ou as outras nações sul-americanas nem são mencionadas). "Darwinia", como o novo continente é chamado, é uma espécie de infecção viral causada por inteligências artificiais formadas no seio de um grande banco de memória galáctico. Sua manipulação do passado resulta na confusão de realidades, produzindo alternativas que se entrecruzam em torno de pontos nodais. No caso em particular, a tragédia da Primeira Guerra Mundial na Europa cria a atração entre a nossa realidade e a realidade alternativa de Darwinia, resultando na confusão das duas. Toda essa especulação cosmogônica de Wilson não esconde o caráter exótico e maravilhoso da nova geografia, efeitos que são agora reconfigurados e aplicados à fonte da percepção do Eu ocidental, a Europa.

E, é claro, toda a visão positivista herdada pelo herói, Guilford Law, a partir do pensamento ocidental e europeu é que o impede, por décadas, de reconhecer a nova realidade e de se tornar um agente operante na solução do conflito cósmico que ela sublinha. Sua posição como Eu dominante é deslocada pela transformação ontológica, e ele só se reequilibra ao reconhecer o caráter desse deslocamento.

Moumon, novamente assinando como Laigle, localiza o conto "Les ruines de Paris" (1856), do francês Joseph Méry, como o primeiro exemplo desse tema. Ambientado em 3844, fala de uma Terra pacificada, que envia expedição de historiadores às ruínas de Paris.

Exemplos brasileiros são poucos. Zanzalá (1936), a admirável novela utópica de Afonso Schmidt (1890-1964), tem elementos de guerra futura entre os habitantes do Vale de Zanzalá - uma região que realmente existe em Cubatão, na Baixada Santista - e invasores "caborés". Esses invasores são europeus - que chegam clamando "Polo rey e pola grey!". "No século anterior, antes de ser suspensa a migração de europeus, tinha-se registrado um fenômeno interessante. Alguns desses povos, nascidos e educados num ambiente de inquietações políticas e guerras, orientados por uma filosofia desumana, se haviam tornado inadaptáveis à vida de trabalho e de concórdia que é tão própria da América. Onde eles estavam surgia logo uma questão, muitas vezes um conflito."

A utopia brasileira teria evoluído para um estado de socialismo avançado, enquanto a Europa ficou presa do imperialismo que Schmidt testemunhou ao visitar a Europa nas vizinhanças da Primeira Guerra Mundial. Não é a mesma coisa que Moumon pesquisa, mas não deixa de conter essa sugestão de que a antiga colônia teria superado a metrópole: "A Europa - embora hoje não pareça - já foi um continente civilizado. As ruínas que ainda lá podem ser vistas dão idéia do seu antigo esplendor. Como se sabe, a rápida decadência começou em 1914 e acentou-se com as guerras que se sucederam. Em 1950, era um montão de ruínas fumegantes. Daí para cá, ficou sendo uma espécie de museu em ponto grande, onde os estudantes de outros continentes vão veranear todos os anos e consultar os arquivos. Hoje, a Europa vive das glórias do passado. Nas conversas, os europeus falam com voz tremida de descobridores, de poetas e de filósofos. Mas tudo isso passou, está perdido na distância. Só resta um povo envenenado, inadaptável, que a América e a África recebem com justificada reserva..."

A obra de Jerônymo Monteiro traz outra pista de como essa noção se assentou no Brasil. Desde o seu primeiro livro, O Filho do Diabo (1937; depois reescrito e publicado postumamente como O Ouro de Manoa, em 1973), Monteiro trabalhou com o mito da Atlântida, particularmente com a idéia de que os atlantes teriam se refugiado no Brasil, depois que seu continente afundou no oceano. Os atlantes já estão lá, na Amazônia brasileira, em O Filho do Diabo, e mais tarde na aventura de Dick Peter, A Serpente de Bronze, aparecem numa cidade subterrânea semelhante, mas na África: ao tomarem conhecimento antecipado do cataclismo que os aguardava, os habitantes da Atlântida puseram em ação os seus eugenistas, que "percorreram todas as terras do Império para selecionar os casais mais saudáveis e perfeitos", que foram postos em animação suspensa, no interior de instalações subterrâneas em várias partes do planeta. Despertados pela intrusão de Peter e seus amigos, eles, comandados por uma belíssima mulher - reminescente da Ayesha de Haggard, em Ela -, planejam conquistar o mundo com sua tecnologia superior. São porém derrotados no último instante por um deus ex machina - desde o seu "congelamento", o clima da Terra tornou-se inóspito para eles.

Em 3 Meses no Século 81 (1947), um alter ego de Monteiro viaja longe no futuro, para descobrir que o plano dos atlantes funcionou enfim. Depois da Terceira Guerra Mundial, eles emergem do seu esconderijo na Amazônia para herdar o planeta. No ano seguinte Monteiro publicaria A Cidade Perdida, em que o seu alter ego desta vez vai à Amazônia e encontra a cidade subterrânea habitada pelos descendentes da Atlântida, que lhe falam de como nossa sociedade está a caminho do abismo pela cobiça e pelo militarismo. Essa advertência de que a civilização ocidental está condenada, se não mudar seus modos, está presente nos livros que formam essa seqüência de referências à Atlântida, na obra de Monteiro, e termina de maneira definitiva com o fim do mundo retratado no seu marco da FC brasileira, Fuga para Parte Alguma (1961).

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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Delirio 3: Sciencia Ficción y Fantasía, revista que combina contos antigos e atuais

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