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Terça, 12 de maio de 2009, 08h13

A crise e as decisões de investir

Julio Gomes de Almeida
De São Paulo

Podem ser enganosas as interpretações dos resultados da indústria brasileira para março. Alguns indicadores apresentados pelo IBGE na semana passada deixam transparecer um quadro positivo, mas na verdade nuvens muito carregadas ainda são predominantes no cenário desse setor e da economia nacional. A produção aumentou com relação a fevereiro, a terceira elevação seguida, mas o aumento de março foi o menor dessa série e, além disso, foi muito pouco expressivo, de apenas 0,7%. Nos meses anteriores as variações tinham sido de 2,1% e 1,9%, respectivamente, em janeiro e fevereiro.

O resultado pode também ser ilusório na comparação com o mesmo mês do ano passado. A taxa de declínio da indústria em março, de -10%, ficou bem abaixo das quedas de 17,5% e 16,8% de janeiro e fevereiro. Contudo, essa "melhora" foi decorrência de um fator calendário ou de um fator estatístico. É que no corrente ano o mês de março contou com dois dias úteis a mais do que março do ano passado e isso faz diferença quando é calculado o desempenho da indústria. Ademais, o resultado da produção industrial nesse último mês fora muito baixo formando, portanto, uma base de comparação reduzida.

Esses dados não bastam para se aferir o estado real da produção manufatureira. Do nosso ponto de vista são relevantes as informações que dão conta de um nível de produção na indústria no primeiro trimestre do ano quase 15% inferior ao equivalente do mesmo período do ano passado. Outro dado decisivo: a indústria de bens de capital, que é o coração do sistema produtivo e espelha a intenção de investir predominante na economia, não pára de aprofundar sua queda.

De fevereiro para março a produção desse setor caiu 4,7%, acumulando dois meses de mega retrações, pois de janeiro para fevereiro o declínio chegara a 7,1%. Em seis meses de crise já perdeu 33% de sua produção, sem que se apresente qualquer sinal de reação. Em si, esse desempenho de bens de capital contribui destacadamente para os resultados fracos da indústria brasileira como um todo. Mas, além disso, o colapso em bens de capital é revelador de que o investimento na economia vem tendo um declínio de grandes proporções. As variações do investimento têm o poder de determinar à frente os aumentos de renda e emprego, razão pela qual os negativos indicadores em bens de capital nos últimos meses devem ser tomados com extrema preocupação.

A economia vem obtendo resultados mais favoráveis na área do emprego, das vendas do varejo, do comércio exterior, na conta de transações correntes do balanço de pagamentos, na inflação, numa indicação de que sob muitos ângulos a crise internacional não afeta o Brasil tão negativamente como em outras épocas. Tudo isso é verdadeiro e faz diferença a favor da economia brasileira, menos com relação ao eixo da dinâmica econômica que tem no investimento o seu centro irradiador. E o investimento no Brasil vai muito mal.

O governo reduziu impostos em bens duráveis, o que contribuiu para minimizar a queda de vendas e de produção nesses setores, a exemplo de automóvel. Mas até agora não instituiu nenhum mecanismo adicional de incentivo para as empresas que, mesmo diante de um horizonte incerto causado pela crise internacional, venham a se aventurar em novos projetos de inversão.

Não devem ser esquecidas as medidas para ampliação dos recursos do BNDES que visam assegurar a existência de fundos para investimentos. Mas não somente por falta de financiamento os investimentos deixam de ser realizados. Se há uma queda generalizada e profunda nas expectativas de longo prazo, como é o caso atual, os investimentos são deixados de lado mesmo com farta disponibilidade de financiamento.

Não é fácil reverter um quadro como este, mas a política econômica deve fazer o possível para, pelo menos, restringir ao máximo a queda das inversões. Um caminho o governo já trilhou com as medidas tomadas para reforçar as linhas do BNDES. Outro é representado pelo PAC que procura ampliar os investimentos públicos e assim compensar a retração do investimento privado.

Os empresários classificam como muito morosos os processos de aprovação do BNDES e a avaliação do PAC é que os atrasos na execução dos projetos ainda são grandes. Ou seja, há o que fazer para melhorar o desempenho dessas duas políticas.

Mas falta um mecanismo mais diretamente voltado a contrabalançar ao menos de forma parcial as expectativas empresariais negativas. Isso não se faz com taxas de juros altas como as que ainda prevalecem no Brasil. Os juros deveriam cair mais rapidamente para o objetivo de aumentar o investimento na economia. Além disso, o governo poderia criar um incentivo fiscal para o investimento com validade definida, como, por exemplo, para este e o próximo ano. O incentivo consistiria na redução de tributos (imposto de renda e outros impostos e contribuições federais) em contrapartida aos gastos efetivamente realizados com novas inversões.


Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Fale com Júlio Gomes de Almeida: jgomesalmeida@terra.com.br

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