
Umberto Eco
Do The New York Times
Uma pesquisa da companhia McAfee, da qual todos os jornais estão falando, chegou à conclusão de que o fenômeno spam, ou seja, as mensagens não desejadas que enviam para o nosso e-mail, produz um enorme consumo de energia. Uma única mensagem gera 0,3 gramas de dióxido de carbono, equivalente às emissões de um carro ao percorrer um metro de estrada. Ao que parece, todo o spam em circulação consome 33 bilhões de kilowatt por hora de energia por ano, o mesmo consumo de três milhões de carros ou dois milhões e meio de residências. Isso gera um efeito estufa de 17 milhões de toneladas de anidrido carbônico. Omito outros detalhes técnicos e limito-me a ressaltar que o spam, portanto, não é apenas um incômodo e frequente forma de roubar as nossas informações, ele também prejudica a nossa saúde.
Ao que parece, nenhuma autoridade do mundo é capaz de reduzir o spam, nem os filtros que nós mesmos instalamos adiantam muito: muitas mensagens indesejadas passam através dessa proteção e, pelo que se sabe, o gasto maior de energia acontece justamente quando os abrimos ou eliminamos manualmente.
Quando isso acontece é normal sentir raiva e pensar em formas de defesa individuais. Como neste momento não consigo imaginar nada melhor, sinto vontade de vingar-me. Tive uma ideia, e naturalmente espero que centenas de especialistas me respondam demonstrando ser algo irrealizável ou prejudicial, portanto já lhes aviso que enviarei essas mensagens para a lixeira (como se fossem spam), pois pretendo lançar uma provocação.
Vejamos: vamos separar os que enviam essas mensagens indesejadas entre chatos industriais e chatos artesanais. Imagino que os chatos industriais contam com muitas formas de neutralizar o meu protesto, mas existem milhares de chatos artesanais, como aqueles que com a sua verborragia incerta nos afirmam que fomos premiados em um sorteio e pedem os nossos dados; ou o conto de termos recebido uma importante herança que não podemos receber por algum motivo e nos solicitam o envio de cinquenta por cento do valor para poder receber o valor integral, evidentemente enviando certa quantia a título de garantia, etc., etc..
É provável que os chatos artesanais nem disponham de banda larga, não sei quantos de vocês passaram pela situação de que algum desses chatos lhe enviasse um volume completo de 600 páginas, com fotos coloridas incluídas, enquanto você não está em casa com a sua bela banda larga, mas sim em um hotel ou na fazenda, fazendo com que, para baixar tamanho lixo, o computador fique travado durante uma hora, no mínimo.
Bem, para esse tipo de chatos podemos responder anexando a Bíblia de Jerusalém. Podem encontrá-la em italiano no site http://www.liberliber.it/biblioteca/b/bibbia/index.htm e da forma como chega, tem 1.226 páginas e pesa 11.574KB. Mas, se em dois segundos mudamos o seu formato para espaço duplo e em caixa 20, passa a ter 6.556 páginas e mais de 14.000 KB. Não é má idéia: se você tem banda larga, ela é enviada em poucos minutos, ou também podem deixar que fique trabalhando à noite no envio. Se quem o recebe não tem banda larga, terá alguma dificuldade. Mas claro que se além de mim, centenas de usuários fizessem o mesmo, o desgraçado ficaria praticamente paralisado.
Sei que ao fazer isso contribuiria para o aumento da poluição. Claro que, se por acaso, umas semanas depois de receber essa resposta centenas desses chatos resolvesse parar de enviar os seus spam, no fim das contas o custo energético pagado será menor do que o ganho final. Além disso, pereat mundus, o prazer da vingança não suporta cálculos sórdidos.
Naturalmente, sem muito esforço, o plano poderia ser melhorado. O fax da edição 1552 da "Retórica" e da "Poética" de Aristóteles, em formato PDF, tem mais de 37 mil KB, e a "Summa Theologica" tem as mesmas dimensões em edição bilíngüe. A "Anatomy of Melancholy" de Burton em PDF chega a 32 mil KB, "Os mistérios de Paris" de Sue na edição francesa, só ele, a 76.871 KB, quase seis vezes a Bíblia. Se, além disso, vocês têm um computador eficiente e o deixam trabalhando à noite, podem enviar todos os textos que mencionei juntos.
Enfim, uma organização industrial que visse chegar milhares de Bíblias ou de Mistérios de Paris, pensaria duas vezes. Quero esclarecer que, para ver quanto demorava em chegar a Bíblia, enviei-a ao meu e-mail. Não consegui encontrá-la na minha caixa de entrada e percebi que algum sistema de filtros a tinha enviado automaticamente para itens excluídos. Mas penso que o tempo para baixá-lo foi o mesmo, portanto, o incômodo para o destinatário igual é grande.
Terra Magazine
|
The New York Times
Umberto Eco: enviem a bíblia para os chatos
|