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Quarta, 13 de maio de 2009, 07h54

Algumas pistas para ocupar o tempo

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Brito: Glória Perez é um talento, escreve sozinha enredos em que se misturam gafieiras do Rio de Janeiro com vacas e elefantes do Rajastão
Brito: "Glória Perez é um talento, escreve sozinha enredos em que se misturam gafieiras do Rio de Janeiro com vacas e elefantes do Rajastão"

Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)

Televisão
Caminho das Índias

Todas as noites faço meu curso intensivo de hinduísmo. Glória Perez é um talento, escreve sozinha enredos em que se misturam gafieiras do Rio de Janeiro com vacas e elefantes do Rajastão. Aprendi com Shankar que preciso viver de acordo com minha própria verdade. Difícil tem sido convencer minha empregada a sair para o meio da rua com uma tigela de leite, sempre que vou realizar um negócio importante. Segundo a novela, sem o leite não é auspicioso.

Livros
Um romance russo
, de Emmanuel Carrère - Alfaguara
O francês Carrère constroi seu romance autobiográfico com três fios narrativos que se misturam e convergem para um final único. Enquanto narra a história de um soldado húngaro, que após a Segunda Guerra Mundial ficou 55 anos num manicômio de uma cidadezinha dos confins da Rússia, ele também escreve sobre o avô desaparecido na França, supostamente por ter colaborado com o exército alemão. E entremeando tudo, Carrère conta seus infortúnios amorosos numa linguagem erótica e psicanalisada. Um livro que prende o leitor e o deixa sem fôlego do início ao fim. Contra-indicado para quem sofre de asma.

A parede no escuro, de Altair Martins - Record
Escreveram que o Brasil possui um único escritor: Machado de Assis. É porque ainda não leram A parede no escuro, o romance de estreia de um jovem escritor gaúcho. Gosto de livros que incomodam, provocam transtorno. Altair transforma em narrador cada um de seus personagens. Todos se narram. De início ficamos confusos, mas a desorientação passa ligeiro. A trama gira em torno do atropelamento de um homem idoso, narrada de forma tão angustiante que nos sentimos como se um carro tivesse passado por cima de nós.

Meu destino é ser onça, de Alberto Mussa - Record
Mussa tem se especializado em recontar histórias. No seu novo livro, ele adapta para uma linguagem literária os mitos dos índios Tupinambás e traduz as narrativas de importantes cronistas que visitaram o Brasil. Finalmente pude compreender o que significa canibalismo. As crônicas de André Thevet me deixaram sem vontade de comer carne por mais de um mês. E olha que era carne bovina.

Música
Radiohead e Hildegard von Bingen

As pessoas imaginam os escritores como intelectuais incansáveis, sempre à procura de descobrir coisas novas. Não é o meu caso. Sinto preguiça de revirar bibliotecas, lojas de cd e dvd. Boa parte do que leio, escuto e assisto devo a minha mulher, ela, sim, uma verdadeira pesquisadora. Meu filho mais novo é outro pesquisador incansável. Graças a ele pude conhecer a banda inglesa Radiohead, embora ele sempre ache que não ouço bem os discos e que o meu conhecimento de rock, blues e jazz é superficial. Concordo. Mas juro que minhas incursões pelos Cânticos à Virgem Maria, da monja alemã do século XII, Hildegard von Bingen, são minuciosas. Também foi minha mulher quem me apresentou Hildegard.

Café
Não falo do Café Savoy, de Praga, onde Kafka passava as tardes e eu devorei uma torta excelente. Nem do Café Jacu, aquele produzido em São Paulo: as aves comem os grãos, descomem, os fazendeiros produtores apanham os grãos descomidos, lavam e torram. Os baristas acham o resultado excelente. O escritor Ricardo Lísias convidou-me para experimentar a iguaria, quando estive em São Paulo. Não deu. Mas recomendo o café produzido em Taquaritinga do Norte, Pernambuco, espécie arábica, maturação na sombra, inteiramente orgânico. Preparado em cafeteira italiana é perfeito. Pena que os grãos são quase todos exportados. Com licor de jabuticaba Triunpho e sequilhos de goma e gergelim é uma iguaria fina.

Cinema
O limoeiro
(Lemon tree), de Eran Riklis
Salma, uma viúva palestina, vive de um sítio de limões. Um dia, o Ministro de Defesa de Israel se instala numa casa ao lado do seu plantio. A segurança acha necessário botar os limoeiros abaixo. Salma procura um advogado palestino e começa sua luta para preservar a herança do pai. Trata-se de mais um filme sobre os conflitos entre Israel e Palestina. O diretor é israelense, mas consegue não tomar partido, criando uma história comovente, com interpretações magníficas.

Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.

Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br

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