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Quinta, 14 de maio de 2009, 08h40 Atualizada às 09h04

De peito aberto

Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)

Um assunto que repercutiu muito nos últimos dias na mídia que trata de assuntos de consumo foi a "batalha" ganha por uma consumidora inglesa contra uma grande cadeia de varejo pela igualdade de preços nos sutiãs considerando a diversidade de corpos.

Explicando melhor, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, a grade de tamanhos para sutiãs é mais complexa que a oferecida no mercado brasileiro. Há duas medidas básicas (tronco e bojo) que se combinam para determinar o tamanho adequado da peça íntima para cada mulher.

No Brasil ainda é possível encontrar algumas marcas que fabricam a taça (ou bojo) do tamanho A (pouquíssimo volume de seio) até tamanho D (busto farto). Mas no hemisfério norte essa grade de tamanhos vai até o tamanho F, devido a diferenças genéticas, culturais e estéticas.

Tudo começou no ano passado quando Becky Willians, uma jovem de 26 anos e seios fartos lançou uma campanha no Facebook, um site de relacionamento muito popular na Europa e equivalente ao Orkut no Brasil, com direito a abaixo-assinado para forçar a diretoria da Marks & Spencer a suprimir uma sobretaxa para tamanhos de sutiãs maiores.

Na semana passada, já era possível contar com 10 mil assinaturas de adesão ao movimento "Bust 4 Justice" (justiça para o busto, em inglês), pela adoção de um preço único, e o assunto ficou apimentado com o vazamento de um email interno da Marks & Spencer que indicava a não adoção de um preço único, especialmente numa conjuntura de crise e baixo consumo.

Esse fato fez com que os ânimos se alterassem, o movimento "Bust 4 Justice" recebeu doações e suporte para a compra de ações da cadeia de varejo e anunciou "guerra" no conselho dos acionistas previsto para o próximo mês de julho.

O grupo Marks & Spencer tentou incessantemente justificar que seus preços são competitivos e que há mais inovação, tecnologia, trabalho e material gasto na confecção de sutiãs para seios avantajados, inclusive pelo desafio provocado pela gravidade ao longo dos anos.

Imediatamente o assunto tomou a opinião pública e concorrentes da Marks & Spencer como a gigante Asda e a La senza anunciaram que não admitiam nenhum tipo de discriminação às suas clientes. Diante do impasse, a M&S foi a imprensa e tornou público que reconhecia o erro de que a taxa de 2 libras esterlinas para tamanhos com bojo DD em diante era injusta.

Para amenizar o mal-estar, a Marks & Spencer fez um anúncio nos principais canais publicitários anunciando a retirada da sobretaxa para bustos avantajados permanente e ainda um desconto de 25% em todas as linhas de sutiãs (e em todos os tamanhos) com duração de duas semanas. A campanha usa a com a expressão "We boobed", num jogo de palavras que significa algo como "fizemos bobagem" mas que faz uma referência aos seios femininos, que em linguagem vulgar britânica são conhecidos como "boobs".

A lição que fica é que no século 21 a soberania é efetivamente do consumidor e as empresas que não se dedicarem a conhecer os anseios do seu público tenderá a decair. Afinal, as empresas que alardeiam o compromisso com a responsabilidade social e respeito às diferenças não podem adotar "dois preços, duas medidas".

Mais uma vez, as mulheres e seus sutiãs fazem o seu capítulo na história.

Maria Alice Rocha é doutora em moda pela University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Obs.: Terra Magazine publica hoje o texto correto da colunista. Ontem, por problemas no envio, a coluna se repetiu equivocadamente.

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Campanha de desculpas da Marks & Spencer por sobre-taxa de sutiãs maiores

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