
Atualizada às 09h04 Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)
Um assunto que repercutiu muito nos últimos dias na mídia que trata de assuntos de consumo foi a "batalha" ganha por uma consumidora inglesa contra uma grande cadeia de varejo pela igualdade de preços nos sutiãs considerando a diversidade de corpos.
Explicando melhor, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, a grade de tamanhos para sutiãs é mais complexa que a oferecida no mercado brasileiro. Há duas medidas básicas (tronco e bojo) que se combinam para determinar o tamanho adequado da peça íntima para cada mulher.
No Brasil ainda é possível encontrar algumas marcas que fabricam a taça (ou bojo) do tamanho A (pouquíssimo volume de seio) até tamanho D (busto farto). Mas no hemisfério norte essa grade de tamanhos vai até o tamanho F, devido a diferenças genéticas, culturais e estéticas.
Tudo começou no ano passado quando Becky Willians, uma jovem de 26 anos e seios fartos lançou uma campanha no Facebook, um site de relacionamento muito popular na Europa e equivalente ao Orkut no Brasil, com direito a abaixo-assinado para forçar a diretoria da Marks & Spencer a suprimir uma sobretaxa para tamanhos de sutiãs maiores.
Na semana passada, já era possível contar com 10 mil assinaturas de adesão ao movimento "Bust 4 Justice" (justiça para o busto, em inglês), pela adoção de um preço único, e o assunto ficou apimentado com o vazamento de um email interno da Marks & Spencer que indicava a não adoção de um preço único, especialmente numa conjuntura de crise e baixo consumo.
Esse fato fez com que os ânimos se alterassem, o movimento "Bust 4 Justice" recebeu doações e suporte para a compra de ações da cadeia de varejo e anunciou "guerra" no conselho dos acionistas previsto para o próximo mês de julho.
O grupo Marks & Spencer tentou incessantemente justificar que seus preços são competitivos e que há mais inovação, tecnologia, trabalho e material gasto na confecção de sutiãs para seios avantajados, inclusive pelo desafio provocado pela gravidade ao longo dos anos.
Imediatamente o assunto tomou a opinião pública e concorrentes da Marks & Spencer como a gigante Asda e a La senza anunciaram que não admitiam nenhum tipo de discriminação às suas clientes. Diante do impasse, a M&S foi a imprensa e tornou público que reconhecia o erro de que a taxa de 2 libras esterlinas para tamanhos com bojo DD em diante era injusta.
Para amenizar o mal-estar, a Marks & Spencer fez um anúncio nos principais canais publicitários anunciando a retirada da sobretaxa para bustos avantajados permanente e ainda um desconto de 25% em todas as linhas de sutiãs (e em todos os tamanhos) com duração de duas semanas. A campanha usa a com a expressão "We boobed", num jogo de palavras que significa algo como "fizemos bobagem" mas que faz uma referência aos seios femininos, que em linguagem vulgar britânica são conhecidos como "boobs".
A lição que fica é que no século 21 a soberania é efetivamente do consumidor e as empresas que não se dedicarem a conhecer os anseios do seu público tenderá a decair. Afinal, as empresas que alardeiam o compromisso com a responsabilidade social e respeito às diferenças não podem adotar "dois preços, duas medidas".
Mais uma vez, as mulheres e seus sutiãs fazem o seu capítulo na história.
Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br
Obs.: Terra Magazine publica hoje o texto correto da colunista. Ontem, por problemas no envio, a coluna se repetiu equivocadamente.
Terra Magazine
|
Divulgação
Campanha de desculpas da Marks & Spencer por sobre-taxa de sutiãs maiores
|