Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Deolinda Vilhena

Sexta, 15 de maio de 2009, 07h43

Boal e Planchon: o teatro chora dois mestres

Divulgação
Augusto Boal e Roger Planchon
Augusto Boal e Roger Planchon

Deolinda Vilhena
De Santos (SP)

Nem bem fiz meu luto pela morte de Augusto Boal (78), o que contava fazer escrevendo a coluna de hoje, quando recebo por e-mail a notícia do "encantamento" de Roger Planchon (77), que deixou meia classe artística órfã, na França, ao partir para o andar de cima na última terça-feira.

Não conheci nem um nem outro. Nutria por Boal uma admiração, e tinha por Planchon uma quase devoção. Na verdade, o que me unia a Boal era um misto de admiração e respeito. Um enorme respeito pela coerência/insistência desse mestre em defender o teatro como forma de intervenção política e social. Coerência essa que ele exibiu até o último momento, declarando em recente entrevista a Carta Capital seu descrédito em relação à Lei Rouanet ao afirmar que ela "assassinou a criatividade do teatro. Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem que acabar". Essa afirmação demonstra que ele estava mais perto dos ideais de Planchon, Vilar e companhia do que supunha a minha vã ignorância.

O choro por Planchon é diferente e machuca mais porque passa pela comunhão de idéias que me liga ao mestre francês: sua luta pelo movimento da descentralização teatral na França, sua trajetória de guardião da "divisa" Teatro Nacional popular, a ética acima de tudo, o teatro público e sua ligação com Ariane Mnouchkine. Ele foi o Presidente de Honra da ATEP - Associação Teatral dos Estudantes de Paris - criada em outubro de 1959 e célula mater do Théâtre du Soleil e no final dos anos 70, foi dirigido por Ariane, no inesquecível filme Molière no qual interpretava Jean-Baptiste Colbert o todo-poderoso ministro das finanças de Luís XIV.

O que não me impede de chorar a partida de Boal e, acima de tudo, lamentar os artigos publicados na presse nacional, pois nessa maldita era do politicamente correto poucos foram o que ousaram afirmar uma verdade incontestável: Boal não é apenas o mais conhecido/reconhecido homem de teatro do Brasil no exterior, é o único.

POR BOAL, ABAIXO O MERCANTILISMO E A PRIVATIZAÇÃO DA CULTURA


Augusto Boal (1981)
Foto: Acervo Idart CCSP

Augusto Boal foi, durante alguns anos, para mim personagem de uma música do Chico Buarque com o Francis Hime, "Meu caro amigo", datada de 1976, ano que marca o início da minha trajetória no teatro.

Entrar para o teatro, começar a faculdade de jornalismo e a faculdade de teatro foram momentos decisivos para quem aos 17 anos trocava a vidinha pequeno-burguesa da casa dos pais para estudar no Rio de Janeiro. Descobri o movimento estudantil, a juventude do Partido Comunista, as passeatas e as reuniões sob os pilotis da PUC do Rio de Janeiro pela Anistia ampla geral e irrestrita ao mesmo tempo em que nas aulas da Fefierj descobria a existência de Augusto Boal.

Natural que fosse assistir "Murro em ponta de faca", dirigida pelo Paulo José para a companhia de Othon Bastos, texto de Boal no qual ele aborda a vida dos exilados políticos. Bela decepção. O dramaturgo não me agradara. Talvez a falha fosse minha. Talvez buscasse a lenda criada em torno dos musicais do tipo Arena conta...

Em 1979, sem nunca ter tido vontade de ser atriz, descubro que Boal vem ao Brasil para dar um curso - se a memória não estiver atacada pelos dois alemães, Alz e Heimer, foi no Teatro Dulcina - e decido fazê-lo, compreendi que Boal havia sido alçado a categoria de ícone e para melhor compreender o mito e a lenda precisava vê-lo de perto.

A decepção deve ter sido grande, pois não tenho a mais vaga lembrança desse curso, a não ser o fato de ter descoberto em seguida um livro, 200 exercícios para o ator e o não ator com vontade de dizer algo através do teatro, que meus colegas viam como uma bíblia. Entretanto, só descobri sua importância décadas depois quando estive na Dinamarca e, ao conversar com uma professora do Departamento de Teatro da Universidade de Aarhus, tive acesso ao livro traduzido para o dinamarquês.

Durante anos alimentei a vontade de ver um espetáculo assinado por Boal. Como se o diretor pudesse despertar em mim uma paixão que o dramaturgo e o teórico não conseguiram. Esperei até 1986, mas o dia chegou e lá fui eu em companhia de Ângela Ro Ro e Beyla Genauer rumo ao Teatro de Arena do Rio, lá no velho Centro Comercial da Siqueira Campos. A peça era "Fedra", de Racine, com Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Cássia Kiss... outra desilusão, o espetáculo era velho e faz parte da lista dos espetáculos que me decepcionaram amargamente. Levei quase 20 anos para fazer as pazes com Racine e sua Fedra, o que devo a Dominique Blanc e Patrice Chéreau.

Boal era um mito, mas meus encontros com ele terminaram em grandes desencontros. Até o dia que li em 1999, numa entrevista ao jornal Extra Classe do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul, Boal alertar para os perigos do mercantilismo e da privatização da cultura. Não sei como esse jornal veio parar em minhas mãos. Procurando material para escrever a coluna de hoje descubro a versão on line da entrevista que mudou minha maneira de ver Augusto Boal e dez anos essa entrevista soa como música aos meus ouvidos, tudo o que ele diz ali vem ao encontro do que defendo, do que digo e repito nas salas de aula e nas conferências que por vezes faço vida afora. Estávamos bem mais próximos do que eu imaginava...

Transcrevo aqui dois parágrafos dessa entrevista e sugiro a leitura (http://www.sinpro-rs.org.br/extra/ago99/entrevista.htm) num deles Boal aponta o perigo da censura econômica, ao lembrar os dois tipos de censura existentes, "uma delas é a policial, característica do regime autoritário que o Brasil viveu a partir de 1964 até a Constituição de 1986. Bem, esta censura praticamente já não existe e quando surge é esporádica, um fato aqui ou ali. A outra forma existente, e esta é tão ruim quanto à outra, é aquela que se dá na forma da sedução. (...) Ou seja, "se você fizer o que eu quero, ganha o dinheiro para fazer a produção. Se não fizer, não tem". Este, infelizmente, é o padrão de censura dominante no Brasil. É a coerção pelo poder econômico. São as empresas que determinam o que pode ser feito e o artista não está livre para fazer suas experiências, ele perdeu este direito. O governo chama desta forma, mas esta parceria não existe de fato. É mentira".

No outro, ao ser indagado sobre se a cultura deveria ou não dar lucros, Boal respondeu: "este pressuposto é dos neoliberais. A cultura, assim como os bombeiros e os hospitais, tem de ser subsidiada. Senão, a gente vai acabar como aquelas freiras em Viena, na Áustria, que matavam os pacientes terminais em um hospital por julgarem que eles seriam deficitários do ponto de vista econômico. Existem atividades que são deficitárias por natureza e precisam de subvenção. O teatro que dá lucro é aquele que é ancorado por uma estrela ou vedete de televisão, e que geralmente está dentro de uma norma de sucesso em que tudo gira em torno da estrela. Este teatro geralmente dá muito dinheiro. Mas é preciso que se garanta condições para que certas experiências, fora destes padrões, possam ser desenvolvidas sem esta preocupação".

A morte do Boal dói porque é mais um dos nossos que se vai. Mais uma vez nosso lado perde, e dessa vez perde feio porque quem partiu integrava a turma dos verdadeiros combatentes. Alguém precisa acender as lamparinas da cabeça da turma do andar de cima e passar para eles uma lista da turma dos nossos políticos, por exemplo, para que as baixas atinjam também o outro lado...

Deixo aqui meu beijo carinhoso a Cecília e as crianças, não mais tão crianças assim, pois que conheci Julián no Théâtre du Soleil, namorando Joana, filha da Juliana Carneiro da Cunha, estudando na Paris III e dando continuidade ao trabalho do pai. Desejo a Julián toda a força do mundo para levar adiante o nome e a obra de Boal e se puder ajudar em algo conte comigo e com esse espaço.

PLANCHON, UMA VIDA QUE SE CONFUNDE COM O MELHOR TEATRO


O fim de uma era?
Foto: Divulgação

Com as mortes de Jean Vilar, em 1971, e de Jean-Louis Barrault, em 1994, Roger Planchon tornou-se o último dos moicanos ou a última testemunha viva do teatro francês do pós-guerra e do Teatro nacional Popular dos anos de ouro (1950-1960). Ele foi durante mais de meio século uma personalidade emblemática do teatro francês. O mestre de toda uma geração. A referência. Com sua morte, uma das mais importantes etapas da história do teatro contemporâneo chega ao fim.

E pensar que, ainda outro dia, o "encenador-cowboy", como ele se apresentava lembrando suas origens rurais - da região de Ardêche, estava em cena. Na verdade entre 4 de março e 19 de abril ele esteve no palco do teatro Silvia-Monfort em Paris, com a peça "Amédée ou comment s'en débarrasser", ao lado da mulher, a atriz Colette Dompietrini, festejando a sua maneira os 100 anos de nascimento de Ionesco, que ele bem conhecera no começo de sua aventura na Lyon dos anos 50. Encenador, diretor de teatro, ator, autor e cineasta, Planchon morreu em casa, "trabalhando" como disse seu filho Stéphane aos jornais, pois que estava lendo uma peça de teatro, quando se sentindo cansado, deitou-se e o coração o traiu.

Planchon antes mesmo de completar 20 anos de idade construiu em uma cave de 90 lugares o seu primeiro teatro, em Lyon, onde ao lado de Jean Bouise, Isabelle Sadoyan e Jacques Rosner, montou Ionesco, Brecht, Vitrac, Adamov e Michel Vinaver. Três anos mais tarde queria mais e troca Lyon por Villeurbanne, onde o prefeito Etienne Gagnaire, coloca à sua disposição o Teatro da Cidade Operária de Villeurbanne, mais tarde simplesmente Teatro da Cidade, que, em 1972, passar a ser o Teatro nacional Popular. O TNP sigla prestigiosa que pertencia a Jean Vilar e que o Ministério da Cultura transferiu a Roger Planchon por considerá-lo o único digno de receber esta herança.

Dono de um senso político sem igual foi de forma bem natural que o "patrão" do TNP transformou-se num dos líderes do movimento de Maio de 1968. Não por acaso a Declaração que discute o futuro dos profissionais de teatro na França é assinada em Villeurbanne.

Em 1971, ele inova mais uma vez trazendo Patrice Chéreau para co-dirigir o teatro de Villeurbanne em sua companhia. Uma parceria que durou dez anos e que Planchon renovaria entre 1986 e 1996, dessa vez ao lado de Georges Lavaudant. Filhos que ele escolheu e hoje, choram sua morte.

Chéreau no Le Monde datado de 13 de maio diz assim: "um dia, este senhor decidiu - algo que foi copiado mais tarde - que íamos dirigir um teatro juntos, ele e eu, o seu teatro. Que num teatro, havia a necessidade de anexar ao diretor uma criança insuportável que tornaria sua vida difícil. Foi a grande aventura do TNP em Villeurbanne, com Robert Gilbert. Dirigir um teatro, em igualdade de condições, eu que começava e trabalhava então na Itália, e ele, instalado nesta cidade há quase vinte anos. Ele me deu as chaves de sua casa para compartilhá-la e sacudi-la. Foi o que eu fiz. Pensávamos que ele era incansável, nos enganamos. Obrigado a você, Roger, que sempre acreditou nos poderes maravilhosos do teatro e nos fez compartilhá-los".

O TNP foi a sua vida. Ele o deixou recentemente, prestando muita atenção a sua sucessão. Como Jean Vilar, Roger Planchon defendia um teatro "serviço público", um teatro de alta exigência literária, poética e tinha o mais profundo respeito para com o público.

Fez do teatro de Villeurbanne, dos primórdios até hoje, com Christian Schiaretti como seu sucessor e com o edifício em obras, um dos locais mais importantes da criação teatral na Europa. Lá Planchon encenou e acolheu os maiores dos maiores: Pina Bausch, Bob Wilson, Kantor, Matthias Langhoff. O renome internacional do TNP fez com que os grandes encenadores o incluíssem como parada obrigatória em suas turnês.


Planchon e a esposa Colette Dompietrini em "Amédée"
Foto: Ph. Séguillon

Entenderam o porquê da minha paixão por Planchon? Pois é, mas ela vai, além disso. Tem a ver com minha paixão pela França, pelos seus ideais revolucionários, pela divisa de Liberdade, Igualdade, Fraternidade; pelo temperamento brigão do francês médio que, o sempre cordeiro, povo brasileiro confunde com mau humor, e que me fazia rir nas filas do supermercado vendo o bate boca porque o caixa do supermercado não tinha um centavo de euro para dar de troco ao cliente, que se sentia lesado e não podia admitir isso, coisa que aqui acontece diversas vezes ao dia, e quando penso nas nossas diferenças penso sempre numa frase, infelizmente desconheço o autor, que diz assim: "um povo que não luta pelos seus direitos verdadeiramente não merece tê-los". Na França eles não vacilaram e cortaram a cabeça do Rei, quando cortaremos ao menos a cabeça dos nossos vereadores, deputados estaduais e federais, senadores???

Talvez, isso explique, porque o Brasil chega ao século XXI sem ter sido capaz de fazer a sua revolução. A não ser que levem a sério a piada que chama o Golpe Militar de 64 de Revolução. E eu, ingênua, ainda sonho em ver em prática uma verdadeira política cultural que livre nosso teatro desses ares de eterno e moribundo mendigo... tolinha que sou!


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

Exibir mapa ampliado

O que Deolinda Vilhena vê na Web

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol