
Tony Monti
De São Paulo
Quatro milhões de pessoas foi o público estimado da Virada Cultural paulistana. Estive lá no sábado de noite e fiquei até o começo da madrugada de domingo. A experiência de caminhar no Centro é positiva. A ocupação do espaço público me lembrou um pouco o carnaval de blocos nos bairros, que toma o Rio de Janeiro e começa a crescer em São Paulo. É a sensação boa de se aproximar da rua de uma maneira menos automatizada. Mas, diferente de como foi no carnaval, a sensação de estar na multidão não foi boa o tempo todo. No carnaval, não há um show que centralize as atenções, no carnaval é a brincadeira que estrutura a convivência. Foi bom, mas é preciso fazer a ressalva.
Eu às vezes tenho um incômodo com os fins de semana. Já falei disso de diversas maneiras, vou tentar mais uma. No fim de semana, muita coisa deixa de funcionar porque é assim que o mundo do trabalho se organiza. Dá-se um tempo a quem não gosta do que faz durante cinco dias, para que se recupere e possa de novo ser uma máquina eficaz na semana seguinte. Há mais que trabalho durante a semana e descanso no sábado e no domingo, mas acho que a brincadeira mal estruturada dos dias de folga se relaciona com a exploração mais violenta dos dias de trabalho.
Quando esteve aqui, perguntaram ao filósofo esloveno Slavoj Zizek sobre o que ele gostava no Brasil. Antes de responder, ele escolheu dizer que não gosta do Carnaval. Não gosta da idéia de brincar quatro dias para ser explorado no resto do tempo, fantasiar-se de rei e trabalhar o ano todo sem ter uma casa confortável. Gostei de ter estado na Virada Cultural, mas me incomoda essa idéia de festas gigantescas que comem orçamentos que não vão transformar o dia-a-dia de ninguém. Vinte e quatro horas de brincadeira e um tanto de confusão. Fui assaltado, por que lembrar disso?, a hora era de me divertir. E me diverti. Quero dizer é que a festa é organizada para que todos lembrem dela como festa e não como a confusão de não conseguir se aproximar de um palco, de comprar cerveja cara na rua, de ser assaltado, de uma série de pequenas brigas. Menos ainda lembrar de alguns mendigos que dormiam nas calçadas do Centro.
Por que tão grande? Talvez para simular uma comunhão que, do meu ponto de vista, pouco existiu. Me senti tocado por uma idéia comum poucas vezes. Talvez por alguns minutos com o Instituto e convidados tocando Tim Maia, ou com o Marcelo Camelo, em uma comoção particular que, vi, era também um pouco coletiva. Marcelo Camelo faz música para chorar e canta como um ritual escuro de noites de sábado em montanhas escondidas. Mas a multidão não era comunhão na maior parte do tempo, era empurra-empurra. Levaram minha carteira. Gostei de estar lá, mas me sobram dúvidas sobre a existência desses eventos gigantescos, feitos, assim me parece, para que as outras mínimas coisas funcionem bem, não explodam. Mínimas coisas? a vida, o cotidiano fora do carnaval, o que pode ser maior? A espetacularização da festa tira a atenção da idéia de administração pública. Tudo bem quanto a existir a festa, mas não vejo em outros momentos grande esforço por mudar uma cidade que é baseada na exploração de muitos por poucos (e vem a Copa do Mundo). Abracei meus amigos algumas vezes, conversei com eles. Faria o mesmo sem a Virada, em um bar, em uma festa, em um cinema.
Essa grandiosidade me traz a idéia de um avesso de uma pequenez cruel, esse Estado baseado no choque, que precisa de fatos terríveis e grandiosos para justificar seu controle e sua ineficiência (ou falta de vontade) em prover de, por exemplo, educação e cultura, as pessoas. É a gripe suína, por exemplo, que faz no México ninguém sair de casa, ou a guerra contra o Mal. Ou a Virada, uma notícia grande, para todo mundo sair à rua, escutar um som às vezes mal equalizado. Uma idéia que grite. E, no resto do ano, ganhar pouco e não ter escola que ensine qualquer coisa sobre cultura, que não seduza alunos a lerem, a verem filmes senão os mais óbvios, uma cultura mais delicada que a deste carnaval que dá prazer basicamente pela exaustão.
Gostei de chegar bastante cansado em casa. Gosto também dessa exaustão eventual, mas, se é preciso escolher onde gastar dinheiro público, prefiro livro e cinema e teatro e show e exposição, todos os dias, um tiquinho mais de reflexão, e alguma tentativa de estruturar as práticas sociais e a cidade em vez de viver dessas explosões e desse gigantismo grosseiro. Queria um pouco do trágico nietzschiano, como eu o leio, que é Dionísio, como se costuma lembrar nestes momentos rompantes, mas é também Apolo, o que dá condições de brincarmos perto do abismo, cairmos por artifício, flertarmos com o mais extremo, e acordarmos em conforto na segunda feira.
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