
Atualizada às 08h41 Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Quando escrevi, na semana passada, que os "professores" não se dão conta de que Machado de Assis (o velho Aires, vá lá) escreveu "meia doente" - que eles deveriam tratar como erro, por coerência, se tivessem alguma - eu não quis dizer que Machado errou e que os "professores" são distraídos ou pouco lidos.
O que disse é que, se até Machado escreve "meia doente", ou seja, se ele também trata esse advérbio como adjetivo, é porque a variação está solidamente implantada (estava já há um século) e ele apenas a registra, sem maiores escrúpulos. Por que passa desapercebia, de todos, exceto dos ranhetas. Que, portanto, não é propriamente um erro de gramática, é só um erro de manual de redação.
Machado não escreve assim por concessão ou para documentar a linguagem popular, mas porque a forma é de fato comum, e se ouve da boca de muita gente culta. Em suma, o que quero dizer, e digo, é que está na hora de considerar com outros olhos a flexão do advérbio "meio", bem como outros casos de igual estatuto. Dizer só que é um erro porque advérbios são invariáveis é pouco, muito pouco, pouco mesmo. Não passa de repetir uma lista herdada.
Observe-se, claro, que nunca se ouviu nem escreveu (que eu saiba) "estamos ou estavam meias doentes". Ou seja, parece que a forma feminina só ocorre no singular, o que torna o caso bastante peculiar. É como se "meia" resultasse da mistura de um traço do advérbio (é invariável, por isso não tem plural) e de adjetivo (é variável, por isso tem feminino).
Apesar das aparências contrárias, é o mesmo fenômeno de variação que ocorre com "menos" - embora essa forma seja bem mais marcada, ou seja, é exclusivamente popular. Disse "apesar" das aparências porque o "singular" (olha as aspas aí, gente!) já tem "s"... Só ocorre uma flexão de gênero, como com "meia".
A idéia de que certas formas são simplesmente erradas é tão arraigada que meu texto foi lido como se eu criticasse a construção "meia doente", de Machado de Assis. Pois bem: não criticava. Quem achou isso que releia o texto.
Esta era uma das questões polêmicas de que eu queria tratar. O outro assunto surgiu no café da manhã, lendo matéria da Folha de S. Paulo sobre mais um engano da Secretaria de Educação do Estado de S. Paulo. Segundo a notícia, ora tratada como escândalo (chamada de primeira página e manchete no Caderno Cotidiano destacam distribuição pelo Estado de material com sexo e palavrões), ora, acho, nas devidas proporções (trata-se de um livro entre quase mil), o governo distribuiu material condenável, porque "traz palavrões e temas sexuais".
A Secretaria alega que é apenas um livro entre muitos e que se destinaria a adolescentes e adultos. E que foi parar nas mãos de alunos de terceira série por engano. Convenhamos que a Secretaria tem se enganado demais. E eles falam que se distinguem pela capacidade de gestão!!
O livro contém 10 histórias em quadrinhos tratando de temas de futebol. O jornal mostra pequenas cenas, como o "diálogo" entre um atacante e um zagueiro: o atacante miúdo (um estereótipo) provoca um zagueirão gigantesco (outro) perguntando: "Para visitar tua mãe tem que pagar entrada?". Há outras amostras, todas mais ou menos do mesmo estilo.
Minha opinião? Pode ter havido alguma inadequação, mas acho que escandalizar-se com o fato é puritanismo besta! Andei escrevendo aqui, há algum tempo, sobre a relevância de discutir na escola, entre outros materiais, piadas preconceituosas, mesmo as mais complicadas, as racistas. Não acho que analisar e discutir piada racista ou machista em sala de aula seja equivalente a fazer pregação de racismo e machismo. Fazer de conta que esconder tais discursos dos alunos os convence a serem mais democráticos e justos ou defensores dos direitos humanos é uma balela. "Limpar" os livros didáticos ou a lista de leituras produz apenas um efeito: a escola parece desligada da realidade. Depois se queixam dos alunos desinteressados.
Na escola, livros com sexo e palavrões são censurados. Mas basta o toque da sineta do intervalo para que se ouça de tudo. O pátio parece uma arquibancada. E qual é mesmo o problema com palavrões e cenas de sexo? Por que não ler e discutir? Queremos que a escola seja um lugar especial, de maior "pureza" e correção, uma espécie de espaço ideal, no qual os jovens estejam protegidos dos males do mundo? Pois então, realidade neles. É claro que a escola não se vai defender determinados comportamentos. Mas acho que esconder fatos não adianta. O verdadeiro diferencial da escola deveriam ser os debates conduzidos por professores com boa cabeça. Nada de censura farisaica.
Terra Magazine
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Divulgação
Capa do livro "Dez na área, um na banheira e ninguém no gol"
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