
Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro
Escritor de linguagem precisa e envolvente, o canadense Michael Ondaatje é por quase duas décadas já um dos mais fascinantes escritores de expressão inglesa. Seus romances revelam algo de sua biografia: nascido em Sri Lanka, atual Ceilão, passou sua adolescência na Inglaterra e foi para o Canadá completar seus estudos universitários, onde vive até hoje. Há em seus últimos cinco romances (ano passado publicou o impressionante Divisadero), uma qualidade circunavegante que é a expressão contemplativa dos impactos do imperialismo inglês no mundo.
O mesmo fenômeno colonial que enfurece VS Naipaul, encrudelece Chinua Achebe, ou martiriza Salman Rushdie, revela-se macio nas mãos poetizantes de Ondaatje. Decompostos em pequenos fragmentos, alimentadas por lapsos e silêncios e gestos, as narrativas de Ondaatje são violências cindidas e anestesiadas por um olhar destituído de agressividade ou malícia.
Basta ler o romance Bandeiras Pálidas para compreender logo o poder evocativo de Ondaatje: no coração de uma guerra civil que varre seu país natal Sri Lanka (agora Ceilão), a personagem Anil Tissera, retornando após uma ausência de quase duas décadas, tenta se equilibrar entre a frieza burocrática de seu trabalho humanitário e o candor de suas lembranças juvenis.
Romance político (como todo grande romance), Bandeiras Pálidas avança para terrenos mais insuspeitados justamente pelo seu estilo esgarçado e fragmentado - sem um discurso unitário organizado ao redor de uma mesma voz, a natureza lacunar da narrativa convida a visitas ao passado, pequenas reflexões, aforismos, trechos quase jornalísticos, elogios pastorais, denúncias políticas, e confissões do afeto entravado.
O Paciente Inglês se alimenta da mesma natureza narrativa fragmentária que seu sucessor Bandeiras Pálidas. Seu mundo, no entanto, é diverso. Em Bandeiras Pálidas, Ondaatje lida com as dores de um mundo pós-colonial convulso onde diversos grupos políticos se assassinam numa infindável guerra civil na luta pela hegemonia num território antes fagocitado no corpo de um império estrangeiro.
O Paciente Inglês se controi em cima do nó górdio em que o império colonial britânico começa a ruir: a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Almásy, Caravaggio, Hana, Kip - quatro olhares diante de um mundo em decomposição. O Paciente Inglês é um livro sobre restos, sobre retalhos de vidas, e apesar de Almásy ser o paciente gravemente queimado que dá título ao livro, ele não é o único a ser dilacerado do romance.
Todos são, de certa forma, seres violentados, a deriva, anestesiados em seus sentimentos e sonhos. O nó do livro é a história de amor entre Almásy e Katharine Clifton, mulher do chefe da expedição arqueológica ao Cairo ao redor do qual o primeiro núcleo narrativo se organiza. Outro núcleo é a relação entre um deformado Almásy e sua enfermeira Hana, numa Villa italiana. Ali, entre bombas não detonadas, os dois conversam e se conhecem em companhia de um exemplar rasurado e marcado de um livro de Heródoto. A chegada de dois soldados na Villa, Caravaggio e Kip, detona uma pletora de emoções e pequenas aventuras na jovem e espirituosa enfermeira.
Entre amores e confissões e mentiras, toda história de violência e opressão de certa parte da Segunda Guerra é revelada pelo seu lado mais silencioso, evasivo, contemplativo e discreto. A solidão nas casas grandes, os ecos nas cavernas, a imensidão dos horizontes nos desertos, os gestos de amor no meio da noite, o som dos ventiladores de teto, a música angustiada das teclas de um piano abandonado.
O Paciente Inglês é o livro mais agradável de Ondaatje porque é um livro, mais que qualquer coisa, sobre a fúria da paixão, o tédio angustiado da distância entre os amantes, um livro sobre a recompensa silenciosa do amor.
É de imenso interesse também a leitura da própria técnica narrativa de Ondaatje, sua extrema destreza no manejo das informações. Uma das mais espantosas cegueiras dos puristas literários é sua resistência ingênua ao áudio-visual. A discussão sobre o conflito entre literatura e cinema, e inclusive a crescente crítica a escritores 'cinematográficos', é não apenas ultrapassada quanto anacrônica. Bons escritores já ultrapassaram essa questão, esse escrúpulo, como é o caso no Brasil dos exímios contistas Rubens Figueiredo e Marçal Aquino.
O cinema despojou a literatura de certos excessos (ou tornou excessivos recursos por utilizá-los em sua própria linguagem com maior eficácia); o cinema parece ter solucionado a questão do que fazer com o corredor na literatura, como Woolf costumava pensar: como resolver o nó de escrever trechos em que nada acontece e que estão ali apenas como pontes (corredores) entre os momentos mais intensos da narrativa?
Ao retirar progressivamente da literatura recursos que eram canônicos e sacralizados (e seguros) usados por décadas, o áudio-visual acelerou as narrativas, criou novas temporalidades, e possibilitou uma poética com mais cortes, fragmentos e fugas, saneando assim algumas de suas peles velhas e ressecadas, fazendo a muda de certas superfícies escamosas.
Autores como Ondaatje, Coetzee, Piglia, Makine, Hatoum, o Aquino dos contos, escrevem uma inteligente prosa de apreciador de cinema, uma prosa que faz um uso sábio de certas velocidades narrativas do cinema. No entanto, é possível que Ondaatje seja praticamente um cineasta que escreve romances porque não apenas seus livros são um diálogo direto com as técnicas de montagem típicas do áudio-visual, como um de seus melhores livros é um delicioso ensaio-crítico com entrevistas e comentários sobre a arte da montagem de Walter Murch, editor responsável pela montagem do próprio filme O Paciente Inglês, e amigos pessoal de quem Ondaatje inúmeras vezes admitiu ser seu mais próximo irmão artístico espiritual.
Terra Magazine
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Reprodução
Imagem do filme O Paciente Inglês, baseado no livro homônimo de Ondaatje
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