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Sexta, 22 de maio de 2009, 08h17

A italiana que não governa a Índia

Vera Gonçalves de Araújo

A história de Sonia Maino é um conto de fadas e com toques de horror, como nos melhores filmes de Bollywood. Começa em 1946 numa cidadezinha de nada no norte da Itália, Lusiana, na província de Vicenza. A heroina é filha de um operário.

Sonia conhece o seu príncipe encantado Rajiv em Londres, onde trabalha como garçonete num pub. Rajiv é estudante na universidade de Cambridge e vem de uma família real que nunca teve coroa: filho de Indira Gandhi, neto de Jawaharlal Nehru.

As fadas decidiram que os dois iam se apaixonar à primeira vista e que se casariam em 1968. Quinze anos mais tarde, pediram à Sonia para renunciar à sua cidadania italiana, que podia atrapalhar a carreira política do marido.

As bruxas decretaram o assassinato de Rajiv Gandhi em 1991, e as fadas responderam 7 anos mais tarde, levando Sonia a se candidatar para primeiro ministro do país que se proclama a maior democracia do mundo. Como líder do Indian National Congress, Sonia salvou o partido da decadência - depois de uma campanha violenta, em que as suas origens italianas foram atacadas sem parar pelos rivais do Bharatiya Janata Party - e ganhou as eleições de 2004. Ganhou mas renunciou.

Nas últimas eleições, entre abril e maio de 2009 - a democracia indiana é tão grande que eles não podem votar todos num só dia - Sonia Gandhi ganhou novamente. E novamente não pretende governar, embora seja a única italiana que entrou na lista das 100 pessoas mais poderosas do mundo, escolhidas pela revista Time, enquanto outra revista, a Forbes, a coloca no sexto lugar entre as mulheres que mandam no mundo.

Sua sogra Indira foi assassinada. Seu marido também. Agora, seu dois filhos, Rahul e Priyanka, estão trabalhando para perpetuar a dinastia.

Como em todo bom conto de fadas, há a maldição da heroina. No caso de Sonia, a de esquecer a Itália, não falar mais italiano, não manter contatos com a terra de seus pais, para merecer a confiança dos eleitores da maior democracia do mundo. Não pôde vacilar nem um pouquinho, nos 41 anos que viveu na Índia, nos 25 anos de cidadania indiana, e nos 11 anos de carreira política. Um preço que Sonia até agora pagou sorrindo, como toda heroina que se preze.

Só consigo imaginar um final feliz para esse conto: Sonia que pendura, finalmente, as chuteiras e vai passar férias no altiplano de Asiago, onde nasceu, no meio das rosadas montanhas Dolomitas. Rodeada de dançarinos coloridos que cantam Jai Ho, como no final do filme Slumdog Millionaire - Quem quer ser um milionário? Mas no meu final ela canta em italiano mesmo.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br

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Sonia Gandhi: esquecer a Itália para merecer a confiança dos eleitores

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