Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Maio foi um mês movimentado, em termos de ficção científica e fantasia. Começa com um "momento catástrofe", com ventos de 80 km/h atingindo a cidade de São Paulo, onde vivo, no dia 5, tornando a Internet lenta. No dia 7, perdi a palestra do escritor Sérgio Pereira Couto, sobre teorias de conspiração, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon - eu já estava desenvolvendo uma gripe forte (ainda do tipo comum, brasileira mesmo...).
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No sábado dia 9, quando ocorreu a mesa-redonda sobre fantasia, organizada por Horacio Corral e o pessoal da OPELF ( http://opelf.org/) no mesmo local, eu não tinha condições de ir, e lamentei muito. mas sei que participaram Cláudio Villa, como moderador - Villa escreveu o romance de fantasia, Pelo Sangue e Pela Fé; Ana Cristina Rodrigues, do livro de contos AnaCrônicas: Pequenos Contos Mágicos, e que deu uma oficina sobre como publicar livros, na parte da manhã; Rosana Rios, escritora de livros para crianças e jovens, já tendo passado de mais de 90 livros publicados; e Mauro Trevisan, escritor e editor, famoso por sua ligação com a revista de RPG Revista Dragão. À noite, ocorreu como parte desse conjunto de atividades, o lançamento da antologia Espelhos Irreais, da Fábrica dos Sonhos, editado por Ana Cristina Rodrigues.
Passei o fim de semana prostrado, Dia das Mães e tudo. Mas na quarta-feira arrisquei ver Star Trek (veja resenha do filme aqui) com minha mulher, no mesmo shopping center. Meu filho já havia visto o filme com seus colegas de escola, e voltado um centilhão de críticas, mas nós fomos conquistados logo na primeira seqüência. O único problema foi que, quando o futuro Capitão Kirk foi ejetado da Enterprise pelo seu futuro melhor amigo, caindo em um planeta remoto e de fauna hostil, alguém da direção do cinema achou que usar o ar-condicionado para baixar a temperatura para níveis polares combinaria muito bem com a paisagem ártica desse planeta...

Na sexta-feira, dia 15, enfrentei a garoa noturna e fui ao Bardo Batata, nas vizinhanças da Avenida Paulista, para o lançamento da antologia Paradigmas 2, da Tarja Editorial ( http://www.tarjaeditorial.com.br/site/) com edição de Richard Diegues (com Heraldo Assis Barber). No caminho passei na Livraria Cultura e comprei a antologia Ficção de Polpa Volume 3, editada por Samir Machado de Machado, com o meu conto "Pelos Dentes da Baleia" (publicado aqui em 23 de novembro de 2006). Cesar Silva e o Marcello Branco estavam lá, para discutir assuntos relativos ao Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Também presentes Gianpaolo Celli, o outro editor da Tarja Editorial, e os autores da editora: Ataíde Tartari, Cristina Lasaitis, Ricardo Delfin e outros.
Ficção de Polpa é a primeira série de antologias originais (com uma maioria de histórias inéditas) da história da FC brasileira, e com a publicação do volume 2, Paradigmas confirma a sua situação de segunda série de antologias originais do Brasil. A tiragem é reduzida mas com um sólido elenco de autores: Tartari, Raul Tabajara, Flávio Medeiros (autor do romance Quintessência), Camila Fernandes, Fernando S. Trevisan, Gabriel Boz, Ademir Pascale, Luciana Muniz, Ana Cristina Rodrigues, Saint-Clair Stockler, Ricardo Delfin, Ubiratan Peleteiro e o próprio Diegues.
No mesmo dia eu havia recebido de Delfin a antologia Solarium: Contos de Ficção Científica, organizada por Frodo Oliveira para a Editora Multifoco, do Rio de Janeiro. Traz contos de Chico Anes (com duas histórias), Marcelo Andrades, Humberto Amaral (três histórias), Danny Marks, Marcus Vinicius da Silva, Delfin, Larissa Redeker, André Garzia, Luiz R. R. Faria Jr., Ronaldo Luiz Souza, Márcio Aragão, Magalhães Neto, Emanoel Ferreira, Hugo Vera, Lino França Jr., José Geraldo Golvêa, Nuno Lago, Victor Stéfano, Pablo Casado, Gabriel Zigue, Frodo Oliveira e Sabine Mendes. Levei o exemplar para mostrar ao pessoal e para o Delfin autografar, mas saí antes da chegada dele.
O livro não traz informações, mas eu me pergunto se o projeto não é também o de uma série de antologias originais - Solarium é um título bom demais para ser usado uma única fez.
De qualquer forma, me parece haver uma tendência clara aí - ainda mais se somarmos a esse núcleo de projetos a revista (em formato de livro) editada por Nelson de Oliveira, com previsão para seis edições. Duas já saíram: Portal Solaris e Portal Neuromancer. A próxima se chamará Portal Stalker, e no dia 17 de maio eu terminei o meu conto "O Novo Protótipo", e o enviei ao Nelson. É o terceiro episódio de uma série de contos protagonizados por Bella Nunes, uma "pós-humana". Os dois primeiros - "Rosas Brancas" e "Concha do Mar" - apareceram nas duas primeiras edições da revista.
No dia 19 tive de ir a Sumaré, no interior, para cuidar de alguns problemas familiares, e, como sempre faço quando estou nessa cidade, tomei um sorvete de casquinha (o sorvete da cidade é excelente) na sorveteria que costumava freqüentar na juventude. Para encurtar, foi delicioso mas não fez bem à minha gripe...
No dia seguinte, minha mulher me arrastou ao cinema novamente, para ver X-Men Origens: Wolverine. Ela é fã de Hugh Jackman. Também é uma palmeirense de segunda geração, e nem por isso deixou de perdoar Jackman por ter sido adotado pela Gaviões da Fiel, a torcida do Corinthians... O apelo do ator australiano junto às mulheres maduras - ele provavelmente representa um padrão de masculinidade que sobrevive à presença onipresente dos "Zé-Bonitinhos" como Brad Pitt e Tom Cruise - é reconhecida no próprio filme, na cena em que um velho fazendeiro vai buscar as roupas do filho para que Logan não mate do coração a mulher dele.
O filme é movimentado e inteiramente absurdo (e não absurdista), trivializa o mistério em torno do herói, e contradiz algo do foi sugerido nos filmes anteriores. Meu filho, o crítico de cinema, já havia nos passado as suas impressões, mas a chance de ver o peito nu de Jackman superou as reservas críticas da minha mulher. O que se pode dizer mais do filme é que Bryan Singer realizou um pequeno milagre, levando a sério o material de história em quadrinhos e cuidando com eficiência e atenção de cada detalhe do primeiro filme da franquia X-Men - feito prodigioso que ele declinou repetir no segundo da série. A minha tese continua sendo a mesma: quanto maior o orçamento, maiores as chances do filme perder a sutileza, a consistência e a harmonia do elenco, e se tornar apenas um caça-níqueis.
Não obstante, Jackman está bem no filme (mas nem perto do seu desempenho no primeiro), seu co-astro, Liev Schreiber, exsuda muita personalidade - como sempre, aliás - e o filme explora bem a paisagem canadense (ou neozelandesa?). Na tarde do dia 21, fui ao Itaú Cultural, na Avenida Paulista, para assistir à apresentação de Braulio Tavares, Max Mallmann e Ricardo Azevedo, na mesa-redonda "Qual o Lugar Ocupado pelo Fastástico e pelas Ficções Científica e Infanto-Juvenil em nossa Literatura?", parte do evento Encontros de Interrogação, uma série de debates que aconteceram de 21 a 23 de maio, com curadoria do crítico e jornalista Manuel da Costa Pinto, e do escritor e crítico Flávio Carneiro.
Depois do almoço, fui ao Itaú Cultural p/ a gravação do programa Entrelinhas. Fui primeiro falar com a Babi Borguese e com o Claudiney Ferreira. Fazia tempo que não os via, especialmente a Babi.
Então desci e encontrei Braulio Tavares tomando um café no lobby. Ele disse que sou "a rima dele" - onde ele aparece, eu venho logo a seguir... Então Manuel da Costa Pinto chegou e nos entrevistou para o programa Entrelinhas, da TV Cultura, dirigido por ele. É um dos poucos programas regulares sobre literatura na TV brasileira.
Depois subimos para a mesa-redonda. Flávio Carneiro - cujo romance A Confissão resenhamos aqui em 15 de dezembro de 2007, fez a mediação. Ele está com um livro novo na praça, uma reunião de crônicas sobre futebol e literatura, primeiro vistas como uma coluna no jornal literário Rascunho, de Curitiba. O livro se chama Passe de Letra, e saiu há pouco pela Rocco.
Flávio abriu observando que o Romantismo e o Naturalismo do século 19 no Brasil foi uma literatura missionária, baseada no impulso de fundar uma literatura nacional, tendência que historicamente deixou de lado a ficção científica e a ficção infanto-juvenil.
Braulio Tavares pegou a bola, afirmando que a história e a cultura do Brasil formam um manancial enorme para a literatura fantástica, mas isso não se reflete nas estantes. O Em literatura o que foi feito a partir do século 19 reflete a preocupação de conhecer e reconhecer o Brasil a partir do realismo. A grande pergunta da literatura brasileira seria "que país e este?" Nossa realidade, porém, é plural por natureza, sem um centro e repleto de estranheza em seu cotidiano. "Uma sociedade de cacos", disse, heterogênia e plural, mas que parece ter pouco espaço ao científico e tecnológico, longe daquele "zumbido de descobertas" que faz tanto do ambiente da FC anglo-americana, e para a qual a FC se confunde, freqüentemente, com o americanismo ou estrangeirismo. A própria FC brasileira reforçaria esse preconceito, pela maneira como se aproxima do modelo anglo-americano. É preciso repensar esse processo. Se o realismo quer descobrir o perfil histórico, social e psicológico do brasileiro, a FCB precisa absorver a revolução tecnológica e social dos últimos trinta anos, na visão desse autor.
Max Mallmann evocou a "Carta de Caminha", texto que, diz ele, poderíamos chamar de "jornalístico" e que tenta dar conta de uma realidade fantástica - o mundo maravilhoso da floresta e dos índios. Isso teria determinado uma senda literária que persiste. Mallmann, cujo romance Síndrome de Quimera (2000) tem algo de kafkiano, afirmou que "a realidade exige um pouco de Kafka", e citou José Saramago, que recomendou: "Não te ocupes da vidinha." Com respeito às difrerenças entre a FC anglo-americana e o nosso contexto, ele observou que a "a FC anglo-americana traz os seus porquês, e nós não". Nossa realidade seria imprevisível demais para ser realista.
Ricardo Azevedo buscou as definições de "ficção" no dicionário, e começou questionando o que é a própria realidade, afirmando que ela é uma construção sócio-cultural. Citando Oliver Sacks, que afirmou que o ser humano é uma criatura buscando sobreviver em condições adversas, argumentou que a ficção fornece meios de lidarmos com o indizível, "tapando buracos de nossa existência", e leu uma mini-narrativa de Ítalo Calvino, retirada de Seis Propostas para o Próximo Milênio, para ilustrar.
Na segunda rodada, Max contou uma anedota de como o diretor do presídio em que está o traficante Fernandinho Beira-Mar teria oferecido a ele O Senhor dos Anéis emprestado, mas Beira-Mar recusou, dizendo que "nada daquilo era verdade". Isso me lembrou que J.R.R. Tolkien, o autor dessa obra, via um aspecto positivo no "escapismo": "Por que deveria um homem ser ridicularizado, se, encontrando-se em uma prisão, tenta sair e ir para casa." Ou seja, Beira-Mar perdeu uma boa chance de escapar da prisão...
O escritor e tradutor Fábio Fernandes, e o editor e agitador cultural Silvio Alexandre estavam na platéia, e Silvio fez uma pergunta q falava do "boitatá com olhos de césio", expressão tirada do "Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira", e que, na mesa, apenas o Braulio era capaz de reconhecer. Como sempre, Braulio falou muito bem e exuberantemente; como sempre, Max falou timidamente, mas bem. O debate foi muito interessante.
Enfim, o restante da noite para mim foi ocupada com mais entrevistas para o Entrelinha, agora com os três escritores e Manuel da Costa Pinto formando uma "barreira de futebol", na expressão do Braulio, no salão de exposições.
Quando cheguei em casa, encontrei dois pacotes: um de Goulart Gomes - seu romance, Deixando de Existir -, e o outro da Não Editora, de Porto Alegre: meus três exemplares de Ficção de Polpa Volume 3, exemplares de colaborador.
Sobre Deixando de Existir, Gomes me escreveu: "Esse é meu décimo primeiro livro, mas o primeiro romance, e logo de FC, pela qual estou 'apaixonado'. Já estou escrevendo o segundo." Saiu pela Livro.com, de Lauro de Freitas, Bahia.