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Terça, 26 de maio de 2009, 07h52

Estado de paralisia

AP
Krugman: Apesar das políticas irresponsáveis que dobraram as dívidas do estado desde que Arnold Schwarzenegger elegeu-se governador, a Califórnia ...
Krugman: "Apesar das políticas irresponsáveis que dobraram as dívidas do estado desde que Arnold Schwarzenegger elegeu-se governador, a Califórnia possui recursos humanos e financeiros fartos"

Paul Krugman
Dos Estados Unidos

A Califórnia, há muito se fala, é onde o futuro acontece primeiro. Mas será que isso ainda é verdade? Se for, que Deus proteja os Estados Unidos.

A recessão atingiu com muita força o Estado do Ouro. A bolha imobiliária foi maior lá do que praticamente em qualquer outro lugar, e a explosão da bolha teve maior repercussão também. O nível de desemprego na Califórnia, de 11 por cento, é o quinto maior do país. E a receita do estado sofreu na mesma proporção.

O que é realmente alarmante, no entanto, é a inabilidade do sistema político daquele estado para se recuperar.

Apesar do choque econômico, apesar das políticas irresponsáveis que dobraram as dívidas do estado desde que Arnold Schwarzenegger elegeu-se governador, a Califórnia possui recursos humanos e financeiros fartos. A crise fiscal não deveria estar acontecendo, nem deveria o estado estar a ponto de cortar serviços públicos ou negar assistência de saúde a quase um milhão de crianças. Mas é essa a realidade - daí, precisamos nos perguntar se a paralisia política da Califórnia não seria um presságio do futuro de toda a nação.

As sementes da crise atual na Califórnia foram plantadas há mais de 30 anos, quando os votantes aprovaram de forma maciça a Proposição 13, um projeto-lei que colocou o orçamento do estado numa camisa de força. As taxas de impostos sobre propriedade foram congeladas e os proprietários de imóveis foram protegidos de qualquer aumento fiscal, mesmo frente à valorização dos imóveis.

O resultado foi um sistema de impostos injusto e instável. É injusto porque os proprietários de imóveis mais antigos normalmente pagam muito menos impostos que seus vizinhos mais jovens. É instável porque as limitações de coleta de impostos forçaram a Califórnia a depender mais de que outros estados no imposto de renda, que cai vertiginosamente durante a recessão.

Mais importante ainda é fato de a Proposição 13 ter tornado ainda mais difícil para o estado aumentar os impostos, mesmo em emergências: Nenhum imposto estadual pode ser aumentado sem dois terços dos votos nas duas casas do Legislativo. E esta determinação interagiu de forma desastrosa com as tendências políticas.

Já que a Califórnia, onde os Republicanos começaram seu processo de transformação de ser o partido de Eisenhower para se tornar o partido de Reagan, é também onde eles começaram a transformação seguinte para se tornarem o partido de Rush Limbaugh. Como a maré política virou contra os Republicanos da Califórnia, os membros remanescentes do partido tornaram-se ainda mais radicais, cada vez menos interessados em governar de verdade.

Mesmo que o extremismo crescente do partido o condene a um status de minoria permanente - Schwarzenegger é sui generis - os Republicanos ainda possuem presença suficiente no Legislativo para vetar qualquer ação responsável em face da crise fiscal.

Será que a mesma coisa acontecerá com o resto do país?

Na semana passada, Bill Gross, da Pimco, a maior gestora de títulos no mundo, avisou que o governo dos Estados Unidos pode perder sua classificação AAA de títulos em alguns anos, graças aos trilhões que estão sendo gastos para resgatar a economia e os bancos. Será que essa é uma possibilidade real?

Bem, num mundo racional, os avisos de Gross não fariam sentido. Os Estados Unidos projetaram déficits que parecem grandes, e ainda assim seria preciso apenas um aumento modesto nos impostos para cobrir o aumento esperado nos pagamentos de juros - sendo que no momento atual, os impostos norte-americanos estão bem abaixo daqueles praticados em outros países ricos. As consequências fiscais da crise atual, em outras palavras, devem ser gerenciáveis.

Mas isso pressupõe que sejamos capazes de agir de forma politicamente responsável. O exemplo da Califórnia mostra que isso não é, de forma alguma, garantido. E os problemas políticos que assolaram por tantos anos a Califórnia agora estão cada vez mais aparentes do resto do país.

Para ser franco: Os eventos recentes sugerem que o Partido Republicano está enlouquecendo com a falta de poder. Os poucos moderados que sobravam foram derrotados, partiram ou foram expulsos. O que nos resta é um partido cujo comitê nacional acaba de passar uma resolução declarando solenemente que os Democratas estão "dedicados a reestruturar os Estados Unidos com ideias socialistas", e lançou um vídeo comparando a Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, a Pussy Galore*.

E o partido ainda tem 40 senadores.

Então como os Estados Unidos cairiam na mesma dificuldade de governança da Califórnia? Bem, a Califórnia possui algumas fraquezas que o governo federal não tem. Em especial, o aumento dos impostos federais não requer dois terços de maioria de votos e podem, em alguns casos, contornar o filibusterismo. Portanto, as políticas responsáveis são mais viáveis em Washington do que em Sacramento.

Mas o precedente da Califórnia ainda me preocupa. Quem diria que o maior estado dos Estados Unidos, cuja economia é maior do que a de muitos países, poderia tão facilmente tornar-se uma república das bananas?

*Nota do Tradutor: Pussy Galore é vilã do livro Goldfinger, sétima aventura do agente James Bond, escrito por Ian Fleming.


Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 

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