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Quarta, 27 de maio de 2009, 08h19

As palavras do diabo

Ricardo Maldonado/EFE
Uribe insiste que terceiro mandato não seria conveniente, mas recusa parece ser apenas uma farsa, anota Ramírez
Uribe insiste que terceiro mandato "não seria conveniente", mas "recusa parece ser apenas uma farsa", anota Ramírez

Sergio Ramírez
De Masatepe, Nicarágua

Lula, o dirigente metalúrgico que chegou à presidência do Brasil apoiado por uma heterogênea coligação de partidos de esquerda, sindicatos e movimentos populares, encaminha-se para o final do segundo mandato, tal como o permite a constituição e, por enquanto, tem afirmado que não cogita um terceiro. Ele tem chamado de "pura insensatez" a proposta de concorrer novamente nas eleições, embora algumas pessoas chegadas a ele insistam em convocar um plebiscito para setembro, o que abriria as portas do continuísmo. Levando em consideração que o presidente conta com 80% de popularidade, a decisão depende apenas da sua vontade, pois certamente venceria o plebiscito.

Teremos que contar com que ele não vá sucumbir ao canto das sereias, pois as sereias que circulam pelos palácios presidenciais multiplicam os elogios perto das reeleições, e que ele não se afastará da "pura sensatez". Uma vez, quando perguntaram a sua opinião a respeito da reeleição indefinida proposta por Hugo Chávez, Lula respondeu: "Eu só posso falar pelo Brasil e penso que o Brasil não pode brincar com algo chamado democracia... Muitas pessoas sofreram para conquistá-la". São opiniões de um estadista que se formou à força de empenho, que não saiu de nenhuma universidade.

Com essa declaração, Lula estava lembrando que o Brasil tinha sofrido uma ditadura militar de vinte anos, entre 1964 e 1985 e, antes, a ditadura de um líder populista, Getúlio Vargas. Não são referências sem sentido para um continente que sofreu com tiranias no passado como se fosse uma maldição da história; e muitas dessas ditaduras começaram com governantes populares, eleitos pela boa-fé dos eleitores que se sentiram favorecidos e amparados sob o seu governo.

A linha que divide esquerda e direita se enfraquece nesse ponto, na vontade de permanecer no poder, nisso que sempre chamamos de continuísmo. O presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, que tem 70% de apoio popular, insiste em dizer que a reeleição para um terceiro mandato "não seria conveniente". No entanto, o Congresso controlado por ele abriu as portas para a convocação de um referendum popular no qual a população certamente decidirá que ele continue no poder. A sua recusa parece ser apenas uma farsa: recusa a coroa, mas de qualquer forma vai terminar por colocá-la na cabeça.

Tanto de um lado quanto do outro, as palavras do diabo fervem nos caldeirões da esquerda e da direita. O presidente Hugo Chávez perdeu o referendum através do qual procurava permanecer indefinidamente no poder, ninguém pode acusar de ilegítimos os processo da Colômbia e da Venezuela, porque os requisitos legais foram cumpridos e o povo foi chamado a decidir. Mas nem sempre a legitimidade é o mais sensato, ou como diz José Saramago, "a primeira precaução consistirá em não confundir nunca a lei com a justiça". Ou com a sensatez. Porque essa ideia do governante permanecer no poder porque se julga imprescindível, é uma história que geralmente termina em tragédia, e para comprová-lo basta revisar a nossa história.

Muitos querem ficar e todos alegam bons motivos, o primeiro deles é que a obra não está concluída, o projeto político pessoal requer mais anos do que um único período presidencial dispõe. Há o perigo de que o sucessor retroceda no que foi conquistado. Velhas razões, velhos pretextos. É uma espécie de febre messiânica que parece estar de volta, como um pêndulo que não para de ir e vir na história: Evo Morales, presidente da Bolívia, Rafael Correa, presidente do Equador, e até Manuel Zelayeta, o empresário produtor de Honduras, que também quer permanecer no poder fortalecido pelo exemplo de Hugo Chávez, que parece ser o arquétipo da nova era de continuísmo que paira sobre as nossas cabeças.

E para isso também não é necessário ser popular, nem ganhar um referendo com ampla margem. No caso do presidente Daniel Ortega, 66,4% dos nicaraguenses rejeitaram a sua reeleição, e apenas 17% aprovaram a sua gestão no governo, segundo a última pesquisa. Temos evidências da fraude eleitoral nas eleições municipais do ano passado, uma espécie de prévia que mostra a sua vontade de se reeleger a qualquer preço, sem importar o que a maioria pensa.

Será esta a nova regra política latino-americana? A de um líder único e perpétuo, devidamente eleito ou, se necessário, eleito através de fraude? Às vezes ouço dizerem que a reeleição sem fim é algo comum na democracia europeia, e que os primeiros-ministros e presidentes de governo permanecem no poder enquanto os eleitores continuarem votando neles, e que isso não enfraquece a democracia. Por que, então, essa regra não valeria para nós?

O que deliberadamente é deixado de lado, quando usam esse argumento, é que se trata de regimes parlamentaristas, onde os pesos e contrapesos institucionais estão devidamente estabelecidos, os tribunais de justiça funcionam independentemente da vontade arbitrária do poder político e existem controles estritos para impedir os atos de corrupção, que na América Latina se espalha como praga. Ninguém pensa em usar artifícios para reprimir os partidos políticos, calar a sociedade civil, esconder casos de nepotismo ou comprar a vontade dos parlamentares para poder fazer reformas constitucionais.

Também esquecem que se as nossas constituições tanto se empenham em proibir a reeleição, motivo pelo qual correm a reformá-las e tirar-lhes as travas postas contra o continuísmo, é porque as experiências da nossa história assim o estabelecem, e nos ensinam que as reeleições sempre desembocaram em tiranias.

Portanto, temos que tentar apagar o fogo onde fervem as palavras do inferno, em todos os caldeirões.


Sergio Ramírez é autor de mais de 30 livros entre novelas, contos, ensaios e memórias. Sua obra foi traduzida para 17 idiomas e tem ganhado prêmios como o Alfaguara, o Dashie Hammett e o Prêmio Laure Bataillon 1998 de melhor livro estrangeiro traduzido na França. Foi vice-presidente da Nicarágua.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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