
Amilcar Bettega
De Paris
Lá de vez em quando neste espaço (geralmente quando me falta assunto, ou melhor, quando falta aquela coisa que a gente não sabe bem o que é mas que é o ponto de partida para uma ficção - visto que são ficções quase todos os textos que apresento neste espaço) eu me ponho a refletir (na verdade pensando alto, como quem "viaja" na cozinha ainda não muito bem desperto enquanto prepara de maneira automática o café da manhã) algumas coisas sobre esse oficiozinho de escrever.
Quando falo escrever, estou falando de escrever ficção. E porque falo de ficção não há como deixar de falar da memória, o alimento principal de toda e qualquer ficção bem inventada.
Toda ficção é autobiográfica, isso me parece uma evidência. Mesmo quando quase tudo em uma história - ou tudo mesmo - é fruto da mais pura imaginação, a base está na vivência do autor. O que ele inventa é o resultado do que ele faz pelo mundo, por onde anda, o que vê, ouve, enfim, da maneira como ele se relaciona com as coisas que acontecem à sua volta e com ele próprio.
Assim, aquilo que se inventa não deixa nunca de ser uma recordação. E por outro lado, quando se recorda uma coisa a gente está sempre inventando outra coisa nova. Não lembramos exata e precisamente o passado. O passado é passado, acabado, morto e enterrado, apenas a memória é viva, só ela é capaz de atualizar o passado, de inventá-lo, moldá-lo para que o nosso futuro seja possível, para que o agora exista de fato.
A maior força da literatura talvez resida nisto: ela aceita naturalmente a inexistência de uma verdade factual, e mesmo faz disso a sua essência, a sua única "verdade".
Lembro - e isso pode ser, evidentemente, uma invenção - da leitura de um pequeno ensaio de Juan Rulfo onde ele reflete sobre a criação literária e se mostra, para minha surpresa, obcecado pela ideia de se excluir dos seus escritos, isto é, ele fazia um esforço descomunal para eliminar dos seus textos tudo o que fosse relacionado com sua experiência pessoal, tudo que contivesse algum traço autobiográfico.
Dessa leitura, imediatamente dois pensamentos me assaltaram: 1) apesar do que diz seu autor, é quase impossível desvincular a obra de Rulfo de um memória atávica, mítica, de transmissão oral em que ele parece ser o "último sobrevivente de uma grande catástrofe de recordações", como tão bem escreveu Roa Bastos; e 2) sintomaticamente, com essa busca incessante em retirar tudo o que não seja, no seu entender, imaginação pura, Juan Rulfo é, dentre os escritores reconhecidamente maiores, aquele cuja obra é a mais breve de todas. Umas duzentas páginas. Escrevendo mais talvez fosse difícil para ele continuar acreditando na "imaginação pura". Duzentas páginas, a pau e corda. Mas que páginas!
Terra Magazine
|
Reprodução
Juan Rulfo: esforço para expurgar a memória da ficção
|