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Quinta, 28 de maio de 2009, 08h10

Marquinho derramou feijão

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

É uma turminha que mora e estuda no Engenho Velho da Federação, um importante bairro popular de Salvador, com muita presença negra, e um movimento contínuo de gente.

Dentre eles conheci Amanda, uma menina super esperta e voluntariosa, e que mesmo falando pouco, entendia tudo que os adultos estavam pensando ou 'jogando'. Não adiantava vir com conversa disfarçada porque ela sabia exatamente onde o barco ia parar.

Nessa época estava na creche, e chorava demais da conta - só acordava chorando e procurando a mãe, achando que tinha sumido. Pra distrair o choro comecei a perguntar pela creche, quem eram os colegas, o que brincavam...

Ela acabou me dizendo que havia um Cristiano, e que batia nela sempre. O que fazer? Amanda não gostava de conversa comprida ou conselho, qualquer coisa dessas seria redondamente inútil.

Decidi fazer uma música pra ela cantar na sala, junto com as amiguinhas - que provavelmente tinham o mesmo problema com o tal do Cristiano. Fomos ao piano, e pouco a pouco chegamos a um resultado que pareceu aceitável para ambos. Todo dia agora, cantávamos a tal canção (a creche levou uns tempos fechada para reforma):

Cristiano não me bata, bata, bata
Vou te dar um trambulhão
Vou dizer pra todo mundo
Que você é um mijão, miijão, miiijão...

Não era nada assim 'politicamente correto', mas foi um sucesso imediato - menos choro e mais risada. Sempre imagino a cena: as meninas juntas na creche botando Cristiano pra correr, e certamente ensinando um pouco de modos a esse rapaz atrevido.

É claro que tudo pode ter sido muito diferente. Amanda, voluntariosa como ela só, pode ter tentado engabelar Cristiano, que apenas se defendia. Coitado de Cristiano! Nunca saberemos ao certo. Por falta de opção, fiquei com a primeira leitura - a que funcionou para diminuir o choro.

Agora Amanda já saiu da creche. Está mais madura, e chora bem menos. Passa o dia numa escolinha particular, sob os cuidados da Tia Aninha. Cristiano continua fazendo sucesso aqui em casa quando Amanda aparece, mas a música já não tem utilidade alguma, a não ser lembrar os 'velhos tempos'. Os colegas mudaram.

E aí começa outra história. Quem são os colegas de agora? Bom, tem Andressa, Michele, Cauã, Kailane, Uesley, Jaqueline e 2 Marquinhos (um grande, outro pequeno). O caso é que o Marquinhos pequeno sempre deixa a comida cair no chão, e esse foi o gancho para a nova canção:

Vamos chamar Andressa
Vamos chamar Cauã
Lá na escorregadeira
Marquinho derramou feijão
Tia Aninha não gostou não - Ai, ai, ai...

Ainda não consegui saber se Amanda já cantou isso aí na escola - mas fico contente porque ela já sabe de cor, e basta eu tocar duas notas que ela continua de onde estiver...

-> Pra não dizer que não falei de cultura:

- todos esses nomes apontam para uma grande mistura de processos do imaginário - imagine uma conversa entre Cauã e Uesley. Qual foi a inspiração dos pais de Andressa, ou de Kailane?

- vale lembrar Canclini. O modelo de identidades culturais nacionais está sim ultrapassado, mas o processo de construção de identificações continua vivo e operante. E nesse processo há diálogos os mais diversos acontecendo...

- no fino tecido dessa escolinha estão sendo moldados os personagens da nossa sociedade de amanhã - e percebo com certa preocupação a grande ligação de Amanda com Bob Esponja, Xuxa e Barbie, e pouca atenção para o Sítio do Picapau Amarelo...

- de onde vem (ou virão) os modelos de identificação para a novíssima classe média brasileira, cuja definição mínima é a posse de um celular? E quais as conseqüências políticas, culturais e ambientais desse trançado?

- segue a cultura séria como irrelevante para esse contexto? Não é tão séria assim quanto parece? Devemos financiar o Bumba-Meu-Boi?


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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