
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
De vez em quando, mas não muitas vezes, anoto dados, dados miúdos, mas relevantes, bons indícios, pelo menos segundo o chamado paradigma indiciário, que o historiador Carlo Ginsburg tornou conhecido - mas não de todos, infelizmente! Guardo-os para explorar em futuros textos, especialmente em colunas como esta. Mas sou muito desorganizado. Não carrego comigo caderninho de notas, muito menos gravador, para não perder idéias. Meu ídolo é Einstein, que só teve uma.
Mas, às vezes, como disse, anoto frases, construções. São dados curiosos, bons exemplos de fatos que se teima em não reconhecer ou em desprezar. Ocorrem quase sempre quando menos espero, em entrevistas ou mesas redondas, ou quando leio deitado, longe de papel e caneta. Às vezes não anoto nada, penso que não vou esquecer aquilo de jeito nenhum (mas sempre esqueço). Outras, procuro um papel qualquer, um pedaço de jornal ou de envelope, quase nunca uma caneta está à mão, acabo achando algum toco de lápis. Anoto. Jogo esses pedaços de papel, também desordenadamente, em frente ao computador. Periodicamente, passo os papeluchos em revista. Jogo quase tudo no lixo. Mas, há notas que merecem comentário.
Acabou de acontecer. Jogando lixo na lixeira, reservei poucas anotações, das quais comento uma, que considero preciosa, coisa rara. Ouvi a frase no interessante programa Cidades e Soluções, em matéria que tratava das medidas para poupar água em um condomínio que não sei mais onde fica - cheguei à matéria quando estava terminando. Um senhor de uns 70 anos, bem vestido e muito saudável, bem falante, e também correto, se me entendem, disse, lá pelas tantas, a propósito das tais medidas: "Isso é para que não se haja desperdício".
"Se haja". Pois é. Muitos diriam apenas que é um erro, quem sabe um caso de hipercorreção (berrariam para quem quisesse ouvir - ou pagar! - que "haver" é um verbo impessoal!). Mas sem explicar.
Pois o caso se encaixa numa deriva visível da língua, a nossa. A tendência geral foi detectada há alguns anos por Tarallo e Kato, então professores na Unicamp (ele já faleceu, Mary Kato às vezes ainda aparece, e continua ligada).
Trata-se do fato de que, no português do Brasil, há uma tendência a preencher o lado esquerdo da frase. Isso se faz de diversas maneiras: uma é enunciar um tópico e retomá-lo por meio de um pronome (como em A economia brasileira, ela está mais...); outra é preencher a posição de sujeito em construções que já foram impessoais. Uma das maneiras de fazer isso é o enorme incremento de uso do sujeito impessoal "se" (Um bom lugar para se morar, Para se ler uma tese).
Pois o caso que anotei está nessa tendência. Ela é hoje tão forte que mesmo um falante mais idoso (e claramente culto) acaba dizendo "para que não se haja desperdício", ou seja, inserindo o tal sujeito impessoal em uma construção que inclui um dos dois ou três ícones das construções impessoais em português, o verbo "haver".
Outro bom exemplo de construção com o lado esquerdo da frase "pesado" eu vi hoje (24/05) num jornal. Em reportagem sobre as aulas do governador Serra (ele faz isso uma vez por mês, parece; não sei se fazia quando era professor contratado). Numa dessas aulas do Serra, segundo a narrativa de Mônica Bergamo, colhi o seguinte dado "crucial": "Vocês ouviram falar numa lei que diz que não pode fumar em lugar público? Quem aqui o pai fuma?" (24/05/2009, p. E2).
"Quem aqui o pai fuma" é um dado que faria as delícias da professora Eunice Pontes, que escreveu uma série de ensaios sobre a estrutura do português nos quais demonstra convincentemente que nossa língua tem numerosas construções que não são do tipo Sujeito - Predicado, mas sim do tipo Tópico - Comentário (como o chinês)! É um livro delicioso, além de instrutivo e provocador (O tópico no português do Brasil. Campinas: Editora Pontes).
Os sujeitos antes vazios e agora preenchidos (como se ler e se haja acompanham as estruturas em tópico-comentário na tendência ao preenchimento do lado esquerdo da frase. Um dos problemas da escola é que ela não considera isso um fato (mas um erro), não reconhece que é característico da gramática dos alunos (e não só, como se pode ver), pelo qual eles evidentemente não poderiam ser responsabilizados, já que se trata de um fato da língua!
Alguns leitores ficaram chateados porque defendi que a escola deve debater temas controversos em vez de fugir deles. Quero dizer que, ao defender essa tese, expresso minha confiança nessa instituição tão mal falada. Acho que ela é o lugar certo, já que muitas famílias não o fazem, para encarar os fatos da vida! Não acho que se deva ensinar a fazer sexo na escola, incluir um pequeno Kama Sutra no currículo. Claro que não. Mas me pergunto, retomando a preocupação de um pai que me escreveu, se é melhor para um filho ou uma filha tomar conhecimento de certos fatos lendo histórias num livro que será debatido ou numa festinha mais ou menos precoce.
E, por favor, leiam Freud!!
Terra Magazine
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José Cruz/Agência Brasil
Serra com o seu "Quem aqui o pai fuma?" faria as delícias de professora, diz Sírio
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