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Quinta, 28 de maio de 2009, 08h11

O Castelo Branco, de Orhan Pamuk

Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro


O nobel Orhan Pamuk

Reconhecido internacionalmente como o escritor do conflito entre Oriente e Ocidente, a partir de uma idéia de um conto de Gustave Flaubert nunca escrito sobre a troca de identidades entre um árabe e um italiano Pamuk escreveu o belíssimo romance O Castelo Branco onde encena uma cirúrgica fábula do possível diálogo entre esses dois mundos que de longe parecem tão díspares. Romance histórico ambientado na Istambul do século XVII, repletos de jogos textuais e reviravoltas narrativas, Pamuk se mostra como um legítimo herdeiro do melhor da literatura de natureza paródica praticada no seu cimo de excelência durante as décadas de 1950-60 por Jorge Luis Borges, Vladimir Nabokov, Ítalo Calvino, Osman Lins, Danilo Kis, José Cardoso Pires e Georges Perec - um conjunto de narrativas inquiridoras repletas de vibrantes idéias e que recriam em sua forma ágil e cambiante toda convulsão conceitual que se agita em suas entrelinhas e bastidores. O grande romance experimental que legou ao mundo Fogo Pálido (Nabokov), Ficções (Borges), Se um viajante numa noite de inverno (Calvino), Balada da Praia dos Cães (Cardoso Pires), Vida, Modo de usar (Perec), Avalovara (Lins) e a obra-prima esquecida Uma Tumba para Boris Davidovich (Kis).

Narrado em primeira pessoa por um jovem veneziano, com prática em medicina, capturado por uma frota de piratas turcos, o romance é a história da relação entre esse homem iluminista cativo e o excêntrico intelectual Hoja, que logo no início do romance é elevado ao cargo de astrônomo imperial do sultão pelas soluções arrojadas que encontrou no combate contra um surto de peste bubônica (usando os conhecimentos do cativo ocidental). A identificação é tamanha entre eles, e são fisicamente tão semelhantes (e abundam os momentos em que um se confunde no outro, como diante de seus reflexos no espelho), que conforme um vai adquirindo as características do outro o romance encena a possível mudança de posições entre o ocidente e o oriente, a aventura da transmissão cultural e, principalmente, de diálogo entre essas duas formas de ver o mundo que se revelam não tão estanques (ou excludentes). Ao contrário: encontrando traços de um no outro, mostram como na cultura nada é pura e tudo é híbrido contínuo de trocas e descobertas em conjunto.

Apesar de ser escrito com um claro esforço histórico e travar com pormenores momentos que realmente aconteceram na história ancestral de Istambul - como o surto de peste, as guerras entre os turcos e nações européias, os hábitos artísticos e científicos do momento -, o romance caminha abertamente pelo território macio do sonho: o próprio Castelo Branco que Hoja quer conquistar inventando uma arma suprema de guerra parece, em sua evidente irrealização, em sua distância quase impossível de ser atravessada (homenagem clara a Franz Kafka) uma metáfora da impossibilidade de satisfazer os desejos do homem plenamente. Melhor: da natureza delirante do homem, do seu constante enamoramento pelo impossível. O tempo da narrativa, as luxuriantes descrições da arquitetura otomana, o ritmo espectral do avançar do luminoso Bósforo, os anos que se passam sem parecer envelhecer as personagens, esses são elementos mais próximos à gravidade lunar do sonho que da prosa fria, seca e objetiva sugerida (demandada) pelo pó dos documentos. Curiosamente a maneira como Pamuk trabalha o documento se aproxima muito de O Nome da Rosa, de Umberto Eco - usando-o para reconstruir mais a subjetividade que os componentes do ambiente.

Apesar da densa carga de idéias na narrativa, de sua ambição pouco velada em discutir um tema pertinente contemporâneo - o conflito Ocidente-Oriente - em cifra de reconstituição histórica, Pamuk tem uma evidente vantagem sobre alguns dos autores que utilizam elementos de paródia e jogos textuais citados acima: ele é um exímio, extraordinário, e claramente talentoso contador de estórias. Essa é sua maior potência, a de envolver o leitor num enredo cromático e contagiante sem abdicar de experimentar formalmente. Nesse sentido, Orhan Pamuk se assemelha bastante a outro Nobel de literatura: Gabriel García Márquez. Ambos são exímios artífices e experimentam constantemente com as formas convencionais da narrativa; mas o fazem sem nunca abandonar o contato com uma prosa rica e encantatória. O pensamento de Pamuk, como em García Márquez, está na própria narrativa das peripécias das personagens: o pensamento é a própria descrição dos fatos. A ação das personagens já é pensamento em movimento, e o livro não possui qualquer dos solilóquios ou trechos ensaísticos que tanto retardam as narrativas de autores como Calvino ou Perec. À pergunta que atravessa o romance - por quê somos o que somos? -, Pamuk jamais sistematiza uma resposta. Esse método 'narrativo' de encarar o fenômeno sócio-político e existencial está também presente no romance Livro Negro, considerado sua obra-prima, e na impressionante fábula Meu nome é vermelho, romance histórico que toca todos os temas caros à narrativa de O Castelo Branco expandindo-os em escopo, e elevando-os a cimos muito mais ambiciosos. Orhan Pamuk é um dos nomes mais incontornáveis da literatura contemporânea.


Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

Fale com Vinicius Jatobá: vinicius_jatoba@terra.com.br

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