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Sexta, 29 de maio de 2009, 08h09

Patchwork francês

Divulgação
Nathalie Joly é Maria Tanase em Paris/Bukarest
Nathalie Joly é Maria Tanase em Paris/Bukarest

Deolinda Vilhena
De Salvador (BA)

Enquanto Patrice Chéreau, Dominique Blanc, Isabelle Huppert, Ariel Garcia-Valdès e Bob Wilson não chegam, vamos descobrindo pouco a pouco o que nos reserva o Ano da França na área teatral. Aqui e ali surgem alguns projetos de residência - como os franceses gostam dessa coisa chamada "residência" - que por vezes resultam em espetáculos interessantes. Confesso que para pinçar três projetos dignos de nota na programação oficial desse primeiro "movimento" do Ano da França precisei de muita paciência, atenção e uma lupa.

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No fundo, no fundo todos eles me chegaram por outras vias que não o site com a programação oficial: a vinda de Nathalie Joly com seu recital Paris/Bukarest, a residência da Companhia Kastôr Agile que resultou num espetáculo baseado na Tempestade de Shakespeare e um projeto, esse sim, esplendoroso, e infelizmente não divulgado, de oficina de lutheria realizado em Salvador.

Essa oficina terá continuidade no segundo semestre, quando os coleguinhas da presse e a assessoria de comunicação do Ano da França poderão se redimir e divulgar um trabalho de artesanato maravilhoso, em muitos lugares em completa extinção, donde sua importância ímpar.

NATHALIE JOLY PELA SEGUNDA VEZ NO BRASIL


Nathalie Joly e Thierry Roques em Paris/Bukarest
Foto: Divulgação

Recebo um e-mail de Nathalie Joly dizendo da sua felicidade em voltar ao Brasil: "estou muito contente por voltar ao Brasil. Cantar no Brasil é muito excitante porque a música está em todos os lugares mas é também muito impressionante porque os artistas ai são excelentes! Foi o que mais me impressionou quando ai estive com o Cafés Cantantes, num pequeno bar tem sempre cantores, cantoras, e com um conhecimento de repertório vastíssimo. E o que é muito forte também é o público, a escuta e a acolhida do público. As pessoas são otimistas. Na França poderíamos dizer que, as vezes, as pessoas vem ao espetáculo com um à priori, e que necessitamos convencê-las, que finalmente eles podem apreciar e se deixar surprender pelo que viram. Os brasileiros tem essa capacidade, um lado infantil, eles jogam o jogo, eles são talvez mais felizes, não sei, mas é essa lembrança que ficou em mim..."

Nathalie Joly entrou em minha vida via Théâtre du Soleil, casada que é com Maurice Durozier um dos atores mais antigos da companhia. E foi no Théâtre du Soleil que vi "Cafés Cantantes" espetáculo com a cara dos brasileiros, a tal ponto que me empenhei muito para trazê-lo ao Brasil. Na época, envolvida com meu Doutorado fiz o que pude e acabou dando certo, pois Janjão e o SESC viabilizaram a vinda do espetáculo, abrindo as portas para "Paris/Bukarest" que chega ao Brasil, depois de ter sido apresentado no Marrocos, na Romênia, em Portugal, na Espanha e no Afeganistão. Em junho o espetáculo será visto em Bruxelas, e na Armênia onde será uma das atrações da Festa da Música em Erevan.

Nathalie chega em companhia de Thierry Roques cujo acordeão acompanhou os maiores nomes da música francesa como Serge Reggiani, Cabrel, Renaud, Régine, Mireille Mathieu e Enrico Macias. Thierry Roques é facilmente encontrado nas grandes salas parisienses: Bataclan , Olympia e Bobino.

"Paris/Bukarest", cuja estreia assisti em Paris no Les passages vers l'étoiles, sala minúscula e charmosa do 11ème arrondissement, mistura músicas do repertório da cantora Maria Tanase, "a Edith Piaf romena", cantava em romeno ou em francês o repertório cigano e as baladas oriundas de lendas populares. As canções se alternam com sequências faladas e tratam de um grande amor, da dor da ausência e dos vinhos inebriantes. Denunciam a opressão dos poderosos e levam para a cena histórias épicas ou destinos trágicos.

Para François Xavier Gomez do jornal Libération, "Nathalie Joly prossegue seu percurso exigente. Esta etapa romena, pela emoção e pelo charme que ela dispensa, merece encontrar um grande público". Que os paulistas corram para vê-la.

SERVIÇO NATHALIE JOLY CANTA MARIA TANASE
Local: SESC Pompéia - Rua Clélia, 93 - São Paulo
Tel. telefone: 11 3871-7700
Data: 30 e 31 de maio
Horário: sábado, às 21h e domingo, às 18h.
Ingressos: R$ 16,00 inteira, R$ 8,00 usuário matriculado no SESC e dependentes, + 60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante, R$ 4,00 trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes
OBS: Não recomendado para menores de 10 anos

UM SHAKESPEARE FRANCO-BAIANO


Elenco e diretor de Tempête à 13º sud
Foto: Divulgação

"Tempête à 13°sud", espetáculo inspirado no texto "A Tempestade", última peça do bardo inglês, estreou ontem em Salvador com a Companhia Kastor Agile, de Lyon, dirigida pelo francês Gilles Pastor.

A ideia de ambientar o espetáculo em Salvador - que se localiza geograficamente na latitude 13° sul - nasceu em 2007 quando o diretor Gilles Pastor, laureado com uma bolsa "Villa Médicis-Hors les murs" passou na cidade três meses, estudando o sincretismo e o transe através do Candomblé.

Essa experiência gerou toda uma influência além de justificar a produção de um espetáculo de imagens inspirado na realidade urbana de Salvador, suas formas de culto e sincretismos religiosos e culturais, em uma leitura pessoal. A montagem é composta por uma equipe de artistas, músicos e técnicos, brasileiros e franceses trabalhando em cooperação.

"Tempête à 13°sud" é o segundo espetáculo de uma trilogia baseada na "Tempestade", de Shakespeare. O primeiro, "Tempête à 54º nord" foi concebido após uma visita à casa do falecido diretor Derek Jarman, localizada em Kent, na Inglaterra. Jarman foi o diretor da versão de "A Tempestade" para o cinema. O espetáculo integrou a programação do Festival Les Intranquilles, em 2008, realizado num dos mais importantes centros de criação teatral da França, Les Subsistances, na cidade de Lyon.

O espetáculo é apresentado em francês, com legendas em português. O cenário é assinado por Pierre David, artista plástico francês cuja residência - olha ela ai de novo! - no Museu de Arte da Bahia resultou na exposição "Nuancier", em cartaz até domingo no belo prédio do Solar do Unhão. A equipe de "Tempête à 13º sud" conta com a presença de músicos que mesclarão música elisabetana, candomblé e choro e de um dançarino no palco. Depois das oito apresentações em Salvador, a peça será apresentada em Lyon, na França.

Serviço TEMPÊTE À 13°SUD
Baseada na peça A Tempestade de William Shakespeare
Direção: Gilles Pastor
Local: Teatro Martim Gonçalves Escola de Teatro da UFBA
Informações: tel. 3283-7851 e 3283-7862
Dias 28, 29, 30, 31 de maio e 4, 5, 6, 7 de junho às 20 h
Ingresso: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)

PHILIPPE BACHMAN E SEUS "LUTHIERS" SALTIMBANCOS


Encontro de aprendizes e especialistas
Foto: Philippe Bachman

Algum de vocês já conversou com um luthier? Já teve a oportunidade de saber o que faz um luthier? Pois eu, como sou uma pessoa de sorte, conheci três de uma só vez...

Foi quando da minha última viagem a Salvador, encontrei quatro profissionais franceses realizando oficinas de lutheria com os músicos do projeto Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojibá), um dos mais importantes trabalhos de inclusão social através da música desenvolvido pela Secretaria de Cultura da Bahia.

O luthier de cordas Christian Rault, a luthier de sopros Déborah Lemery - que com vinte e poucos anos desponta como uma das maiores na sua atividade - e o reparador de pianos Patrick Sinigaglia.

Eles chegaram aqui graças a um trabalho desenvolvido por uma associação francesa - Culture & Coopération - criada por Philippe Bachman, misto de músico, visionário e administrador, que nos últimos seis anos desenvolveu um método especial no acompanhamento de projetos estruturais no setor das práticas musicais coletivas e orquestrais. Assim ele já esteve nos mais diversos cantos do planeta. Em companhia de seus "luthiers saltimbancos" visitou o Oriente Médio (Palestina e Jordânia), o Magreb (Tunísia), os Bálcãs (Montenegro e Sérbia) e o Cáucaso (Armênia) e, last but not least, nosso Brasil. Juntos eles ensinam a arte de restaurar instrumentos, de constituição de oficinas, trabalham com formação inicial ou contínua para monitores das orquestras, que deverão repassar seus conhecimentos aos colegas dos projetos envolvidos.

No caso de Salvador, as oficinas foram realizadas nos camarotes da Concha Acústica do Teatro Castro Alves, palco dos mais diversos espetáculos. Mas, tenho certeza de que poucos espetáculos ali apresentados foram superiores em delicadeza e beleza ao trabalho desses artesãos. Impressionante ver com que humildade, eles dividiam e transmitiam o conhecimento adquirido ao longo de anos de trabalho e estudos, aos nossos jovens - e sedentos - aprendizes.

Realizadas entre 27 de abril e 1º de maio, as oficinas, apesar do pouco tempo, proporcionaram aos integrantes do Neojibá a oportunidade de reparar seus instrumentos e aprender de perto todo o processo de reforma, auxiliando e observando o trabalho dos artesãos. O melhor disso tudo é que Philippe Bachman e seus "luthiers saltimbancos" saíram de Salvador já pensando na volta, e ela deve acontecer ainda este ano. Que os anjos (e os orixás!) digam amém!

UMA PEQUENA GRANDE CENA NACIONAL


Cena Nacional La Comète
Foto: Jean-Christophe Sohier

Para os que não conhecem o sistema francês torna-se necessário explicar o que é uma Cena Nacional. Uma Cena nacional, chancela atribuída pelo Ministério da Cultura, é um espaço com vocação multidisciplinar que deve se afirmar como um local de produção ou co-produção artística, de referência nacional em uma área da cultura contemporânea, através de residências e artistas criativos. Cabe a uma Cena Nacional organizar e divulgar a confrontação das mais diversas formas de arte, teatro, dança, música, circo, artes visuais, cinema, fotografia, livro, incidindo sobre arte contemporânea, além de participar na sua área de implantação para promover o desenvolvimento cultural de novas atitudes face à criação artística e uma melhor integração destes, formando uma rede única à serviço da descentralização cultural do país.

Pois Philippe Bachman, além de exímio pianista, visionário que viaja o mundo com uma oficina de lutheria, ainda dirige um Cena Nacional, La Comète, desde 2004.

Bachman conta com três espaços disponíveis, uma sala de 616 lugares, outra de 150 e, luxo dos luxos, um circo construído em 1899 com capacidade para 1100 lugares e um orçamento anual de três milhões de euros, cerca de nove milhões de reais - ou a mesma importância captada usando os recursos da Lei Rouanet para a primeira temporada brasileira do Cirque du Soleil.

Com esses ingredientes e muita determinação, Philippe Bachman transformou a Cena Nacional de Châlons en Champagne, a capital da região Champagne-Ardenne, localizada a 170 km de Paris, na maior referência cultural da aglomeração de Champagne. Com uma população de cerca de 70 000 habitantes, a região é conhecida internacionalmente pela bebida do mesmo nome.

Para vocês terem uma idéia da dimensão do trabalho de Philippe Bachman, um dos artistas residentes da Cena Nacional de Châlons em Champagne é ninguém mais, ninguém menos que Robert Lepage, o mago canadense do teatro internacional. O que deu a "La Comète" em 2008, o privilégio de acolher a criação MUNDIAL do espetáculo "Le Dragon Bleu". Algo como imaginar Caxias do Sul receber a estreia mundial do próximo espetáculo do Théâtre du Soleil.

Mas nada acontece sem trabalho e, creio eu, que o maior segredo do sucesso de Bachman está na seriedade com a qual ele investe num projeto intitulado "A arte de ser espectador", com diversas ações voltadas para o meio escolar e um serviço educativo presente através de ações de sensibilização e de programação para o público jovem.

O serviço educativo do "La Comète" é um espaço específico destinado aos professores e aos alunos, tendo como objetivo principal estabelecer um laço permanente entre os professores e cena nacional, porque lá, ao contrário do que se pensa aqui, o teatro é feito para o público e sem o público teatro não só não tem sentido, como não existe. Mais um belo exemplo para incentivar a reflexão e a tentativa de colocar em prática nos trópicos. Copiamos tanta coisa ruim, porque não podemos tentar o caminho inverso?


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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