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Sexta, 29 de maio de 2009, 08h07 Atualizada às 17h13

Um cemitério e um raciocínio paranóico

Tony Monti
De São Paulo

O apartamento já estava alugado, mas eu ainda não morava nele. Meu pai mapeava a cidade pela janela da cozinha. Bem em frente, a menos de cem metros, no cemitério, ele via cruzes, estátuas e lápides. Eu, atrás dele (eu não tinha certeza de que ele sabia que eu estava ali), com receio de alguma reprovação à vizinhança, aguardava um comentário.

Nesta época, por motivos variados - entre os quais a recente estada de meu pai no hospital, alguns dias inconsciente numa uti -, quase tudo na minha vida podia afetar um equilíbrio delicado que eu protegia para continuar os dias. Meu pai, muito magro, movimentava-se devagar, falava devagar, estava ainda tateando, de novo, o mundo do qual ficou ausente por meses.

Assim como os escoceses brigam com os ingleses, corintianos com palmeirenses, o inimigo possível é, em geral, o vizinho próximo. O Outro real e assustador mora ao lado, não é idealizado nem higienizado pela distância. No extremo deste raciocínio paranóico, do qual todos compartilhamos em pequeno grau, vizinho bom é vizinho morto.

Quando meu pai se virou, eu sorri e aguardei. Ele apontou para o cemitério e sentenciou: com estes não precisa se preocupar. Eu não conhecia ainda as noites de insônia por causa de um bar sem isolamento acústico, em frente à janela do quarto.


A convivência provocada de pessoas muito diferentes, em espaços apertados, como um estádio de futebol cheio ou a Virada Cultural paulistana, aumenta às vezes a sensação do perigo. Há momentos em que a animal prontidão para o combate e o medo de ser atacado superam a paz que idéias louváveis como tolerância nos dão.

Um amigo, incondicional defensor da convivência e do diálogo, comentou discretamente durante a Virada Cultural, em rara revelação de desconforto, "talvez fosse melhor nós aqui e eles lá, em vez de todo mundo junto". Ele se sentiu observado bem de perto por gente desconhecida e, assim, imprevisível.

Antes do carnaval deste ano, saí em um bloco de rua na Vila Madalena. No meio da bagunça, a maioria dos foliões tinha estudado nas mesmas seis ou sete escolas bastante caras da região. Carnaval de rua. Uma das anedotas que escutei, ditas em surdina (porque não é fácil se divertir sem abafar a culpa pela crueldade das estruturas e das tensões sociais), era apontar para algum lado e dizer "olha um mulato ali" e completar dois segundos depois "não, acho que me enganei". Mesmo sem que fosse cobrado ingresso, que não houvesse catracas físicas para selecionar quem poderia brincar, quase só havia brancos entre as quase mil pessoas na rua.

Sim, é um bairro de moradores brancos. Mas há pessoas que passam pelo bairro todos os dias, alguém que poderia vir de outros lugares. Nem isso. Um outro amigo disse que, se naquele momento parasse de beber e pular eufórico, fugiria de medo do poder opressivo que aquele carnaval impunha pelas ruas onde passava. "Não tem preto aqui porque eles teriam medo. Eu teria".

Desconfiamos dos costumes e da tolerância dos desconhecidos, mas os desconhecidos também têm receios sobre nossa presença (a catástrofe visível, rompante e infrequente que é a invasão violenta da propriedade do rico pelo pobre tem um par indissociável: a privação diária do pobre, (avesso de) catástrofe, mais quieta e constante).

Conviver é uma arte complexa. Nesta cidade injusta, ela nem sempre é possível como resultado apenas de boa vontade ingênua ou da tendência à comunhão que vem da euforia carnavalizada e extrovertida.

Tony Monti é escritor, autor de eXato acidente (Hedra), o menino da rosa (Hedra) e O mentiroso (7Letras).


Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br

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