Terra Magazine

 

Segunda, 1 de junho de 2009, 10h02 Atualizada às 11h59

Avião pode ter desintegrado, diz especialista

Diego Salmen

Em entrevista a Terra Magazine, o comandante Carlos Camacho, diretor de segurança de vôo do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), fala sobre as prováveis causas do desaparecimento do vôo AF-447 na madrugada desta segunda-feira, 1. Para ele, é "muito difícil" que um Airbus 330 - o modelo da aeronave desparecida - tenha caído.

- Você pode especular: ele desintegrou em vôo? Se desintegrou, não tem sinal, não tem comunicação, não tem transponder, não tem nada. A probabilidade de isso ter acontecido começa a ficar grande, em função dos dados que estão chegando e dos dados que não estão chegando.

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Confira a entrevista:

Terra Magazine - O avião sumiu às 3h00. Esse tipo de demora para encontrar o avião é esperado?
Comandante Camacho -
Não, é muito tempo de demora. Inclusive a própria AIr France está assumindo o avião como desaparecido. O nível de combustível com que ele sumiu seria suficiente para ele ir até a França, ir para uma alternativa e ainda voar mais meia-hora. Então somando todos esses tempos, já ultrapassou e muito o tempo de vôo. O fuel time on board, o tempo de combustível que ele tem a bordo, não dá mais. Mesmo que ele tivesse reduzido, economizando combustível, ele já teria ultrapassado todos as possibilidades de combustível a bordo a ser queimado.

Os controladores franceses detectaram o desaparecimento antes do Brasil?
Dificilmente, porque na verdade é o seguinte: ele desapareceu por volta das 3h00. Ele decolou às 19h00, e daí até às 00h00 são cinco horas. Mais três horas, são oito horas de vôo. Com oito horas de vôo, se ele estivesse voando a uma média de 700 a 800km, seriam aproximadamente 6.400 km, ele estaria muito, muito distante do controle do espaço aéreo brasileiro. Já deveria ter passado pelo controle do espaço aéreo Ilha do Sal, e aí estaria em contato com o Marrocos ou coisa que o valha. Nem a Ilha do Sal nem o controle marroquino reportaram contato com esse avião. Se o comandante tivesse decidido por algum motivo retornar ao Brasil, ele teria pousado no Brasil há horas. Se ele tivesse caído próximo do Brasil, ele seria visto, acompanhado...

Sim...
Tem um fato muito importante: existe um equipamento a bordo chamado ELT (Equipamento de Localização de Emergência, em português). A partir do momento que algo tenha acontecido com o avião, que ele tenha pousado na água ou coisa assim, ele entra em funcionamento e fica emitindo um sinal o tempo todo, que é pego por um satélite. Aí o satélite teria pego essa posição da aeronave e já teria mandado aos órgãos controladores de tráfego aéreo e aí já saberia onde ele está, mas ninguém sabe nada desse avião. Você pode especular: ele desintegrou em vôo? A França já está trabalhando com isso, dizendo que ele pode ter pego um raio e desintegrado em vôo. Se desintegrou em vôo, não tem nada que fazer. Não tem sinal, não tem comunicação, não tem transponder, não tem nada. A probabilidade de isso ter acontecido começa a ficar grande, em função dos dados que estão chegando e dos dados que não estão chegando.

A região do desaparecimento tem um histórico de problemas?
Não é necessariamente um histórico de problemas, mas tem turbulências. E quando tem, é de moderada a pesada. Todos os pilotos e as empresas aéreas conhecem as turbulências dessa região, são velhas conhecidas. Mas nada que desintegre um avião.

E quanto ao modelo do avião, um Airbus A330?
É um avião muito bom. Uma vez, um modelo desse teve de pousar sem combustível num vôo entre o Canadá e a Europa. Ele estava fazendo a travessia, e por uma falha de manutenção, o combustível foi jogado fora durante o vôo. Aí os pilotos se enganaram, iniciaram uma transferência de combustível e jogaram para fora o pouco de combustível que eles ainda tinham em direção à água. Aí eles decidiram pousar numa ilha, onde havia uma base aérea. Eles fizeram o pouso com certo grau de sucesso. Quebrou o avião, trem de pouso, etc, mas o pouso foi feito sem nenhuma vítima e não houve perda total do avião. Mesmo sem combustível, ele voa muito tempo ainda. Ele ainda tem um gerador especial que, se todo o sistema elétrico do avião cair, o gerador cai para fora do avião e alimenta a aeronave com energia elétrica e pneumática. Dificilmente um avião desse tamanho cai, porque ele tem esse dispositivo, que é chamado de Fullbinder (RET). É muito difícil esse avião cair.

Em dezembro do ano passado, a diretora do SNA disse que havia uma "fratura exposta" na infra-estrutura aérea brasileira. Hoje as autoridades tem de fato controle sobre o espaço aéreo?
O Departamento de Controle de Espaço Aéreo Brasileiro foi auditado pela Organização de Aviação Civil Internacional e recebeu a nota 95. É uma nota muito alta, que até mesmo a própria Agência Nacional de Aviação tem que considerar - porque ela ainda está na pré-escola, ganhou nota 71. Essas informações de que o Brasil oferecia buracos negros e problemas no controle do espaço aéreo aparentemente foram sanadas, porque para ganhar nota 95 dessa entidade... Não é qualquer um que ganha. Ou então a OACI não merece crédito, o que eu duvido. Ela merece crédito.

Então, apesar do desaparecimento o sistema aéreo no Brasil é seguro hoje?
Eu vou pelos dados pelo que eu tenho. Pela nota 95 da OACI, o Brasil é seguro.

 

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