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Quinta, 4 de junho de 2009, 08h13

Nostromo, de Joseph Conrad

Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro

As respostas do mundo nunca esgotam as perguntas de um clássico. Nostromo é um livro datado: suas personagens não existem mais no panorama cotidiano, os conflitos políticos que descreve foram substituídos, a estrutura narrativa a que pertence desconstruída, e a América Latina vai além dos lugares-comuns que professa.

É datado, e criticável: Vargas Llosa recentemente o considerou um romance preconceituoso e limitado; Naipaul elogia sua prosa eficiente, mas a acusa de ser pouco luminosa na exatidão concreta do mundo que abarca; Achebe o tem como mais um exemplo da pouca preocupação de Conrad em ir além da superfície das personagens coloniais de sua obra; Nabokov considera o romance uma aventura para crianças e jovens destruída em sua premissa simples por uma constrangedora e ingênua pretensão; e Forster ironiza sua incapacidade de trazer o mundo concreto ao leitor numa prosa afeita mais à retórica vazia que a verdadeira substância.

O tempo está contra Nostromo; as vanguardas estão contra Nostromo; a complexidade da economia global nega Nostromo; o fim do terceiro-mundismo supera Nostromo. Porém, uma leitura menos cínica do livro, uma leitura fora do universo para-textual, uma leitura crua do romance tem crescente impacto. Num primeiro momento, parece que todas as críticas procedem: as personagens são caricatas; as descrições da natureza são antiquadas; a geografia construída irreal; a retórica muitas vezes imprecisa, e incômoda - tudo parece confirmar os vaticínios.

No entanto, as respostas fáceis tornam-se, gradualmente, insatisfatórias; e, aos poucos, justo pela teatralidade de sua ação, a artificialidade de seu espaço geográfico, o esquematismo de seu pensamento político, a imprecisão constante das personagens, Nostromo assalta as certezas do leitor metamorfoseando-se num ensaio narrativo instigante sobre o funcionamento problemático do idealismo no centro nervoso da máquina política que rege toda sociedade - uma metáfora, em carne viva, da intromissão do acaso e da passionalidade na fria construção progressista por trás de qualquer plataforma política liberal. O que era datado torna-se pertinente; o pertinente, inquietante; o inquietante, inquisidor; e o inquisidor, matéria-prima de um clássico verdadeiro, e agora então, inegável.

Para escrever Nostromo, Conrad usou todas as suas lembranças enquanto marinheiro. Mas ao contrário de suas narrativas anteriores, construiu um país para ambientar sua trama. Costaguana é a colagem de várias geografias que Conrad frequentou; nela, juntou retalhos de pessoas que viu, experiências comerciais que presenciou. Em Nostromo há algo de tudo que sentiu, e o universo político que rege o romance é um amalgama de todas as diversas administrações coloniais com que teve que lidar pessoalmente. O mundo do imperialismo é o cenário do desterro: com mais velocidade que o fruto da exploração colonial percorre o mundo, a gente de todo lugar se perde pelos continentes.

Após a vivência isolada do colonialismo inglês, francês e belga, ao criar Costaguana Conrad engendra o palco de uma sociedade abertamente global. São negros, são índios; espanhóis, nativos; italianos, franceses, ingleses; o narrador de Nostromo é um Próspero inventando na enseada de Sulaco o mundo por vir. E é um mundo realmente inventado, abertamente livresco; tirado de relatos de viagens consumidos por Conrad, de testemunhos pouco confiáveis de uma América que não existiu da mesma forma como foi relatada.

Essa Costaguana, país fictício, vive a instabilidade política de uma sociedade esgotada em seus recursos; estagnada, no início do romance os motins e revoluções acontecem apenas pela luta do poder pelo poder. Administração sem lei, Costaguana tem um ambiente onde a personalidade influencia mais na política que as idéias. O narrador constrói detalhadamente o vazio em que as personagens parecem agir; não há movimentos, há turbas, há atitude pela inércia, há gritos alimentado pela necessidade de ruído. Toda esse energia encontrará um objetivo quando uma antiga mina de prata é reativada com extraordinário sucesso. A instabilidade agora tem um foco; e esse foco será a ruína de um país.

Uma das principais personagens do romance é Charles Gould. Ele desempenha o papel do homem que acredita no progresso. Ao reativar as minas, uma herança abandonada, sonha a modernização de Sulaco. Seu mundo é regrado pela precisão, pelo progresso estabelecido a partir de metas e ordem. Ele será o catalisador, com sua empreitada bem-sucedida, de todas as revoluções e contra-revoluções que torrencialmente agitam o marulho intranquilo da trama. Sua mentalidade é a do colonizador, do homem que traz luz à sociedade a partir da tecnologia, da inovação; só não contava que essa mesma sociedade lhe responderia de forma tão imprevisível. O sucesso econômico da mina acaba por desestabilizar toda política da região.

Um de seus aliados é o Doutor Monygham. Ele é o contrário de Gould. Enquanto o último é cego e não consegue perceber o mundo ao seu redor do modo que ele é, Monygham tem traumas que lhe fazem um homem pragmático e desencorajado. Ele reconhece a transitoriedade dos regimes políticos; sentiu na carne a ação impositiva do desejo cego das autoridades, e consegue reconhecer a oscilação entre caos e tirania que abarca a vida administrativa de Costaguana. Ele vê no conflito entre os líderes políticos, apesar de toda defesa pela democracia e liberdade, a mesma mão da tirania que lhe torturou e massacrou quando teve oportunidade.

O terceiro protagonista do romance é Martin Decoud, um jornalista de idéias abertamente liberais, que defende radicalmente as mudanças políticas na região por ter presenciado o sucesso delas na Europa, mas que pela paixão repentina e instabilidade volátil da situação ao seu redor vai aos poucos trocando as convicções políticas pela sedução do oportunismo. A contra-revolução está armada, mas lhe falta um líder: esse homem é Nostromo - o carismático e cativante marinheiro. Ele será o rosto a colocar em movimento todos os sonhos, toda turba criminal, os desejos mesquinhos e nobres, e instáveis, das outras personagens do romance.

A riqueza do romance Nostromo nasce de seu excesso verbal. É reconhecível a curiosa filiação de Conrad ao trabalho de outro grande romancista da época, Henry James. Os dois são mestres na construção meticulosa de pontos de vistas. São mestres na exploração do tempo narrativo, na sua expansão repleta de gestos e palavras silenciadas, da arte do excesso, da multiplicação das sobras. Mestres, também, na exploração da voz, da exaustão da voz, do entrecruzamento e paralelismo de enredos. São mestres da orquestração esteticamente egoísta desse mundo que descrevem. A riqueza do romance de James e Conrad não está no respeito dos diversos registros, em dar a todas as vozes um espaço privilegiado e neutro e de igualdade no corpo narrativo. James é gentil demais e o leitor se satisfaz com a superfície da luva delicada sobre a mão rude, enganando-se; Conrad, mais nu em suas intenções, esconde-se por trás de prefácios simpáticos e cartas ruminativas. Todo grande criador, no entanto, acaba por ser autoritário, e isso é desejável; a obra-prima nunca foi espaço para democracia, deseja-se sempre o engenho de uma mente poderosa por trás da orquestração da linguagem; e o que importa num escritor, realmente, é a maneira como seu pensamento agride o mundo e o transforma.

O grande escritor não pede licença, apesar de algumas vezes estar disfarçado de cordeiro; o grande escritor arromba portas. Conrad ainda é pertinente porque as regras do seu mundo ficcional são as regras criadas por ele, possuem uma coerência própria e poética inconfundível, e uma gravidade particular. Os múltiplos pontos de vista do romance Nostromo, o fato de que se lê o mesmo acontecimento a partir de diversos olhares, não gera nunca a ilusão pretensamente liberal de obra aberta em sentidos e interpretações; o que incomoda em Nostromo é a constante degradação mental e até mesmo física das personagens, e a impressão de que tudo está ruindo com elas; o que perturba é o assédio permanente e incansável de uma desencantada maneira nociva de encarar o processo político, a negação de qualquer sinal do narrador de que os crimes que acontecem ou as violências que as personagens sofrem fazem parte de qualquer lógica redentora.

O que está ruim pode piorar; as hipocrisias estão sempre desnudadas e expostas; e tudo que o homem põem as mãos é degradável. Então se vê que os lugares-comuns que professa revelam, ao fim, algo de verdadeiro sobre a América Latina; mesmo após desconstruída, sua estrutura narrativa é vivaz e persuasiva; não foram superados, em essência, os conflitos políticos descritos com certa teatralidade; e no panorama cotidiano ainda existem suas personagens. Nostromo, afinal, não é datado - e às suas perguntas as respostas do mundo não esgotam.


Vinicius Jatobá é jornalista cultural e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Colaborou em vários suplementos e revistas, e atualmente escreve sobre livros em jornais.

Fale com Vinicius Jatobá: vinicius_jatoba@terra.com.br

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