
|
Reprodução
Cena do filme "Entre os muros da escola", que trata dos problemas enfrentados nas salas de aula francesas
|
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
O filme é uma história meio besta, otimista demais, talvez, mas não inverossímil. É descendente mais ou menos direto de Ao mestre com carinho, que, como se sabe, oferece uma saída literalmente cinematográfica para o funcionamento precário de uma escola de periferia. O que salva uma turma de alunos pobres mais ou menos marginais (isto é, marginalizados) e desinteressados é um professor (Sidney Poitier) que nem é do ramo - é um engenheiro à espera de emprego. Um dia, desanimado, joga os livros no lixo e começa um programa diferente, pouco escolar, nada curricular, de educação daquela turma: boas maneiras, visitas a museus, culinária etc. E, claro, como pano de fundo, seu exemplo de sucesso, já que é negro e foi paupérrimo (também sabe bater, e bate duro num aluno provocador, que depois convida para ser instrutor de box na própria escola - alguma coisa na linha "hay que endurecerse, pero...").
Depois deste, surgiram dezenas de filmes do mesmo tipo: escolas de periferia, alunos pobres - negros e imigrantes -, drogas, gangues, desrespeito, desinteresse (o último, sem saída fácil, é "Entre os muros da escola"). Quase sempre os diretores são reacionários, os professores também, mas de repente aparece um salvador, que descobre um jeito de desenvolver o interesse dos alunos por alguma coisa. Eles passam a estudar, os times de basquete começam a vencer, as meninas a sorrir, os pais ficam orgulhosos, a escola sobe em algum ranking etc. Em geral, depois do sucesso, o professor vai embora (Shane? Jesus Cristo?), como a dizer que essa não é uma missão para professores, mas para profetas, santos, heróis.
Um desses filmes - meninos, eu vi! - oferece um exemplo mais radical. Não sei mais nada dele, mas não me esqueço de sua tese provocadora e instrutiva. Os alunos são quase adultos, praticamente analfabetos, não se interessam por nada, absolutamente nada. Só por sexo. Mal lêem, isto é, lêem bem mal. O professor resolve dar um golpe radical: um dia, sem mais nem menos, começa a ler em voz alta um livro pornográfico, desses da pesada. É a descrição de uma cena de amor, digamos assim, de envergonhar o pessoal da antiga zona. Os alunos começam a rir, acham graça, fazem gestos obscenos, mas, aos poucos, vão ficando quietos, sem saber como reagir. (É que o texto está de fato fora do lugar).
O professor engrossa: não é o que interessa a vocês? Então, é isso que vamos ler. E distribui livros do mesmo gênero a todos (posso estar inventando, não sei bem). Esqueço detalhes, mas lembro a sequência que interessa: em intervalos que não se sabe se são de uma aula para outra ou de uma semana para outra ou de um mês para outro (pouco importa, é cinema), o professor vai lendo textos que falam de sexo, sempre de sexo, mas a cada vez esses textos têm uma cara diferente. Por exemplo, depois dos claramente pornográficos, ele lê a descrição das cenas de sexo de O amante de Lady Chatterly, de D. H. Lawrence. Depois, um poema de amor, um lírico. Etc.
Os alunos continuam sem saber como reagir, mas começam a se dar conta (é um filme!) de que há diversas maneiras de tratar de sexo, de falar de sexo. Os alunos claramente apreciam essas leituras, e, com a ajuda dos comentários do professor, vão descobrindo ao mesmo tempo diversas dimensões do sexo e da literatura. Sim, porque é disso que se trata: de diversas representações de um fato da vida, inescapável, o sexo, as práticas sexuais, tratados de muitas maneiras, da mais "grosseira", com descrições de envergonhar profissionais, à puramente lírica.
Neste filme, é assim que o professor salva seus alunos: em vez de incrementar práticas esportivas ou de boas maneiras, começa de onde os alunos estão: sexo e grosseria. Aos poucos, sexo sem grosseria, sexo na melhor literatura. Pode-se dizer que é uma posição até conservadora, porque se trata de introduzir na vida deles a literatura canônica. Só que sem censura.
Por que estou escrevendo sobre isso? É que o noticiário sobre escola sempre me pensar que talvez a instituição não tenha saída se teimar em preservar as características que mais contribuem para seu fracasso, ou para um sucesso menor do que o possível.
As notícias mais espetaculares das últimas semanas são sobre livros inadequados (sexo e palavrões, vejam só!), sobre sua retirada das salas para as quais tinham sido destinados, em avaliações certamente discutíveis. Depois, veio a notícia da "proibição" de um romance em Santa Catarina, porque descreve cenas de sexo semelhantes às descritas por Lawrence.
Em S. Paulo, os livros cassados seriam destinados a alunos de 9-10 anos. Até uma coletânea de piadas foi considerada prejudicial aos alunos! (Será que a Secretaria não sabe que não há piadas politicamente corretas? Será que acha que os alunos não as conhecem? Não seria melhor analisar e discutir esses textos em sala de aula do que varrer tudo para debaixo do tapete?)
Em Santa Catarina, a proibição atingiu livro destinado a jovens de dezessete anos ou mais. Uma professora ou coordenadora ou orientadora, não importa muito, declarou que esse livro não serve para melhorar o vocabulário dos alunos! Mas quem lê literatura para melhorar o vocabulário? Minha senhora: esses alunos não só conhecem todas aquelas palavras que a senhora acha deploráveis, como as empregam todos os dias, mesmo na escola. E provavelmente já as repetem em algumas camas!
Fiquei me perguntando que quadros ou esculturas seriam censurados, se houvesse nas escolas um mínimo de aulas sobre arte. A criação do mundo de Michelangelo, da Capela Sistina, por causa daquele Adão nu? E o que dizer do Davi, cujo modelo deve per posado debaixo de um frio danado? E Vênus? E a primeira Missa, com todas aquelas índias? Quem sabe até mesmo as diversas Pietàs, Cristos com pouca roupa.
A literatura, a pintura, a escultura, o cinema, todos os campos artísticos estão recheados de sexo (e de violência, acrescente-se). Quem não quer mostrar aos alunos como a arte tem funcionado historicamente? Não se diz que eles devem ter uma sólida formação para o mundo atual? E como é o mundo atual? Como são as representações do mundo atual na história, nas artes, no jornalismo, na televisão? Há algo mais pornográfico do que uma manchete torta ou invasiva ou uma fotografia maldosa ou íntima captada ilegitimamente? Do que uma propaganda - política ou comercial - mentirosa?
Então, o que se ganha fazendo de conta que as salas de aulas são ambientes assépticos? Ou, pior, achando que a sujeira são as piadas, os desenhos, alguma dose de realismo, alguma conexão com o mundo? Só espero que não sejam proibidas as aulas de anatomia! Ou que elas se reduzam a dissecar grilos. Quem já viu uma rã descascadinha, pronta para ser posta numa frigideira, pode perfeitamente achar que é uma figura pornográfica. Só depende da cabeça do freguês.
Terra Magazine