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Sexta, 5 de junho de 2009, 08h28 Atualizada às 09h06

As eleições européias e a esquerda desesperada

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma

Amanhã pela primeira vez os italianos vão votar num sábado: os dias de voto tradicionais na Itália sempre foram domingo e segunda. São eleições bizarras, essas. Ninguém parece se preocupar com a verdadeira finalidade delas, renovar um parlamento que - em tese - rege os 27 países que formam a União Européia.

Na Itália, a distração é maior ainda, todos se comportam como se não houvesse eleições, ou como se tudo já tivesse acabado, ou como se não tivessem a menor importância. O pior é que a terceira hipótese parece a mais certa.

Na Europa inteira, a popularidade da União e do parlamento europeus está bem por baixo, e tradicionalmente votam pouco mais da metade dos eleitores (aqui não é preciso justificar a ausência das urnas).

A explicação é bastante óbvia. A Europa política - que deveria ter como máximo orgão o europarlamento - não existe. Seria muito estranho se os eleitores se preocupassem por alguma coisa que não há. Quem vota nas européias, faz isso por militância, por "torcer" por um partido ou contra outro. Usa seu voto para dar um toque no seu governo. O voto é político, mas de política nacional, não européia.

Na Itália, onde a política permeia até as filas no correio, a participação no voto sempre foi maior do que nos outros países mais distraídos. Mas dessa vez o descaso parece mais consistente do que a atenção. Todo mundo prevê uma avalanche de votos de direita e uma derrota feia do Partido Democrata. Os eleitores de esquerda estão desesperados, porque não só sabem que serão obrigados a espalhar seus votos entre quatro listas concorrentes (ou cinco, se alguém tiver a audácia de considerar a Itália dos Valores do ex juiz Antonio Di Pietro como partido da esquerda), mas têm também certeza de que o Berlusconi vai ganhar.

Por isso, muita gente da esquerda não vai votar. Como muita gente de direita, convencida de que já ganhou. O resultado pode ser uma queda brusca da participação no voto. E vai ganhar quem tiver menos ausentes nas urnas.

A apatia da esquerda é uma das piores novidades destas eleições. O PD há um mês anda dizendo que será um ótimo resultado chegar a 26 por cento, quer dizer 7 pontos a menos das eleições políticas do ano passado. Com esse critério, é possível que festeje a sua extinção como um triunfo eleitoral.

Mas, como em todas as situações italianas, a incerteza é total. Os analistas não têm coragem de fazer previsões, com medo de zebras. Os "torcedores" da esquerda esperam que as eleições consigam pelo menos dar um choque no corpanzil atordoado do PD. Esperando que o Frankenstein construido com pedaços de ex comunistas e ex democratas cristãos ainda esteja vivo.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br

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