
Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Entre discussões sobre a efervescência do momento, as necessidades da boa escrita e os caminhos da fantasia
Por Janaina Azevedo Corral
No último dia 09 de maio, a OPELF promoveu o segundo evento do 2º Ciclo Paulista de Debates sobre Literatura Fantástica. O evento foi resultado de uma parceria com a Livraria Cultura, que o realiza pelo segundo ano consecutivo, com o Apoio da Fábrica dos Sonhos, cuja coordenação remete à escritora e historiadora Ana Cristina Rodrigues, e do Grupo CÉOS, entidade e fomento à produção cultural na educação e na arte.
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Presente, a escritora Ana Cristina Rodrigues, cujo livro Espelhos Irreais, a primeira coletânea impressa dos autores da Fábrica dos Sonhos, seria lançado logo após a Mesa-Redonda e que, no mesmo dia, realizara como parte das atividades um workshop sobre "Escrevi... e agora?" voltado a escritores que desejam ver suas obras publicadas. Também presentes, o escritor Cláudio Villa, do livro Pelo Sangue e pela Fé, líder da comunidade de RPG no Orkut e figura bastante conhecida nos meios afins; a escritora Rosana Rios, autora de mais de 100 livros e fundadora do GELF - Grupo de Estudos de Literatura Fantástica; e Mauro Trevisan, um dos autores do mundo fantástico de fantasia de RPG Tormenta, além de colunista da revista Rolling Stone, crítico, escritor e produtor do site Laboratório do Doutor Careca. A apresentação correu por conta de Janaina Azevedo Corral, quem escreve esta matéria.
Como parte deste quadro, posso afirmar pessoalmente que essas presenças combinadas fizeram do evento um dos mais produtivos dentre os já realizados por nós, da OPELF, nesse sentido.
O debate começou quando indagado aos participantes sobre como é escrever fantasia num mundo em que ela é cada vez mais colocada de lado em detrimento do sentido e dos valores materiais. A primeira a responder foi Ana Cristina Rodrigues que afirmou que os dois planos não chegam a efetivamente se afetar, pois sob a pressão de uma realidade completamente materialista, quer pelos jogos, pela literatura ou pelos filmes, surge uma busca por enxergar o mundo que ele gostaria que existisse; para tanto, bastava lembrar sucessos, especialmente cinematográficos, como A Bússola de Ouro, O Senhor dos Anéis e, mais recentemente, Watchmen. Assim, restringimos o problema da fantasia na literatura, não a uma desvalorização do tema, mas a uma cultura nacional distanciada da leitura, sem políticas de incentivo no meio escolar, quer para fomentar a leitura, quer a escrita. Neste ponto, abriu-se a participação do escritor Cláudio Villa, que além de concordar com a escritora Ana Cristina Rodrigues, colocou um ponto interessante: embora a leitura seja desvalorizada, os poucos que tiveram estímulo suficiente para gostar da literatura, lêem com gosto o que o mercado e as comunidades lhes ofertam, pois a fantasia conquista a imaginação e o público indo ao cerne do imaginário e oferecendo uma alternativa à realidade.
Quando da vez da escritora Rosana Rios, a pergunta foi um pouco ampliada, para abarcar sua experiência com o público infanto-juvenil: como escrever literatura infanto-juvenil num mundo em que as crianças são forçadas ao amadurecimento precoce e em que a violência e a sexualidade são temas correntes neste sentido. Sua resposta foi dividida em duas partes: a primeira falando sobre a temática de sua obra e a difusão da mesma, enquanto a segunda falando exclusivamente da produção literária. "Quando eu começo a escrever um livro, eu não sei se vai ser um livro adulto ou para crianças. Muitas vezes, eu acho que uma história vai ser juvenil, e ela acaba saindo adulta demais, por que quem me guia é a história, são os personagens. Eles me dizem para onde a história vai", diz a autora sobre como explora os temas de suas obras.
Entretanto, um grande problema tanto para a produção literária quanto para a leitura está na pouca qualidade do ensino de língua nas escolas atualmente. A conseqüência se vê nos baixos resultados educacionais, mas principalmente, no âmbito da literatura fantástica, no surgimento de escritores com boas capacidades de criar enredos e outras estruturas narrativas, mas incapazes de escrever com coesão, coerência e manter um discurso uno. As observações da escritora receberam aprovação geral dos participantes no palco, já que todos lidamos com uma enxurrada de livros de baixa qualidade, produzidos, em especial, não pela incapacidade dos autores, mas pela irresponsabilidade das editoras que encontram nos autores que pagam para publicar, um nicho rentável, já que, vendido ou não, o livro representa capital, já que foi pago pelo autor. No que este tema foi abordado, a opinião de Cláudio Villa foi contundente: o problema não está em pagar pela publicação do livro, já que, para o autor iniciante, esta é, muitas vezes, a única chance de ver sua obra publicada, mas está na falta de escrúpulos de algumas editoras em não orientar o autor, revisar o texto ou orientar a reescritura de possíveis falhas baseado em leituras críticas coesas. Por último, Mauro Trevisan se apresentou favorável a tudo que fora dito antes de ele se pronunciar, acrescentando, ainda, que, se a fantasia estivesse em baixa valorização, não teríamos, como temos, uma expansão correntes de jogos, em especial, on-line, do tema, com milhões de adeptos no mundo inteiro.
A pergunta seguinte quis estabelecer as influências dos escritores de fantasia atuais, em relação aos das gerações anteriores. Em especial, direcionamo-na para Cláudio Villa e Mauro Trevisan, para saber se da mesma forma como houve tempos atrás uma leva de jogadores de RPG que começaram a colocar suas narrativas em livros, o mesmo fenômeno poderia ocorrer no caso dos MMORPG - Jogos on-line. A resposta de Mauro Trevisan foi incisiva: os jogos on-line são muito mais superficiais do que as narrativas ao vivo, já que visam objetivos muito mais superficiais e o mundo não se apresenta propicio a expandir-se além do que se vê na tela, bem como a experiência do jogador bem mais efêmera: "Pra que eu vou ficar duas horas jogando uma aventura e mesa se eu posso entrar on-line e destroçar um monte de Orcs?"
Cláudio Villa não se posicionou de maneira diferente, acrescentando, como exemplo, suas aventuras num jogo on-line no qual a interpretação é essencial, mas que é exceção dentre os demais. Rosana Rios se adiantou em responder essa pergunta logo a seguir, dizendo que vem de uma outra geração e que isto que discutíamos eram recursos mais recentes, já que no tempo dela as influências abarcavam Machado e Pessoa, Guimarães e outros, o que lhe deu uma maior inclinação para a literatura, não para as outras mídias.
E daí veio a referência para a última pergunta: está o destino da fantasia nas novas mídias, e a literatura estaria num coma, esperando um desfecho? Ana Cristina Rodrigues iniciou a discussão colocando que as novas mídias aparecem como um complemento à literatura, mas nunca tomarão seu espaço. Elas servem de incentivo, sejam ilustrações, jogos, vídeos. O homem, sempre terá algo a dizer e isto, será, inevitavelmente, repassado pela linguagem que ele desenvolveu.
As novas mídias se valem do que a literatura fomentou, no que Mauro Trevisan acrescentou ainda um argumento: a enxurrada de produtos e jogos que se desenvolveram ao longo das últimas décadas seguiram um padrão bastante incorrente e conhecido, Tolkien e a Terra Média, desenvolvidos em obras literárias como o Silmarilion, O Senhor dos Anéis, O Hobbit e outras. Isso já é o bastante para mostrar que a literatura serviu de base, e, ao interesse do leitor, ela é ponto de referência para encontrar a origem dos mundos criados, por exemplo, em jogos - como Lineage, World of Warcraft, entre outros.
Cláudio Villla corroborou o argumento, falando sobre o processo de criação que deu origem ao seu romance e seu site, Mundos de Mirr, de fantasia fantástica medieval. Rosana Rios colocou-se prontamente no sentido de argumentar que, embora esta seja uma das maiores influências da literatura de fantasia produzida, o mercado editorial dita outro tipo de coisa no Brasil: infelizmente, quem mais compra livros no país, é o governo, para fins educacionais, o que torna esse tipo de literatura não aceito nestes âmbitos, já que conflitos de ordem religiosa podem impedir a utilização de livros que falem sobre magia, seres sobrenaturais, realidades alternativas, entre outros. Assim, temas mais voltados aos valores sociais - crianças sob a realidade social brasileira - vendem mais no âmbito educacional, enquanto o terror é unanimidade no público, em especial, livros sobre vampiros. Com muito bom humor, Mauro Trevisan disse que, com as dicas de Rosana Rios já sabia como fica rico: escreveria um livro sobre uma criança vampira na favela!
A seguir, veio o sorteio dos brindes cedidos gentilmente pelas editoras parceiras e encerrou-se a Mesa Redonda, ao que se seguiu o lançamento do livro Espelhos Irreais, coletânea de contos da Fábrica dos Sonhos, com organização de Ana Cristina Rodrigues.
O próximo evento será o dia dedicado à temática de Terror dentro da Literatura Fantástica, que se realizará no dia 20 de Junho de 2009, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, Rua Turiassú, 2100, 3º andar, das 11h às 22h. As atividades do dia são compostas por um workshop "Como escrever? O livro desde a idéia ao ponto final", com a Presidente da OPELF, Janaina Azevedo Corral, com formação acadêmica e pós-graduação em lingüística e teoria literária. Às 17h, Mesa Redonda de Terror, com Martha Argel, André Vianco, Alexandre Heredia e Nelson Magrini. Às 20h, lançamento do livro Retalhos de Poe I: Vírginia e a dor do amor.
Maiores informações no site: http://www.opelf.org ou pelo e-mail contato@opelf.org
Terra Magazine