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Sábado, 6 de junho de 2009, 07h46

"Red Back"

Divulgação
Teia.  Uma exceção, um perigo que se insinua nas casas das pessoas mais ricas, como das pobres...
Teia. "Uma exceção, um perigo que se insinua nas casas das pessoas mais ricas, como das pobres..."

Alberto Luiz Fonseca
Da Austrália

No ano passado, quando, ainda morando Londres, preparava-me para mudar para a Austrália, cautos amigos e colegas alertaram-me para que, antes de ir viver lá, eu procurasse aprender sobre os supostamente terríveis bichos da Australia.

Fui à Internet, fiz uma busca, procurando entender os eventuais perigos que me aguardavam nesse país - ao contrário, tão agradável - sob a forma de atrozes bichos selvagens.

Sim, há na Austrália animais que trazem ameaça à vida humana. Como no Brasil, na África, nos Estados Unidos, para onde se vá.

Exclusivos da Austrália também há, porém creio que são poucos. Pode-se dizer isso dos dingos (cachorros selvagens), e talvez dos crocodilos de água salgada. Outros, como tubarões, cobras, escorpiões e aranhas venenosas não são exatamente raros no mundo, e temos um pouco de tudo isso no Brasil, não é mesmo?

Há, porém, na Austrália, um bicho cujo mito está acima de todos. Uma exceção, um perigo que se insinua nas casas das pessoas mais ricas, como das pobres, sem escolher; entrando por qualquer janela aberta, ou mesmo sob a soleira de uma porta da rua ou do jardim, em busca de calor e alimento, mas pronta para matar.

É a famosa aranha "Red Back".

A picada da "Red Back" causa, nos primeiros momentos, dor violenta no local. Depois imediato inchaço, suor desmesurado, tremores pelo corpo todo e, se não tratada corretamente - e em tempo - com o antídoto do veneno, a pessoa entra em coma e morre em 24 horas!

Claro, hoje em dia as mortes são raras, pois, mesmo nas localidades mais remotas da Austrália, os serviços médicos encontram-se preparados para os casos de picadas, com doses suficientes de antídoto para o veneno da "Red Back". O que não impede, porém, de pensar que nenhum ser humando está muito interessado em ter um encontro de perto com uma delas.

E foi exatamente isso o que me aconteceu um dia desses! Conto para vocês.

Eu estava aquí na Austrália, passando o fim de semana num hotel-fazenda desses que, apesar de bem rústicos, em meio a densas florestas, ao mesmo tempo têm piscinas de águas infinitas, restaurantes estrelados e todos os luxos e confortos que se pode querer da civilização moderna.

Cheguei na sexta-feira à noite e, já na manhã do sábado, parti para uma caminhada guiada nas montanhas. Na volta, como estava frio e chuvoso, e minha bota de caminhada encharcara-se nas águas e lamas do caminho, coloquei-a para secar na lareira do hotel.

E esqueci.

Passei o dia concentrado em outras atividades e, só no final do dia, já deitado no meu quarto, ouvindo o vento lá fora e a chuva tamborilar no telhado, pensei na caminhada do dia seguinte e, em seguida, lembrei-me: "ah, deixei a bota, lá na lareira do prédio principal...".

"Enfim, paciência", pensei. Como já estava tarde, deixei para pegá-la no outro dia.

No domingo, acordei de manhã bem cedo e fui direto ao pé da lareira buscar a bota. Apressado para sair para a caminhada, que é feita com o guia do hotel e tem hora marcada para começcar, voltei ao quarto para pegar o resto das minhas coisas e ficar pronto.

Ao começar a calçar a bota, porém, veio-me ao pensamento meu pai, e uma situação muito comum da minha infância.

Tínhamos um sítio, perto de Belo Horizonte, e lá acampávamos durante as férias. À noite, deixávamos as botas do lado de fora da barraca. Na manhã seguinte, a primeira coisa que ele fazia, antes mesmo de sair da barraca, era bater as botas no chão, com força, antes de calçá-las, para expulsar os bichos que podiam estar dormindo ali dentro. E me instruía a fazer o mesmo.

Então, naquele momento, décadas depois, e milhares de quilômetros distante do Brasil, pensei com carinho em meu pai, infelizmente já falecido, e em seu conselho, tantas vezes repetido: "sempre bata sua bota antes de calçar, meu filho".

Então, apesar da pressa para pegar a caminhada com hora marcada, bati no chão, várias vezes a minha bota, emborcada...

Quem saiu de dentro, tranquila e fagueira, andando calmamente para um canto do quarto?

Nada menos do que uma "Red Back", que matei, sem cerimônia.


Alberto Luiz Fonseca, mineiro e diplomata, serve atualmente na Embaixada do Brasil em Sidney, Austrália. Filho de pais músicos, foi fundador do "Café com Letras", conhecido café e livraria de Belo Horizonte.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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