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Divulgação
Teia. "Uma exceção, um perigo que se insinua nas casas das pessoas mais ricas, como das pobres..."
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Alberto Luiz Fonseca
Da Austrália
No ano passado, quando, ainda morando Londres, preparava-me para mudar para a Austrália, cautos amigos e colegas alertaram-me para que, antes de ir viver lá, eu procurasse aprender sobre os supostamente terríveis bichos da Australia.
Fui à Internet, fiz uma busca, procurando entender os eventuais perigos que me aguardavam nesse país - ao contrário, tão agradável - sob a forma de atrozes bichos selvagens.
Sim, há na Austrália animais que trazem ameaça à vida humana. Como no Brasil, na África, nos Estados Unidos, para onde se vá.
Exclusivos da Austrália também há, porém creio que são poucos. Pode-se dizer isso dos dingos (cachorros selvagens), e talvez dos crocodilos de água salgada. Outros, como tubarões, cobras, escorpiões e aranhas venenosas não são exatamente raros no mundo, e temos um pouco de tudo isso no Brasil, não é mesmo?
Há, porém, na Austrália, um bicho cujo mito está acima de todos. Uma exceção, um perigo que se insinua nas casas das pessoas mais ricas, como das pobres, sem escolher; entrando por qualquer janela aberta, ou mesmo sob a soleira de uma porta da rua ou do jardim, em busca de calor e alimento, mas pronta para matar.
É a famosa aranha "Red Back".
A picada da "Red Back" causa, nos primeiros momentos, dor violenta no local. Depois imediato inchaço, suor desmesurado, tremores pelo corpo todo e, se não tratada corretamente - e em tempo - com o antídoto do veneno, a pessoa entra em coma e morre em 24 horas!
Claro, hoje em dia as mortes são raras, pois, mesmo nas localidades mais remotas da Austrália, os serviços médicos encontram-se preparados para os casos de picadas, com doses suficientes de antídoto para o veneno da "Red Back". O que não impede, porém, de pensar que nenhum ser humando está muito interessado em ter um encontro de perto com uma delas.
E foi exatamente isso o que me aconteceu um dia desses! Conto para vocês.
Eu estava aquí na Austrália, passando o fim de semana num hotel-fazenda desses que, apesar de bem rústicos, em meio a densas florestas, ao mesmo tempo têm piscinas de águas infinitas, restaurantes estrelados e todos os luxos e confortos que se pode querer da civilização moderna.
Cheguei na sexta-feira à noite e, já na manhã do sábado, parti para uma caminhada guiada nas montanhas. Na volta, como estava frio e chuvoso, e minha bota de caminhada encharcara-se nas águas e lamas do caminho, coloquei-a para secar na lareira do hotel.
E esqueci.
Passei o dia concentrado em outras atividades e, só no final do dia, já deitado no meu quarto, ouvindo o vento lá fora e a chuva tamborilar no telhado, pensei na caminhada do dia seguinte e, em seguida, lembrei-me: "ah, deixei a bota, lá na lareira do prédio principal...".
"Enfim, paciência", pensei. Como já estava tarde, deixei para pegá-la no outro dia.
No domingo, acordei de manhã bem cedo e fui direto ao pé da lareira buscar a bota. Apressado para sair para a caminhada, que é feita com o guia do hotel e tem hora marcada para começcar, voltei ao quarto para pegar o resto das minhas coisas e ficar pronto.
Ao começar a calçar a bota, porém, veio-me ao pensamento meu pai, e uma situação muito comum da minha infância.
Tínhamos um sítio, perto de Belo Horizonte, e lá acampávamos durante as férias. À noite, deixávamos as botas do lado de fora da barraca. Na manhã seguinte, a primeira coisa que ele fazia, antes mesmo de sair da barraca, era bater as botas no chão, com força, antes de calçá-las, para expulsar os bichos que podiam estar dormindo ali dentro. E me instruía a fazer o mesmo.
Então, naquele momento, décadas depois, e milhares de quilômetros distante do Brasil, pensei com carinho em meu pai, infelizmente já falecido, e em seu conselho, tantas vezes repetido: "sempre bata sua bota antes de calçar, meu filho".
Então, apesar da pressa para pegar a caminhada com hora marcada, bati no chão, várias vezes a minha bota, emborcada...
Quem saiu de dentro, tranquila e fagueira, andando calmamente para um canto do quarto?
Nada menos do que uma "Red Back", que matei, sem cerimônia.