Terra Magazine

 

Segunda, 8 de junho de 2009, 08h12 Atualizada às 14h48

Hungria, os anos de ouro (1)

Fernando Eichenberg/Terra Magazine
Gyula Grosics e Jeno Buzánsky, craques da seleção de ouro da Hungria nos anos 50
Gyula Grosics e Jeno Buzánsky, craques da "seleção de ouro" da Hungria nos anos 50

Fernando Eichenberg
De Paris

No final do ano passado, estive em Budapeste, a bela capital húngara. Era início de inverno, o termômetro registrava temperaturas em torno de -5°C graus e as calçadas estavam cobertas de neve. A viagem foi motivada pelos encontros previamente agendados com dois personagens da história do futebol mundial: Gyula Grosics e Jeno Buzánsky, hoje os únicos remanescentes da mítica seleção húngara que encantou o mundo na década de 1950. À parte as entrevistas com os dois ex-craques, também conversei com György Szepesi, narrador e comentarista de rádio que acompanhou as façanhas da Aranycsapat - literalmente, em húngaro, "equipe de ouro" -, e com o escritor Peter Esterhàzy, um habitué da relação de candidatos ao prêmio Nobel de Literatura e um fanático por futebol. Como bônus, por uma feliz coincidência de datas, tive a chance de estar presente na comemoração dos 55 anos da célebre vitória da seleção magiar contra os ingleses, em 1953, relembrada anualmente em um emotivo e festivo encontro no Pub Puskas, em Budapeste. Minha breve aventura húngara resultou em uma série de reportagens publicadas no jornal O GLOBO, em três domingos consecutivos de janeiro de 2009 (11/01, 18/01 e 25/01). Apesar do generoso espaço dedicado pelo jornal - uma página inteira por semana -, muitas das histórias coletadas nas conversas com meus interlocutores ficaram de fora da série, que aproveito para republicar aqui, acrescida de material inédito.

O jogo do século

Era uma tarde fria e úmida naquele 25 de novembro de 1953, em Londres. Mais de 100 mil pessoas ocupavam as tribunas do Estádio de Wembley, o templo do futebol inglês, para assistir ao confronto entre as seleções da Inglaterra e da Hungria. Aos 27 minutos da etapa inicial, o húngaro Zoltán Czibor correu livre pela ponta direita e lançou a bola para Ferenc Puskas, no cotovelo da pequena área. Em um lance exclusivo dos gênios do futebol, com um drible minimalista Puskas recolheu a bola para si com as travas da chuteira esquerda, fintou o capitão inglês Billy Wright, que passou batido e incrédulo, e com o mesmo pé canhoto disparou um petardo sem chances para o goleiro Gil Merrick. O craque número 10, temível capitão da seleção magiar, ergueu os braços em arco para comemorar sua pintura, que colocava a Hungria em vantagem de 4 x 1 no placar.

Espectador privilegiado do memorável feito, o húngaro György Szepesi, narrador e comentarista de rádio na época, sugeriu que fosse providenciada uma placa no estádio inglês em homenagem a um dos mais belos gols da história do futebol. "Durante dez anos, esse gol de Puskás contra os ingleses foi a imagem de abertura do principal programa esportivo da televisão húngara. Era visto e revisto todos os dias", conta o radialista, hoje com 88 anos, o olhar vago como se revivesse aquele raro momento.

Ao final dos 90 minutos, o escore foi implacável para o time da casa: 3 x 6. Mas poderia ter sido pior, pois os húngaros chutaram 35 vezes contra a meta adversária, contra apenas cinco vezes dos ingleses. Foi a primeira derrota da Inglaterra em seu país para um time não-britânico e uma indigesta humilhação sofrida pelos inventores do futebol.

A enorme expectativa gerada pelo duelo de Wembley, batizado pelos ingleses de "O jogo do século", contribuiu para transformar o inesperado fracasso em comoção nacional. A seleção inglesa de Billy Wright, Stanley Matthews, Stan Mortensen e Alf Ramsey não cogitava de outro resultado que a vitória. O excesso de confiança dos anfitriões não foi abalado nem pelo histórico recente dos húngaros: invictos desde o 14 de maio de 1950 em uma série de 24 jogos (20 vitórias e quatro empates) e campeões olímpicos em 1952, em Helsinque.

Além da estrela-maior Puskas - o Major Galopante - e Czibor, a Aranycsapat era formada por talentos como Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik, Gyula Grosics, Jeno Buzánsky, László Budai, Mihály Lantos, Gyula Lóránt e József Zakariás - a maioria oriunda do clube Honved -, liderados da casamata pelo técnico Gustáv Sebes.

O goleiro Grosics, 83 anos, e o defensor Buzánsky, 84, são os dois únicos sobreviventes da mítica seleção magiar. Alcunhado de Pantera Negra por causa de seu uniforme preto, o goleiro foi o mais longevo do grupo na seleção nacional: atuou das Olimpíadas de 1952 até a Copa do Mundo de 1962, no Chile. Mesmo com a saúde hoje fragilizada, comparece ao máximo de eventos relacionados aos feitos de sua seleção. Foi o caso no último 25 de novembro, na celebração dos 55 anos dos 6 x 3 de Wembley, no Pub Puskas, reunião realizada anualmente desde duas décadas com os remanescentes da equipe, familiares e convidados.

No dia de nosso encontro, no saguão do Hotel Flamenco, em uma nevada Budapeste de -5°C, queixou-se de indisposição e de uma leve febre matinal, mas desde que começou a relembrar o passado nos gramados, recuperou o fôlego e não parou de falar por quase duas horas. "Tive medo quando fomos a Londres. Dez dias antes, jogamos em Budapeste, contra a Suécia. E jogamos muito mal. Eles empataram com um pênalti no final, o público nos vaiou. O capitão da equipe inglesa estava presente. Depois do jogo ele disse: 'Vamos ganhar sem probleamas desse time da Hungria'. Foram os ingleses que divulgaram essa idéia de 'jogo do século'. Os jornais escreveram que o vencedor da partida seria designado como 'a melhor equipe do mundo'", diz, absolvendo sua equipe de qualquer pretensão.

Os húngaros vinham de um empate de 2 x 2 contra a Suécia. Antes do embarque para a Inglaterra, foi decidida uma escala em Paris para disputar um jogo-treino contra o time da montadora Renault, onde o técnico Gustáv Sebes havia trabalhado como contramestre. O adversário não era referência, mas o placar serviu como um simbólico estímulo: 16 x 0.

Na capital francesa, onde a equipe permaneceu por quatro dias, o clima era de descontração: "Festejamos nos cabarés Moulin Rouge e Folies Bergère, cujo proprietário era húngaro. Tínhamos de ir ver as belas mulheres", conta Buzánsky.

Em Londres, a seleção húngara se hospedou no Hotel Chamberlain, em Oxford street. As refeições da delegação deveriam ser feitas no próprio hotel, mas como havia um restaurante húngaro-eslovaco muito próximo, os jogadores preferiram a comida caseira. Os treinos no campo de Wembley eram abertos, todo o mundo podia assistir. A família real britânica estava presente nas tribunas do estádio no dia grande desafio, o que ajudou a criar o clima de "o jogo do século".

Segundo György Szepesi, os húngaros viam a partida contra os ingleses com "curiosidade": "Não havia esse sentimento de obrigação de ganhar a qualquer preço, e isso liberou os jogadores". A liberdade em campo foi maior do que o previsto: "Durante 90 anos, os ingleses nunca tinham perdido um jogo no estádio deles. Perderam para nós, em 90 minutos", diz Buzánsky, exibindo um meio sorriso.

Grosics jamais se esqueceu do jantar oferecido após a partida. Em meio ao clima desconfortável, provocado pela surra imposta pelos visitantes, o presidente de honra da federação inglesa de futebol tomou a palavra. "Era um lorde de mais de 90 anos. Ele anunciou: 'Eu saúdo a delegação esportiva da monarquia austro-húngara'. A monarquia desapareceu em 1918, mas para ele isso não era um problema! Foi assim que, em 1953, nos tornamos novamente uma monarquia", conta, às gargalhadas. "Mas, na época, era a monarquia soviético-húngara", acrescenta, sério.

Buzánsky lembra da vez em que, anos depois, um milionário canadense convidou integrantes da equipe de ouro como atração de uma recepção em Toronto, para cerca de 60 pessoas. Em seu discurso de boas-vindas, o anfitrião revelou que estava presente em Wembley no 25 de novembro de 1953, à beira do campo. "Ele atuou como gandula, e disse que do que mais se orgulhava na vida era ter participado do "jogo do século", relata, feliz da vida.

Em 23 de maio de 1954, seis meses depois do vexame de Wembley, os ingleses tiveram a oportunidade da revanche no Népstadion, em Budapeste. Mas o castigo foi ainda mais severo: 7 x 1 para os donos da casa, a maior goleada já sofrida pela seleção inglesa.

Às vésperas do Mundial de 1954, na Suíça, Puskas e sua invencível armada desafiavam todas as estatísticas, destroçavam adversários e assumiam o favoritismo incontestável para conquistar a taça Jules Rimet na grande final em Berna.

Mas esse é outro capítulo da história da inesquecível Aranycsapat e de seus homens de ouro.

O futebol comunista de Godard e da Aranycsapat

Em seu filme Nossa Música (2004), o cineasta Jean-Luc Godard diz que "o comunismo existiu uma vez em duas vezes de 45 minutos", quando os húngaros derrotaram os ingleses em 1953: "Os ingleses jogaram individualmente, os húngaros jogaram em equipe". A irônica provocação do enfant terrible da Nouvelle Vague tabela de forma exemplar com o espírito político e tático do treinador húngaro Gustáv Sebes.

Fiel ao regime e à sua hierarquia, o comandante da Aranycsapat usava a expressão "futebol comunista" ao se referir ao jogo coletivo. Em suas preleções no vestiário, pregava a extensão da luta travada entre o capitalismo e o comunismo ao retângulo demarcado pelas quatro linhas dos gramados. Em tempos de Guerra Fria e de Cortina de Ferro, seus superiores exigiam a vitória como exemplo de supremacia ideológica.

Políticas à parte, Sebes era um amante do esporte e um estrategista aplicado. "O jogo do século" é considerado como um marco do nascimento do futebol moderno, o fim da era do reinado absoluto do esquema tático 3-4-3 (ou 3-2-2-3), o célebre WM, cuja autoria é creditada ao escocês Johnny Hunter, mas que foi desenvolvido nos anos 1920 por Herbert Chapman, treinador do Arsenal. Gustáv Sebes se inspirou ainda nas ideias dos treinadores ingleses Jimmy Hogan e Arthur Rowe. "Quando nós atacávamos, todo o mundo atacava. Na defesa, era igual. Nós fomos os precursores do 'futebol total'", disse, certa vez, Puskas.

Rinus Michels - eleito pela Fifa, em 1999, o técnico do século 20 - admitiu a influência da equipe de ouro húngara na sua concepção revolucionária do famoso Carrossel Holandês, sensação da Copa do Mundo de 1974.

Sir Bobby Robson, treinador da seleção inglesa de 1982 a 1990, declarou sobre as consequências da derrota de Wembley, que assistiu, aos 20 anos: "Durante muito tempo, o futebol inglês mergulhou em um complexo de superioridade paralisante. Essa derrota revolucionou o nosso futebol. Os húngaros jogaram em uma formação tática até então desconhecida: o 4-2-4. Seu jogo coletivo era impressionante, e vê-los desestabilizar completamente a equipe da Inglaterra me marcou profundamente.

Para Buzánsky, o desafio de Wembley não foi apenas uma partida entre duas nações, mas um embate entre os dois sistemas de jogo, no qual a ousadia de seu treinador foi decisiva. "Desde 1928, utilizávamos o esquema WM, inventado pelos ingleses. Mas naquele dia, jogamos em 4-2-4, era uma tática mais moderna, que os brasileiros mais tarde adaptaram dos europeus e usaram na Copa de 1958".

Geoffrey Green, um dos pioneiros do jornalismo no futebol, escreveu na época no diário inglês The Times: "Os ingleses se tornaram estrangeiros em terra estranha, em um mundo em que se agitam fantasmas vermelhos. Pois era a isso que se assemelhavam, em seus uniformes escarlates, os húngaros, com sua velocidade assustadora, sua técnica sobrenatural e sua eficiência de outro planeta".



(Continua amanhã)


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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