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Terça, 9 de junho de 2009, 08h17 Atualizada às 14h47

Hungria, os anos de ouro (2)

Fernando Eichenberg
De Paris

No final do ano passado, estive em Budapeste, a bela capital húngara. Era início de inverno, o termômetro registrava temperaturas em torno de -5°C graus e as calçadas estavam cobertas de neve. A viagem foi motivada pelos encontros previamente agendados com dois personagens da história do futebol mundial: Gyula Grosics e Jeno Buzánsky, hoje os únicos remanescentes da mítica seleção húngara que encantou o mundo na década de 1950. À parte as entrevistas com os dois ex-craques, também conversei com György Szepesi, narrador e comentarista de rádio que acompanhou as façanhas da Aranycsapat - literalmente, em húngaro, "equipe de ouro" -, e com o escritor Peter Esterhàzy, um habitué da relação de candidatos ao prêmio Nobel de Literatura e um fanático por futebol. Como bônus, por uma feliz coincidência de datas, tive a chance de estar presente na comemoração dos 55 anos da célebre vitória da seleção magiar contra os ingleses, em 1963, relembrada anualmente em um emotivo e festivo encontro no Pub Puskas, em Budapeste. Minha breve aventura húngara resultou em uma série de reportagens publicadas no jornal O GLOBO, em três domingos consecutivos de janeiro de 2009 (11/01, 18/01 e 25/01). Apesar do generoso espaço dedicado pelo jornal - uma página inteira por semana -, muitas das histórias coletadas nas conversas com meus interlocutores ficaram de fora da série, que aproveito para republicar aqui, acrescida de material inédito.

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» Hungria, os anos de ouro (1)

O milagre de Berna

"Rahn Schiesst! Tor! Tor! Tor! Tor!". Rahn chuta! Gol! Gol! Gol! Gol! Os gritos do locutor alemão Herbert Zimmermann ecoaram inverossímeis aos 39 minutos do segundo tempo naquele chuvoso 4 de julho de 1954, no Estádio Wankdorf, na cidade de Berna, na Suíça. Alemanha e Hungria disputavam a grande final da Copa do Mundo e o alemão Helmut Rahn, conhecido por The Boss (o patrão) ou O Canhão de Essen (sua cidade natal), acabara de fazer o inacreditável: marcar o gol da vitória de sua seleção sobre os temíveis húngaros. Placar ao apito final do árbitro, diante de 60 mil espectadores: 3 x 2 para os alemães, campeões do mundo.

Às vésperas do Mundial de 1954, só havia uma dúvida em relação ao resultado final: "Quem será o vice-campeão?". Em todas as apostas e previsões, a Taça Jules Rimet já tinha um dono antecipado: a invencível Aranycsapat, a mítica equipe de ouro da Hungria, de Ferenc Puskas, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti e companhia. Ao pisarem no gramado para enfrentar a Alemanha, "Os Mágicos Magiares" estavam invictos desde 1950, há 32 jogos. Mas, contra todas as expectativas, a seleção alemã do técnico Sepp Herberger e do capitão Fritz Walter, depois de estar perdendo desde os 8 minutos de jogo por 0 x 2 (gols de Puskas, 6', e Czibor, 8'), ganhou de virada no que ficou conhecido como "O milagre de Berna".

O comentarista de rádio húngaro György Szepesi narrava a partida à beira do gramado. Relembrar aquele instante hoje, aos 87 anos, ainda é doloroso: "Quando Rahn fez o gol, minha voz não saia mais. Não conseguia dizer nada, fiquei mudo ao microfone. Sabia que era o fim e comecei a chorar - diz, sentado à mesa no restaurante Remiz, em Budapeste.

O goleiro Gyula Grosics confessa que não há um dia em que não pense no trágico jogo. "Já joguei essa partida milhões de vezes na minha cabeça. Sei o que deveria ter feito no primeiro, no segundo e no terceiro gols, mas não se pode mudar o passado. Éramos realmente a melhor seleção do mundo naquele momento, e veio esse jogo que pensamos seria o coroamento do futebol húngaro e de nossa carreira pessoal, mas não funcionou".

Para Buzánsky, o pesadelo de Berna continua, embora amenizado pelo tempo: "A cada 4 de julho sinto suores, frio na barriga, mas não verto mais lágrimas. Mas ainda hoje não é algo fácil de suportar, porque quando se cai do último degrau a dor é maior".

O percurso da seleção húngara para chegar à final fora irretocável: 9 x 0 contra a Coréia do Sul, 8 x 3 na própria Alemanha e um duplo 4 x 2 contra Brasil e Uruguai, os dois finalistas do Mundial de 1950. O jogo contra a seleção do técnico Zezé Moreira e do craque Didi ficou tristemente conhecido como "A batalha de berna": três jogadores expulsos no tempo regulamentar- Nilton Santos e Humberto (Brasil) e Boszik (Hungria) - e uma briga nos vestiários ao final da partida que envolveu também dirigentes brasileiros, com direito a garrafas de água e chuteiras zunindo pelo ar.

"Os brasileiros estavam muito nervosos no final, queriam tanto ganhar, provar que a derrota no Maracanã, em 1950, fora um acaso", diz Grosics. Buzánsky conta que o clima já estava tenso em campo, com as expulsões: "Eu chamei um jogador brasileiro de 'filho-da-puta', e acho que ele entendeu, pois começou a entrar duro em mim. Depois a coisa piorou nos vestiários. Eu comecei a gritar "polícia, polícia!". Mas hoje isso é passado. Acontece muita coisa no esporte".

György Spezsi não se esquece especialmente de um adversário, o craque Didi, mas por uma curiosa razão. "Em húngaro, didi (se escreve da mesma maneira) é uma palavra gentil para designar os seios das mulheres. Ele era um excelente jogador, e fizemos uma canção: 'Queremos Didi'. Após a vitória contra o Brasil foi muito bom cantar isso - conta, rindo.

Na Suíça, a Hungria alcançou o recorde de 27 gols marcados em um Mundial - Sándor Koscis sagrou-se o goleador da competição com 11 gols -, mas não conquistou o título. As mais diversas explicações foram invocadas para explicar "O milagre de Berna": a lesão de Puskas no primeiro jogo contra a Alemanha, provocada por Walter Liebrich (acusada por muitos de proposital) - e que o deixou fora dos confrontos contra Brasil e Uruguai e o debilitou para a final, é uma delas. A chuva, que teria favorecido os alemães; o gol anulado de Puskas a dois minutos do fim do jogo pela dupla de árbitros ingleses (o juiz William Ling e o bandeirinha Benjamin Griffiths) , que teria sido legal, e o suposto uso de doping pela seleção alemã, por muito tempo denunciaod por Puskas, mas nunca provado, foram outras.

Buzánsky alega ainda o cansaço causado pela disputa da prorrogação na semi-final contra o Uruguai, sob a chuva, como fator negativo. "O jogo foi em Lausanne. Perdemos o trem de volta por causa da prorrogação e retornamos de táxi, 180 quilômetros. Chegamos ao hotel às 5h da manhã e não pudemos nos recuperar direito", conta.

No campo das justificativas, houve ainda a tese conspiratória de que o mundo capitalista não poderia permitir a um país comunista levar a taça, e que a vitória alemã teria sido arranjada por uma série de circunstâncias. "É verdade que ninguém podia mais com o triunfo da seleção húngara há quase cinco anos. E é estranho que em três jogos do Mundial havia árbitros ingleses. Mesmo de forma inconsciente, os ingleses não se esqueciam da nossa vitória de 6 x 3 sobre eles em Wembley, em 1953 - diz Grosics, em alusão ao fato de árbitros ingleses terem comandado a final.

Para Buzánsky, o "complô político" é uma possibilidade, mas não uma desculpa: "O futebol é simples, vence o jogo quem tem um gol a mais. E gol é aquele que é validado pelo árbitro. A vida é feita assim", resume.

Mas naquele 4 de julho, o goleiro Grosics, o Pantera Negra, custava a acreditar na simplicidade das regras da vida e do futebol: "Quando nos enfileiramos para a entrega da taça e começaram a tocar o hino da Alemanha, para mim havia um engano: 'Como é que executam o hino alemão e entregam o troféu à seleção alemã?'. Era inconcebível para mim não termos vencido o Mundial.

O Partido Comunista entra em campo

Quem relutou ainda mais em aceitar a derrota foi a direção do Partido Comunista húngaro, que havia preparado uma grandiosa recepção para exaltar a vitória de sua seleção nacional. Face ao inesperado resultado, o cerimonial foi anulado na última hora. Quando o trem da seleção chegou à cidade fronteiriça de Hegyeshalom, em vez dos altos dirigentes do PC, como estava previsto, uma delegação política de terceiro escalão recebeu os extenuados e abatidos jogadores. Grosics foi empurrado ao microfone e o técnico Gustáv Sebes lhe disse: "Fale alguma coisa". "Era uma transmissão ao vivo pela rádio. O que se pode dizer num momento desses? Balbuciei qualquer coisa, nem me lembro o quê. Essa volta e essa recepção na fronteira foi o pior momento da minha vida", conta.

Os jogadores foram levados para o campo de treino da seleção em Tata. O desembarque foi feito sob uma ordem expressa: "As bagagens ficam no trem". "Tivemos realmente medo - conta Grosics. - Chegamos lá ao meio-dia e já era noite e não sabíamos o que fariam conosco". Foi então que apareceu o secretário-geral do PC, Mátyás Rákosi, acompanhado de um cortejo de burocratas do partido.

"Ele nos fez um discurso do qual apenas uma parte ficou na minha memória: 'Uma pena vocês não terem vencido o Mundial, mas, camaradas, vocês poderão corrigir esse erro da próxima vez. E prometo, camaradas, que ninguém terá problemas por causa dessa derrota'. Se ele fez essa observação final era porque deveríamos, sim, nos preocupar!" - recorda Grosics.

A História dará razão ao goleiro. A invasão das tropas soviéticas em Budapeste, em 1956, provoca a dispersão dos craques da equipe de ouro. Alguns jogadores optam pelo exílio - entre eles a estrela maior Puskas -, outros enfrentam adversidades no próprio país, e o futebol húngaro jamais voltaria a brilhar como antes nos gramados do mundo.

O belo na dor de uma derrota

Constantemente citado na relação dos candidatos ao prêmio Nobel de Literatura, Peter Esterhàzy, 59, é hoje um dos escritores húngaros mais celebrados internacionalmente (sua obra começará a ser editada este ano no Brasil pela ed. Cosac Naify). Amante do futebol - e ex-jogador de quarta-divisão da Hungria, pelo equipe do Csillaghegy -, sua temática literária já incursionou pelos gramados. Aos 25 anos, escreveu um conto - intitulado "Grama, lama" -, em que o personagem principal imagina ser o ex-craque brasileiro Tostão. Em 2006, às vésperas do Mundial na Alemanha, lançou sob encomenda do jornal Süddeutsche Zeitung o livro Viagem ao fundo dos 16 metros, um belo e singular texto de reflexões pessoais sobre o futebol.

Para ele, todos os goleiros são "loucos", e foi com surpresa que descobriu que o filósofo francês Albert Camus (1913-1960) jogou como arqueiro no Racing Universitário de Alger. Em suas pesquisas, descobriu ainda outros prováveis goleiros - "mais compreensíveis": o escritor russo Vladimir Nabokov (1899-1977), que teria jogado como arqueiro em Cambridge; e Karol Wojtyla, o papa João Paulo 2 (1920-2005), que também teria defendido umas bolas no passado.

Seu "horizonte espiritual", segundo ele, vai de Beckham a Balzac, de Zidane a Flaubert, de Schwarzenbeck a Plutarco. O inglês Wayne Rooney, do Manchester United, ele compara ao poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926): "Rooney tem um ar de açougueiro, as orelhas, o pescoço, mas a forma como joga é suave, um véu, como Rilke, em que tudo é tão fino, nuançado", explica, à mesa de um restaurante da praça Vörösmarty, no centro de Budapeste.

Sua tese tem uma antítese e uma síntese. A Tese: Puskas é a última personalidade do futebol, o último clarão de modernidade. Depois dele só há estrelas, e com ele cessa o jogo e começa o divertimento. Beckenbauer e Cruijff representam a transição. No futebol, há um pragmatismo belo e frio. A arte pertence sobretudo aos perdedores, mais ao desejo do que ao fim. Como na vida: não se deve ganhar todo o tempo. Mas em um campo de futebol, sim. Aquele que não quer ganhar, não respeita o jogo. Quanto à vida, ela é invencível. É com Puskas, portanto, que algo desaparece do mundo, se torna diferente.

A genialidade não se resume a excelência das capacidades, diz Esterhàzy. O gênio de Puskas consistia em sua faculdade de identificação ao jogo, eles eram um, era ele que definia o mundo - o mundo aqui como o retângulo do campo. Puskas criou a unidade do indivíduo e do grupo, sem a qual o indivíduo não podia existir. Ele servia aos outros e os dirigia ao mesmo tempo. Ele se submetia ao que criava. O escritor lembra uma das tantas anedotas do craque maior: "Certa vez, quando, durante um treino, uma criança lhe devolve uma bola perdida com as mãos, ele se derrama em lágrimas. 'Com as mãos! Vocês viram?! Ele tocou a bola com as mãos!', exclamou, aos prantos". Uma bola, na lógica do craque, só se concebia tocá-la com os pés.

O futebol é um produto da sociedade de massa. A aristocracia preferiu os esportes individuais. Puskas, como paradigma do século, é a última personalidade total, a última que tenha possuído o coração, o espírito e a razão em harmonia.

A Antítese: Puskas é o primeiro dos pós-modernos. Puskas nem mesmo existe, há apenas as ideias que se faz dele, é uma página branca na qual cada um escreve o que quer, um herói de conto popular, o traidor, o vencido, o egoísta. Se há um Puskas, há mil Puskas. Ele é o que imaginamos dele. É o eterno possível. Para Nabokov, lembra Esterhàzy, o narrador Proust não é Proust, o homem, e seus personagens romanescos nunca viveram, exceto em sua imaginação. A verdade seria a mesma para Puskas, o que faz dele o maior jogador de futebol do mundo.

A Síntese: o escritor conheceu pessoalmente Ferenc Puskas, e inclusive, uma vez, lhe apertou a mão. "Desde esse dia carrego minha mão por todo lugar como uma relíquia", escreveu. "Eu sei perfeitamente o que ocorreria se essas linhas chegassem até ele. Ele me daria simplesmente um grande chute na bunda. E, em meu horizonte, isso constituiria a síntese".

Para Peter Esterhàzy, a final de 1954 foi carregada de um sentido histórico além do peso um jogo ordinário. Desde o século 16, nota ele, a Hungria só acumulou fracassos. A derrota pertence aos húngaros como "a pulga ao cachorro": "Jamais uma guerra vitoriosa, jamais uma revolução vitoriosa!".

Mas da obscuridade a mais profunda, surge o rei Puskas e seus talentosos guerreiros para mudar o curso da História. Em vão. "Já se passaram mais de 50 anos, mas não há outro jogo do qual se fala tanto na história do futebol. Todo o mundo sabe que os húngaros eram os melhores naquela época. Eles ganharam todos os jogos, exceto o mais importante. Do ponto de vista dramatúrgico, é simples assim", diz.

Para o escritor, o acontecimento teve repercussões além do campo do futebol: "Ele igualava quase a refundação da Bundesrepublik. Segundo alguns, a dispersão da equipe de ouro, em 1956, teve igualmente um valor simbólico: desde essa data não há seleção, não há país. Foi a coluna vertebral do país que foi quebrada em 1956, ele não se reencontra mais. Mais precisamente, o país se dissimulou. Ele se dissimulou por trás de um personagem. Lá onde há Thomas Mann, há a Alemanha. Lá onde há Puskas, há a Hungria", escreveu.

Por muito tempo, Peter Esterhàzy se recusou da falar de "O milagre de Berna". "Com todas as minhas forças, procurava extirpar esses 90 minutos da História do mundo", escreve. Hoje, recorda sem pesar: "Li tantas coisas sobre essa partida, se vê de tudo: a lesão de Puskas, a questão se o gol dele no final foi válido ou não, tudo é ótimo para uma teoria da conspiração. Mas foi simplesmente fantástico o que essa equipe fez naqueles anos. Prefiro pensar não com nostalgia ou mesmo com dor, mas sim na beleza que esse jogo representou", diz, antes de sumir na chuva noturna de Budapeste.



(Continua amanhã)


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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