
Atualizada às 16h56 |
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Júlio Gomes de Almeida: "A valorização cambial trás poucos benefícios, enquanto os prejuízos causados ao produto doméstico e às exportações podem ser muito grandes"
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Julio Gomes de Almeida
De São Paulo
O tema da taxa de câmbio novamente ganha destaque diante da perspectiva de que mais uma vez a moeda nacional se valorize firmemente e anule a desvalorização ocorrida desde o agravamento da crise internacional em setembro do ano passado. O dólar que chegou a ser cotado em R$ 1,65, mas se valorizou após a crise passando para R$ 2,40, vem sendo cotado abaixo de R$ 2,00. O Banco Central afirma que não há o que fazer: nem deve aprofundar a queda da taxa de juros nem devem ser levantadas barreiras ao capital que passou a ingressar em muito maior escala na economia brasileira. Esse ingresso, juntamente com apostas de valorização da nossa moeda em mercados futuros, dita o aumento do Real.
Por que a valorização de nossa moeda é prejudicial nesse momento? Porque há um grande excesso de capacidade de produção a nível mundial e os principais mercados demandantes regrediram drasticamente devido à crise. Isso restringiu tanto a competitividade da produção brasileira de se impor no mercado interno diante do produto importado quanto a do produtor nacional proteger suas posições em mercados externos. Assim, a valorização cambial trás poucos benefícios, enquanto os prejuízos causados ao produto doméstico e às exportações podem ser muito grandes. As exportações brasileiras, que já vinham caindo expressivamente em função da crise, podem iniciar um novo processo de queda se for confirmada esta valorização da moeda.
Outro ponto deve ser considerado. O mesmo processo que fez refluir em termos relativos a "fuga para a qualidade" e reacendeu as operações em mercados de valores à vista e futuros de países emergentes mais rentáveis - onde o mercado brasileiro é destaque pois oferece uma incomparável combinação de juros altos e valorização cambial esperada é o mesmo que vem favorecendo a valorização de commodities não industriais. Isso, por seu turno, ajuda a preservar os valores das exportações de países que têm nesses produtos uma fonte relevante de vendas externas.
Esse é o caso brasileiro, mas, como convém observar, o desdobramento acima não melhora ou suaviza a queda em valor das exportações de manufaturados que ainda são predominantes na pauta exportadora do país. Pelo contrário, essas exportações não só não são favorecidas em valor, como o processo primo-irmão do aumento das cotações de commodities que é a valorização do Real, pode levar a uma retração adicional das exportações em volume de produtos industrializados.
Não custa lembrar que a recessão da economia brasileira entre o último trimestre do ano passado e o primeiro trimestre de 2009 foi essencialmente industrial. A indústria desde então vêm melhorando seus níveis de produção, mas em uma dimensão ainda pequena em comparação com o "tombo" do período anterior e uma das razões mais destacadas para essa recuperação apenas modesta e parcial se deve à dura contração dos mercados externos para manufaturados brasileiros. Ou seja, o mercado interno deu sinais de uma recomposição positiva o que ajudou a reanimar a indústria após o forte baque inicial da crise, mas o processo não foi além devido à queda dos mercados exportadores.
Para se ter idéia, para setores competitivos da economia brasileira, como motores elétricos, aço ou automóveis, as vendas externas vêm declinando entre 50 e 60%, uma perda que, ao menos em uma parcela significativa, pode se revelar definitiva se persistir a menor competitividade pelo motivo cambial.
O que se pode dizer desses e de outros mercados de exportação de produtos industriais brasileiros é que a queda dramática a partir do impacto da crise internacional se estabilizou no período mais recente. Isso significa dizer que, mantidas as coisas como estão presentemente, se poderia esperar algo como um lento e gradativo processo de melhora dos indicadores industriais a partir da melhora das condições internas combinadas a um não agravamento das condições externas, de forma que em um certo período como um ano a perda de produção anterior seria recomposta.
Sendo, no entanto, confirmada a valorização do Real, esse processo tem menor chance de ocorrer, pois a perda em volume de exportações de manufaturados pode ter prosseguimento e. ao lado disso, uma maior penetração de produtos importados pode comprimir a produção industrial nacional.
Essas considerações deveriam bastar para uma decisão de governo de conter a valorização excessiva da moeda nesse momento todo especial moldado pelas mudanças profundas no cenário econômico mundial a partir da crise. Mas há uma outra: os maiores recursos que vêm do exterior para o país e as redobradas apostas no mercado futuro de dólar são contrapartida de um alívio possivelmente parcial e momentâneo da situação financeira internacional. Um dos principais alvos desses capitais é, como já foi observado, o Brasil, pois o nível e o percurso da taxa de juros definidos pelo Banco Central autorizam antecipar uma significativa valorização do Real. Sendo, ademais, um país cujas contas externas resistiram à crise internacional graças às reservas acumuladas, e cujas empresas e setor público oferecem bons, rentáveis e líquidos papéis, não há porque não aproveitar essa oportunidade de ganho rápido e fácil.
Nada do que foi dito se aplica ao chamado investimento direto estrangeiro, vale dizer, ao ingresso líquido de recursos para aplicações produtivas em empresas no país. Mas, quanto ao capital que vem com a mesma facilidade com que bate em retirada, este deveria ser desincentivado nesse momento por trazer um benefício puramente ilusório e momentâneo à economia financeira, ao passo que seus potenciais efeitos negativos são reais e significativos. A economia não precisa da valorização da moeda para controlar a inflação, mas uma nova (e possível) mudança do quadro internacional que leve a uma nova desvalorização cambial, pode ser capaz de trazer de volta o fantasma do aumento de preços e reacender as pressões para reverter o processo de redução de juros. Os detentores de ações, os fundos de investimento e demais intermediários dos negócios beneficiados pelo capital especulativo gostam e aplaudem, é claro, os ganhos obtidos com a melhora dos fluxos dos capitais de curto prazo do exterior. Mas, ademais, querem fazer crer que a conseqüente reanimação do mercado acionário beneficia o financiamento das empresas, o que é uma absoluta inverdade no contexto atual. Bastará uma mudança do humor internacional - que não deve ser descartada para que a direção desses fluxos de capitais se inverta e derrube novamente o mercado. Isto, sim, seria capaz de adiar por mais algum tempo a construção de um efetivo mercado de capitas no país.
O Banco Central alega que não deve reduzir prontamente a taxa de juros em uma intensidade que desarme ou ao menos tornem duvidosas as apostas de valorização do Real. Sustenta que não pode comprometer esse recurso (o manejo da taxa de juros), que é exclusivo da política de controle da inflação, com a correção das contas externas. Mas onde está o perigo de inflação? Como decorrência da crise, a ociosidade na indústria e na economia já atinge um nível tão alto que, para efeito de controle inflacionário, por muito tempo será seguro reduzir e manter baixa a taxa de juros.
A autoridade monetária errou ao reduzir a queda da taxa de juros em sua última reunião, o que sinalizou desaceleração do processo de diminuição da taxa de juros ao longo desse ano e conseqüente valorização da moeda. Manter a redução da taxa Selic em 1 ponto percentual (equivalente à redução promovida em abril) na reunião do Banco Central de amanhã e aplicar sem constrangimentos medidas administrativas transitórias para limitar os fluxos voláteis e as apostas em mercados futuros, são ações que o governo não deve deixar de executar desde já.
Terra Magazine