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Quarta, 10 de junho de 2009, 08h22

Como se fosse domingo de manhã

Amilcar Bettega
De Paris

Quando tudo parecia perdido, quando não havia nenhum sinal de saída e a sensação era de que não havia nada mais a fazer, ele sentou para pensar.

Só conseguia pensar sentado. E o primeiro lugar que se apresentou foi um pequeno café com mesas espalhadas por um espaço lajeado e coberto por uma parreira. O sol era forte, fazia bastante calor e a parreira produzia uma sombra falhada. As pessoas iam e vinham com ar descontraído de quem passeia no domingo pela manhã. Talvez fosse domingo. Era quase certo que era de manhã.

Ele sabia pouco sobre o lugar em que se encontrava. Mesmo a língua que ali falavam parecia-lhe bastante estranha. Não se recordava de já ter ouvido sons semelhantes. Há quantos dias andava por ali? Impossível precisar. Talvez semanas, ou mesmo meses ou anos. Até o motivo que o trouxera ali escapava-lhe um pouco.

Mas não era por falta de esforço que a sensação de estar perdido se impunha. Ele até tentava encontrar alguns pontos de apoio para o seu pensamento. Sabia, por exemplo, que fora levado até ali por causa de um objetivo importante, mas que objetivo era este exatamente? Sua memória falhava e isso o irritava. Olhava para a sombra da parreira sobre as lajes quentes de sol e se dizia que sua memória era cheia de buracos como aquela sombra. Talvez tenha sido por isso que formalizara, em pensamento, a idéia já expressa da sombra falhada da parreira. Portanto, desde que sentara e observara a sombra da parreira projetada sobre as lajes já estava refletindo sobre a sua situação. Aquilo era animador e tranquilizava-o um pouco. Aquilo, no caso, era o fato de estar refletindo sobre sua situação, mesmo quando não se dava conta disso.

Também havia aviões que passavam no alto de cinco em cinco minutos produzindo um barulho enervante. Concluiu que o aeroporto não ficava muito longe dali. Ficou contente com sua conclusão. Porém, o barulho continuava presente, e continuava sendo enervante. Mas as pessoas nem davam por isto, elas continuavam, por sua vez, a ostentar aquele ar descontraído de domingo, o que também começava a enervá-lo.

E se não fosse domingo? Seria ainda pior, ainda mais enervante. Talvez não fosse domingo. Era quase certo que não era domingo.

Ele estava sentado, pensando, e sozinho. Eis um dado novo, mas apesar disso, de uma evidência acachapante: ele estava sozinho. E aí talvez esteja a chave. Ele estava completamente sozinho. Mas é preciso entender a sua solidão para além do fato de ele não conhecer ninguém por ali com quem pudesse falar ou dividir simplesmente alguma coisa, qualquer coisa que fosse. Ele estava fechado, encerrado em sua solidão. A tal ponto que parecia ter se tornado invisível. Mas era, ou foi pelo menos, ainda que agora ele fizesse algum esforço para escapar de onde tinha se metido, uma solidão voluntária. Isso é que era o pior de tudo. Um belo dia, sabe-se lá por que, ele decidiu se fechar, se negar a participar da vida que corria de um para outro e daquele para outro, e assim por diante. Nele, aquela corrente falhava. Outra vez essa palavra, que já começa a ganhar cores nefastas, ele pensou. Sim, porque ele continuava sentado, e consequentemente, pensando.

Nele, a corrente falhava. Um ponto cego. Restava saber por que, um dia, ele se negara a participar dessa corrente que agora ele chamava vida. Por que tinha se fechado assim?

Agora precisava lidar com as consequências. Ou melhor, com a consequência: tinha perdido a possibilidade do retorno. Não sabia mais como voltar. E quando não se sabe mais voltar, é justo dizer, sem medo de errar: estamos perdidos. Parecia lógico pensar que estava perdido.

E isto o tranquilizou ainda um pouco mais. Isto, no caso, é o fato de ele ainda ser capaz de um pensamento lógico. Tudo poderia desmoronar à sua volta, mas se ele mantivesse o pensamento lógico, ele pensou, então tudo bem.

Então tudo bem, ele pensou.

Mas o fato é que não estava tudo bem. Longe disso, a coisa estava feia, degringolando mesmo. Degringolando? E por que essa palavra agora? Não teria outra para usar? E os aviões? Eles não paravam de passar. Parecia que a frequência aumentava. E que estavam voando mais baixo. Dali a pouco iam passar arrancando as poucas folhas da parreira, tamanho o ruído que faziam. Mas as pessoas não davam por isso. Mesmo se eles, os aviões, passassem por dentro da sua cabeça, entrando num ouvido e saindo no outro, a impressão é de que todo mundo continuaria a passear tranquilamente como se fosse domingo de manhã.

Talvez fosse isso mesmo o que tinha de fazer. Talvez fosse essa a saída, a chave. Como se fosse um domingo de manhã. Então ele se levantou. Assumiu o ar mais descontraído possível e saiu caminhando como se fosse um domingo de manhã.

Nem tudo estava perdido, embora os aviões passassem cada vez mais baixo, fazendo um barulho terrível, parecia até que cruzavam dentro da sua cabeça.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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